O Presidente José Eduardo dos Santos, em 1987, tentou enxovalhar Adriano, então ministro do Comércio Interno, acusando-o de ser um dos responsáveis pela fome que então afligia a população de Luanda, através de um decreto que ficou na história pela sua originalidade e enorme falta de respeito por um homem com obra feita pela pátria - e que até era parente. Anos depois, tentou corrigir o erro do jeito habitual das lideranças angolanas: oferecendo - através de mensageiro - um cargo "chorudo" numa grande empresa pública, a quem, no dito decreto, não poderia voltar a ser nomeado, fosse para o que fosse, pelo Presidente. Adriano recusou, apesar das pressões sofridas. Por ser vertical, digno e corajoso. Por ser grande, muito maior do que muitos outros que mereceram destino bem diferente.
Adriano começou a ser grande ainda jovem. Em 1959, um grupo de jovens, ainda estudantes na sua maioria, aproveitando um contexto de relativa fragilidade da parte das forças militares e de segurança colonialistas depois das prisões daquele ano, protagonizou uma rebelião que culminou na declaração da independência a 10 de Dezembro. Essa é uma história ficcionada por Jonuel Gonçalves em 2018, no livro E SE ANGOLA TIVESSE PROCLAMADO A INDEPENDÊNCIA EM 1959? O autor escolheu Adriano como um dos protagonistas centrais, a par de outros nacionalistas como Diógenes Boavida (que viria a ser o Presidente fictício), Zeca Cohen, Neves Bendinha, Cónego Manuel das Neves, João Abel, Fernando Teixeira Baião, Luandino Vieira, Adolfo Maria, Lopo do Nascimento e do próprio Jonuel, entre muitos outros. Alcançada a vitória, Adriano, como outros companheiros, regressou à vida normal, algo normal nada normal em Angola.
A metáfora corresponde à vida real de Adriano. Lutou pela independência, mas não se preocupou com cargos, ajudou a construir o País, sem pedir nada em troca. Foi, acima de tudo, um militante da causa da justiça social, da verdade e do humanismo. Levou sempre uma vida simples e austera, mesmo quando foi governante, nunca trocando o seu apartamento por uma mansão. Soube fazer dos seus filhos cidadãos exemplares, com obra já feita, na mesma senda do progenitor. Como me disse um deles, não partiu sem antes apontar o rumo desejado para os herdeiros.
Vidigal foi, igualmente, um homem coerente com as suas ideias e ideais. Conhecemo-nos no Huambo e tornamo-nos amigos quando começou a cuidar (muito bem) da minha saúde, em 1988. Discutíamos os problemas de Angola e do mundo, com posicionamentos diferentes, frequentemente, mas sempre com respeito mútuo e tentando encontrar pontos de convergência possíveis. Vidigal foi coerente quando, com muitos outros jovens, aderiu generosamente a uma causa que achou justa, outros consideravam aquela causa radical e desvirtuadora dos propósitos da revolução angolana, e outros, ainda, desviante do ideal marxista-leninista. Incompreensões e sectarismos, associados a muita ingenuidade e inexperiência, transformaram aquilo que poderia ser uma disputa política e ideológica em actos violentos que, por sua vez, transformaram outros jovens, que, igualmente, haviam abandonado tudo para se entregar à epopeia da independência e da justiça social, em "algozes, capazes de trucidar o seu companheiro de armas e de ideal, por ter este [ como antes os outros] colocado uma vírgula num local diferente do pensamento que se pretendia impor", como escreveu Apusindo Nhari.
Vidigal pagou preço elevado por ter defendido o seu ideal naquela altura. Depois de uma prisão de dois anos, voltou a ser vítima do famigerado "centralismo democrático" que defendia como marxista-leninista - e que era suposto existir para ser gerido por imaginários "homens puros" - com a interdição, por vários anos, de leccionar na Faculdade de Medicina, apesar da sua elevada competência como cardiologista e da enorme carência de professores. Tentou regressar à política partidária no início dos anos 90 e voltou a sofrer dissabores, incluindo ligados ao preconceito racial, com o inenarrável procedimento do efémero Partido de Renovação Democrática.
Desistiu da luta partidária, mas não se despediu da política. Apesar de todas as agruras, Vidigal manteve até ao fim uma notável e rara coerência de ideias e de princípios. Independentemente da bondade das suas ideias, e quando era mais cómodo abandoná-las, como bem se viu, defendeu-as sempre com entusiasmo, indiferente aos amanhãs que haviam deixado de cantar. Lutou e ajudou a lutar pela sua última causa - a reposição da história como julgava que deveria ser no doloroso "caso 27 de Maio". Valorizou o "perdão" Presidencial, mas exigiu a "verdade". Lutou, por fim, com estoicismo, contra um cancro, sempre com optimismo, como fez questão de dizer-me por ocasião do nosso último encontro em Lisboa, em Maio de 2025.
Adriano e Vidigal tiveram ainda em comum a militância pela mesma causa até ao fim das suas vidas, certamente ignorando tal comunhão. Mistérios que só a misteriosa história de Angola um dia desvendará.
Companheiros, olhando para a vossa verticalidade, dignidade e coragem, só posso dizer: foi uma honra e uma felicidade ter cruzado a minha vida com a vossa!
PS- A Conversa na Mulemba tem a sua marca ligada à terceira sexta-feira de cada mês. Excepcionalmente, esta sai na segunda-feira, para respeitar a agenda do Novo Jornal noutros trabalhos sobre a mesma matéria.

