Abu Dhabi, Nos Emiratos Árabes Unidos (EAU), foi o local escolhido por Donald Trump, que já disse que Vladimir Putin e Volodymyr Zelenski "querem acabar com a guerra", para sentar à mesa os dois lados das trincheiras, já esta sexta-feira, 23, e Sábado, 24, para aproveitar os ventos de feição e chegar "rapidamente" à paz.
Isto, se as autoridades dos Emiratos souberem deste encontro, que pode ser histórico, porque, ironizou o Presidente ucraniano, "de vez em quando somos confrontados com estas coisas da parte dos amigos americanos".
Mas o Governo dos EAU deve estar a par das 48 horas de negociações que Donald Trump agendou para Abu Dhabi, com a concordância de Vladimir Putin, que, quase à mesma hora que o americano reunia com Zelensky em Davos, recebia no Kremlin Steve Witkoff, o enviado especial da Casa Branca para a guerra na Ucrânia.
E se o Presidente dos Emiratos, o xeque Mohamed Al Nahyan, não sabia, agora já sabe, porque a notícia correu pelos media internacionais como fogo em capim seco, até porque, como raramente aconteceu nestes quatro anos de guerra, excepção feita aos primeiros dias de Março de 2022, nunca a paz pareceu estar tão próxima.
Longe vão os dias em que russos e ucranianos, em Março e Abril de 2022, logo após os blindados de Moscovo terem atravessado a fronteira ucraniana para empurrar a NATO para longe das suas fronteiras face á ameaça de Kiev entrar na Aliança Atlântica, quase davam por findas as hostilidades.
O que se espera desta feita, até porque Witkoff garante que a paz está presa por um fio, é que não se repita o mesmo que em 2022, quando o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson irrompeu por Kiev, com respaldo do Presidente dos EUA, Joe Biden, para retirar Zelensky das negociações com Putin.
Mas há um elemento que se repete. Se em Março de 2022 a Ucrânia, ainda sem o apoio massivo em armas e dinheiro de europeus e norte-americanos, que Boris Johnson prometeu a Zelensky a troco da continuação da guerra, estava à beira de soçobrar aos avanços russos sobre Kiev, hoje a situação volta-lhes a ser claramente desfavorável.
Zelensky que no seu discurso em Davos, para onde já tinha anunciado não ir mas recuou à última da hora para se encontrar com Trump, acusou, num tom de rara agressividade, os líderes e seus principais aliados europeus de estarem a ignorar o que se passa na Ucrânia por terem mudado as antenas para a Gronelândia.
E essa é uma das razões, segundo vários analistas, para que o regime ucraniano se mostre mais receptivo a um acordo, como Volodymyr Zelensky disse em Davos, ao admitir que "ambos os lados têm de fazer concessões", o que é algo de totalmente novo desde que o processo negocial inicial desmoronou sob a força do buldózer Boris Johnson em Abril de 2022.
E este surpreendente regresso do conflito ucraniano ao topo da agenda de Donald Trump parece estar intrinsecamente ligado ao iminente colapso da Ucrânia, devido à situação desastrosa da sua força militar, como admitiu o novo ministro da Defesa (ver aqui), e porque o país foi quase totalmente desligado da corrente eléctrica, que garante o aquecimento numa altura em que as temperaturas baixaram para os 20 graus negativos em Kiev, pelos drones e misseis russos que há meses se sucedem em vagas sobre quase todo o território.
As coisas são de tal modo surpreendentes que Steve Witkoff, antes de voar para Moscovo na quinta-feira desta semana, parecia estar mais optimista que nunca, ao garantir aos jornalistas antes do encontro com Putin que a paz na Ucrânia dependia apenas de "um simples pormenor".
Pormenor esse que, se as declarações conhecidas de todos eles tiveram respaldo na realidade, Zelensky, Putin e Trump estão convictos que pode ser ultrapassado rapidamente em Abu Dhabi, quando as delegações dos três países se sentarem à mesa ao final do dia desta sexta-feira e ao longo do Sábado, 24.
Não se sabe o que é especificamente, mas sabe-se que é um "pormenor" territorial, e que, como disse Zelensky, sobre ele ambos os lados terão de ceder, o que deixa pouca margem para lá de uma possibilidade que tem vindo a ser considerada pelos analistas.
Do lado dos russos estarão agora mais receptivos a abdicar da parte das regiões anexadas que ainda não controlam, em Donetsk, Kherson e Zaporizhia, cerca de 20% no total, saindo igualmente das áreas onde abriram novas frentes, a norte, Sumy e Kharkiv, e a oeste, em DniproPetrovsk.
Enquanto isso, os ucranianos, se tal cenário se vier a confirmar, vão aceitar a perda de soberania de Lugansk e Crimeia (anexada em 2014), na totalidade controladas pelos russos, e os cerca de 80% dos territórios na posse das forças do Kremlim em Donetsk, Kherson e Zaporizhia.
Isto, porque, como se percebeu ao longo dos quatro anos de conflito, mesmo que com recuos momentâneos, Kiev já deixou cair a questão da adesão à NATO e abdica da exigência da presença de forças da NATO no território no contexto das garantias de segurança.
E parece já ter mesmo anulado as restrições ao uso da língua russa no país porque, segundo relatos recentes, as escolas voltaram a usar o russo como língua de ensino nas regiões onde esta é a língua do dia a dia das populações, sendo a mais fácil a questão religiosa, onde a Igreja Ortodoxa russa nunca deixou de ser seguida maioritariamente no leste do país.
Em pano de fundo está aquele que é o assunto de maior melindre para Moscovo, actualmente, visto que a questão ucraniana, como Putin tem dito amiúde, será resolvida de forma negociada ou pela via militar, o que parece estar a acontecer através de ambas as vias, com a segunda a impulsionar a primeira, a questão da segurança paneuropeia.
É que o Kremlin desde pelo menos 2008, quando Putin alertou o mundo para este assunto, na Conferência de Segurança de Munique (MSC), na Alemanha, um fórum global para discussão de política de segurança internacional, não abdica de ter uma resposta sobre os avanços da NATO para leste, que considera ser uma ameaça existencial e diz estar na génese mais profunda da actua guerra na Ucrânia.
Tese que é precisamente a mesma que Vladimir Putin alertou em 2008 o mundo que teria consequências severas porque para Moscovo esse avanço da NATO para leste representava uma ameaça existencial para a Federação Russa e que, agora, noutra forte possibilidade, pode estar a querer ser resolvida por Putin, com um eventual compromisso com Trump.
Compromisso que alguns analistas admitem ter sido secretamente acordado no Alasca e que passa por libertar a Rússia da pressão da NATO nas suas fronteiras a Leste, o que pode passar por fazer sair ou reduzir de forma significativa a presença militar dos EUA nas suas bases localizadas nos países mais próximos da Rússia, de onde sobressaem a Roménia, a Bulgária, a Alemanha ou mesmo o Norte de Itália.
A troco de quê Trump poderá fazer estas cedências a Putin, está no segredo dos deuses do Alasca, mas o chefe do Kremlin já veio aceitar que a Gronelândia seja negociada para passar a ser parte dos Estados Unidos da América, fazendo-o de uma forma no mínimo rebuscada.
E fê-lo lembrando que também a Rússia já vendeu o Alasca ao EUA, em 1867, por 7,2 milhões de dólares, e que, pelos seus cálculos (de Putin), a Gronelândia valeria agora para a Dinamarca à volta de mil milhões de dólares, que é o mesmo que dizer que Moscovo não se oporá a passagem da soberania da ilha para os Estados Unidos.
Nada há para dar como certo e seguro neste "grand jeu" global, mas ninguém poderá dizer que a situação não é de grande interesse para historiadores e analistas, como, de resto, ficará claro nas próximas semanas.















