Amigo do amigo. Escolhe-se um tipo muito simpático, daqueles que dá palmadas nas costas e sabe o nome de todos os generais e ministros. Tem um currículo? Tem, mas ninguém leu. O que interessa é que é de confiança. Nos primeiros dias, até corre bem. Depois, começam a aparecer uns processos mais complicados que envolvem uns primos afastados de uns tios próximos de uns cunhados importantes. Os processos começam a ficar arquivados.
O doutor teoria. Escolhe-se um académico de primeira, com livros publicados e citações em todas as teses de doutoramento. Sabe Kant de cor e salteado e defende que o direito é uma ciência pura. O problema é que nunca pôs os pés num tribunal de verdade. Quando chegam os processos de corrupção sofisticada, com offshores e testas-de-ferro, o homem enterra-se em pareceres jurídicos enquanto o dinheiro foge pela janela. A celeridade processual? Isso é conversa para quem não tem rigor académico. A justiça torna-se tão lenta que os netos dos réus é que vão ver o desfecho dos casos.
O campeão da moralidade. Escolhe-se um puritano, daqueles que querem limpar tudo num estalar de dedos. Nos primeiros meses, é uma romaria de busca e apreensão. Mas depois descobre-se que a pessoa, na ânsia de limpar o país, esqueceu-se de respeitar os direitos fundamentais, mandou prender sem provas, violou segredos de justiça e transformou os tribunais em circo mediático. Os processos caem por vício de forma, os arguidos são soltos com indemnizações gordas, e o país fica a ver navios.
Escolher o PGR é tão simples como fazer um bom funge? É preciso fuba de qualidade, água na medida e temperatura certa e mão firme para mexer. Se for com pouca farinha, desanda. Se for com água a mais, fica uma papa que ninguém quer. E se for com mão mole, queima-se todo e estraga-se a panela.

O que o país precisa é de um procurador com independência para dizer não aos poderosos, com competência para entender os esquemas mais enrolados que novelo de meia, com humildade para ouvir os cidadãos comuns e com coragem para acelerar os processos sem atropelar a lei. Alguém que saiba que a justiça tardia não é justiça, mas também que justiça feita com pressa é apenas vingança com toga. E acima de tudo, que não se esqueça disto: o cargo não é para servir amigos, inimigos ou padrinhos. É para servir a lei. E a lei, essa sim, devia ser a única madrinha com assento na Procuradoria.