A Federação Russa cedeu à pressão da força dos EUA e apenas esboçou suaves críticas à perda do navio, acusando Washington, através do Ministério dos Transportes, de ferir a lei e ignorar a Convenção Marítima das Nações Unidas, uma demonstração de fraqueza que está a ser aproveitada em Washington e Londres para apertar o cerco ao Kremlin.
Uma das exigências russas foi que a tripulação do Marinera seja libertada e enviada para casa, enquanto, ao nível ministerial, acrescentava declarações de desconforto com o ataque norte-americano ao arrepio das normas e convenções internacionais.
Isto, quando, segundo diversos media, a acompanhar o Marinera (ver links em baixo), cuja carga ainda não foi revelada, mas não era petróleo, porque a embarcação não chegou a carregar na Venezuela, estava um submarino e, à distância, outro navio da Marinha russa, que se limitaram a observar.
Esta embarcação russa tem um histórico atribulado nas últimas semanas, quando chegou ao Mar das Caraíbas, como Bella-1, a meio de Dezembro, alegadamente para ajudar a furar o bloqueio anunciado por Donald Trump ao crude venezuelano.
Segundo diversas fontes, o Bella-1 foi mandado parar pela Guarda Costeira dos EUA mas optou por mudar de rumo e, ainda no fim de Dezembro, tentar a fuga para mar alto, iniciando o regresso a casa, mudando de nome pelo caminho, para Marinera, e para pavilhão russo.
Foi perseguido ao longo de milhares de quilómetros por navios de guerra norte-americanos, num trajecto a todo o vapor que gerou forte espuma e muitas dúvidas sobre o seu manifesto de carga.
E chegou a ser admitido, nalguns canais das redes sociais, que teria a bordo as reservas de ouro venezuelanas, as maiores da América Latina, oficialmente estimadas em 161 toneladas, e grandes quantidades de divisas colocadas a bordo ainda antes da operação de sequestro do Presidente Nicolas Maduro, a 03 de Janeiro.
Essa carga preciosa seria a justificação para as manobras perigosas para escapar ao bloqueio dos EUA feitas pelo Marinera, e, ainda mais estranho, o esforço feito pelos norte-americanos para o tomar de assalto implicando nisso o seu Comando Europeu nas ilhas britânicas e mesmo o Governo de Londres.
No entanto, apesar dos crescentes rumores nesse sentido, o que fica no rasto desta estranha e perigosa aventura marítima, a epopeia do Marinera (Marinheira, em português), é que, pela primeira vez na história conhecida, incluindo na Guerra Fria, um navio com bandeira russa é alvo de um ataque militar dos EUA.
Para já, face á resposta limitada e contida de Moscovo, dando crédito à política do Presidente Donald Trump, que defende que o uso da força resolve mais problemas do que aqueles que gera, Washington já veio dizer que vai continuar a tomar de assalto os navios russos que não cumprirem as sanções dos EUA.
E o mesmo já disse o Reino Unido, que, após o sucesso das forças navais americanas, veio anunciar que não vai deixar passar ao largo da sua costa as embarcações russas que estejam sob sanções internacionais, naquilo que é uma referência à "frota fantasma" que Moscovo usa para driblar as sanções ocidentais ao seu crude no contexto da guerra da Ucrânia.
E isso parece já estar a acontecer, porque, segundo o britânico The Guardian, na quarta-feira, as forças navais norte-americanas anunciaram que tomaram mais um petroleiro da tal frota "fantasma" russa, o M. Sophia, desta feita ao largo da costa da Venezuela.
E, como avança a Reuters, num comentário a estas operações militares sobre navios russos, a Casa Branca já veio dizer que a caça às embarcações que estejam a operar ilegalmente, face ás sanções de Washington, "vão continuar a ser capturadas".
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, ainda no mesmo momento, em resposta aos jornalistas, confrontada com o risco de uma escalada perigosa entre as duas maiores potências nucleares do mundo, contornou o assunto, "escalando-o" ao dizer que as tripulações destas embarcações podem ser transferidas para os EUA para serem julgadas.
Sobre esta evolução das tensões no mar entre russos e norte-americanos, que começam a deteriorar-se claramente depois de Donald Trump, após chegar ao poder, em janeiro de 2025, ter reiniciado os contactos bilaterais com Moscovo, totalmente cancelados no contexto da guerra da Ucrânia pela anterior Administração de Joe Biden, a diplomacia russa apenas diz que está a seguir a situação "com atenção e proximidade ".
O Ministério russo dos Negócios Estrangeiros lembrou ainda, numa reacção cautelosa e prudente, citado pela RT, dando, segundo vários analistas, uma ideia de fraqueza que pode ser aproveitada pelos EUA para ganhar tracção no uso da força como razão, que entre a tripulação do Marinera estão cidadãos russos que devem ser tratados "com humanidade e dignidade".
O que fica, para já, claro, é que o Kremlin optou claramente por não afrontar os Estados Unidos, usando uma retórica de baixo perfil para não escalar tensões com Washington quando, ao mesmo tempo, decorrem situações de maior relevância, como o conflito ucraniano e as negociações de paz e ainda o ataque na Venezuela, um aliado estratégico de Moscovo, embora as negociações de retoma das relações bilaterais estarem agora claramente comprometidas.
Alguns analistas admitem que a opção de baixo perfil na reacção ao caso Marinera é resultado de um plano de acção que envolve também a China no contexto da crise venezuelana, onde Pequim e Moscovo têm interesses relevantes, incluindo económicos.
E, não menos relevante, quando, segundo alguns media, um assunto a que a imprensa estatal russa está a dar especial atenção, com a RT a fazer disso manchete, o Senado do Congresso dos EUA, de acordo com o senador Lindsey Graham, um activista anti-Rússia de primeira linha, vai votar um novo e robusto pacote de sanções a Moscovo.
Isso é possível, segundo Graham, porque o Presidente Donald Trump, que tem mostrado dúvidas sobre a forma de lidar com a política de sanções à Federação Russa, deu agora luz verde a uma nova vaga de punições, desta feita com uma forte possibilidade de aprovação de valores de tarifas recorde.
Segundo o senador republicano, em cima da mesa vai estar para aprovação um pacote de sanções que passa para 500% as tarifas a aplicar a todos os países e empresas que façam negócios com a Rússia ou empresas russas no campo da energia, crude e gás.
Face a esta evolução, o que mostra que Donald Trump está a virar agulhas para o lado daqueles que entre os corredores do poder em Washington defendem um endurecimento feroz contra a Rússia, em Moscovo o Presidente Vladimir Putin poderá estar a procurar não adensar as tensões reagindo com maior dureza ao caso Marinera.




