Nesse mesmo discurso, longo e de difícil acompanhamento, devido à sua construção incoerente e repetitiva, o Presidente norte-americano também recuou na ameaça de aplicar tarifas extraordinárias aos países europeus que resistissem à tomada da ilha...
... e voltou a colocar na agenda o fim da guerra na Ucrânia, que admitiu estar a dar-lhe mais trabalho que aquilo que esperava antes de há um ano chegar à Casa Branca para um segundo mandato mas que agora acredita estar mais próxima que nunca.
E uma demonstração do regresso do conflito entre russos e ucranianos, e aliados da NATO, por via indirecta, ao foco de Trump é que este, afinal, encontrou disponibilidade para falar com Volodymyr Zelensky à margem do Fórum de Davos.
Isto, depois de o Presidente ucraniano ter mesmo informado oficialmente que este ano não estaria na Suíça, onde foi, nos últimos três anos, a estrela mais cintilante do Fórum Económico Mundial, para receber efusivo apoio na sua guerra contra a Federação Russa.
Zelensky tinha tirado Davos da agenda porque a questão da Gronelândia e da ameaça norte-americana de anexação "a bem ou a mal" lhe tirou palco mediático se estivesse presente, mas tudo mudou com o recuo nas ameaças de Trump.
Isto aconteceu depois do encontro com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, que trata Trump por "paizinho", onde ficou na forja um novo plano para a Gronelândia que se desconhece mas que a Casa Branca já fez saber que satisfaz o Presidente.
Embora, questionado pelos jornalistas, não tenha negado totalmente o uso da força para anexar a Gronelândia, Trump admitiu que essa questão está agora fora dos planos, tal como as tarifas aos países europeus que prometiam resistir à ameaça de Trump.
Como era o caso da ilha dinamarquesa da Gronelândia (ver links em baixo), um gigantesco território no Ártico com mais de 1.26 milhões de kms2, e que os EUA cobiçam alegando questões de segurança nacional mas com os olhos postos nos seus alegados recursos naturais abundantes, como petróleo, gás, e, entre outros, as famosas "terras raras".
E com a tomada da Gronelândia fora do mapa das operações militares dos EUA para os próximos tempos, pelo menos, tal como o fez com o Irão, de onde tirou o dedo do gatilho depois de semanas a ameaças com um ataque devastador, a Ucrânia voltou ao palco.
O que Trump vai dizer a Zelensky quando este chegar, esta quinta-feira, 22, a Davos, não se sabia ainda durante a manhã, mas sabe-se que tem a ver com a deslocação, também hoje, do seu enviado especial para o conflito ucraniano, Steve Witkoff, a Moscovo, para um encontro com Vladimir Putin.
Tanto Trump como Witkoff parecem acreditar que, por se tratar de uma iniciativa do Kremlin para este encontro, os russos estão com uma postura diferente e mais disponível para acomodar o plano de 20 pontos desenhado pelos EUA e pelos ucranianos.
Embora Witkoff tenha dito em entrevista à CNBC que esse plano de paz de 20 pontos está a ser "retocado e harmonizado" para se aproximar das exigências russas, não se conhece qualquer anúncio em Moscovo sobre qualquer alteração à lista das condições do Kremlin para finalizar as hostilidades.
E o mesmo parece estar na mente de Zelensky, que já disse, e repetiu agora, mesmo antes de se deslocar para Davos, que qualquer conversa com os americanos tem de ter como finalidade aproximar a guerra do seu fim ou ter como objectivo fortalecer a Ucrânia para derrotar a Rússia".
Olhando para a informação disponível, nem os russos mostram mais disponibilidade para reduzir as exigências nem os ucranianos parecem estar mais receptivos a cedências territoriais, que, como Witkoff disse já esta semana, "é o elefante de duas toneladas na sala".
Apesar de as conversações não terem parado, com encontros de Witkoff e o genro de Trump, Gerard Kushner, com a parte ucraniana, liderada por Rusten Umerov, ou russa, liderada por Kirill Dmitriev, o enviado especial de Putin, não se conhece qualquer evolução nas trincheiras negociais de Kiev ou de Moscovo.
Que, basicamente, permanecem inalteradas desde pelo menos Julho de 2024, quando Putin elencou as condições russas para um acordo de paz, assentes em três pilares fundamentais.
E são eles o reconhecimento de Kiev da soberania russas das cinco regiões anexadas, a Crimeia em 2024, e, já em 2022, Lugansk, Donetsk, Kherson e Zaporizhia, a Ucrânia fora da NATO para sempre, a sua desmilitarização e a garantia de que não haverá forças ocidentais no que restar da Ucrânia do pós-conflito, onde o respeito pela cultura e língua russas deverá ter respaldo constitucional.
Do lado ucraniano, nada mudou também. Permanece a exigência de saída das tropas russas de todos os territórios ocupados, recusa de afastar totalmente a adesão à NATO, garantias de segurança dos países da NATO, com envio de forças para a Ucrânia como antidoto para novas incursões de Moscovo, e o pagamento russo da reconstrução...
Embora isso não seja uma novidade, mas pode ser a brecha aberta nos últimos dias para amolecar a posição de Kiev, o Presidente russo veio dizer publicamente que Moscovo aceitaria que os fundos congelados no exterior, no contexto das sanções ocidentais, poderão ser disponibilizados para ajudar à reconstrução do lado ucraniano.
Ora, Putin não foi preciso a ponto de não deixar nada em aberto, mas se se refere ao conjunto das verbas com geladas no sistema financeiro ocidental, isso pode querer dizer que Moscovo abre mão de mais de 250 mil milhões de euros, quase 300 mil milhões USD, o que é uma quantia astronómica que não deixará de fazer brilhar os olhos de Zelensky.















