Quatro anos após a independência, a educação especial passou a figurar como modalidade de ensino através da Circular 56/79, de 19 de Outubro, do Ministério da Educação, como consequência, foi impulsionada a criação de condições para o funcionamento das escolas de educação especial, com equipamento específico para se realizar a escolarização dos alunos público-alvo da modalidade.
Dois anos mais tarde, por meio do Estatuto Orgânico do Ministério da Educação, Decreto 40/80, de 14 de Maio, foi criado o Departamento Nacional para a Educação Especial. A partir desse marco legal, o atendimento escolar das pessoas com deficiência passou a figurar como política pública, mas ainda dentro de uma visão segregacionista, ou seja, tanto as pessoas especiais como as salas especiais, que foram abertas nesse período, desenvolviam o seu trabalho centrado na deficiência, inicialmente visual e auditiva e, posteriormente intelectual. Segundo o documento "Política Nacional de Educação Especial orientada para a Inclusão Escolar", que tem como base o Decreto Presidencial 187/17 de 16 de Agosto. O funcionamento em ambientes separados significou por um lado um avanço em termos de política educativa para as crianças com deficiência que, anteriormente, não tinham acesso a nenhum equipamento escolar e por outro, contribuiu para a criação de espaços restritos e poucos ricos em termos de estímulos pedagógicos.
Aquando da adesão de Angola à Declaração de Salamanca, estabeleceu-se uma nova perspectiva de actuação da modalidade. De início ampliou-se o público-alvo da educação especial para todas as crianças e jovens com "necessidades educativas especiais ", termo que se referia a toda a criança ou jovem que apresentava necessidades educativas especiais em função de deficiência ou dificuldades de aprendizagem. Este documento induziu os países signatários a acomodar todas as crianças independentemente das suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras, nas escolas comuns do sistema geral de ensino, defendendo que "escolas regulares que possuam tal orientação integradora, constituem os meios mais eficazes para combater atitudes discriminatórias, criando-se comunidades acolhedoras, construindo uma sociedade solidária, integradora e alcançando uma educação de qualidade para todos"", determina a declaração. Assumindo que as diferenças humanas são um valor e que, a aprendizagem deve ser adaptada às necessidades da criança ao invés de manter um trabalho segregado. A criação de um modelo assente na construção de uma pedagogia da qual todas as crianças possam beneficiar.
O trabalho que o NJ traz no Especial Informação desta semana é um trabalho que demonstra que muito trabalho ainda precisa de ser feito. Os jornalistas Francisca Ngonga, Tap Santareno e o fotógrafo Carlos Muyenga estiveram em três escolas na cidade de Luanda e relatam o cenário que encontraram. Escolas que acolhem crianças com necessidades educativas especiais, eles trazem nesta edição os relatos daquelas que chamo de Mães de Sacrifício. São mulheres que há muito deixaram de ter vida própria, que passaram a dar de si para dar aos seus filhos. Todos os dias deixam suas casas, metem-se comos filhos em candongueiros para garantir que tenham algum ensino, alguma atenção e orientação. Sair de casa para a escola é uma batalha para cada uma destas mães e explico porquê. Começam por sair de casa ainda de madrugada, vão para as paragens de táxi e aguardam pelo transporte. Lutam para conseguir entrar nos táxis e acomodar os filhos, ainda têm o processo de negociação do pagamento da corrida com os cobradores dos táxis. Há dias em que não há dinheiro e as crianças têm de ficar em casa, que remédio? Quando chegam às escolas, estas mulheres entregam os filhos e depois têm de ficar do lado de fora a aguardar o fim das aulas. Mas elas também têm de ficar em "prontidão combativa" porque quando estas crianças urinam ou defecam as suas mães são chamadas para acudir. Diariamente estão aí e passam horas a aguardar pela saída dos filhos, não é fácil este sacrifício diário . Uma luta diária para garantir o mínimo aos seus filhos, elas há muito que deixaram de ter vida própria. Umas foram abandonadas pelos maridos e carregam sozinhas este fardo. São mulheres que não aparecem nos programas de televisão ou de rádio, o seu problema não entra na agenda de reuniões provinciais, ministeriais ou palacianas da Cidade Alta porque até elas são gentes da classe baixa. Vão unir-se e criar uma associação, pensam que assim serão "tidas e achadas", que desta forma a sua situação consiga ter alguma visibilidade. Elas não precisam de fama e nem andam atrás de condecorações, não constam da lista de beneficiárias da solidariedade das associações e fundações que absorvem verbas do erário, são mulheres que não aparecem nas listas das organizações políticas femininas porque elas não devem garantir votos, nem já sonham apanhar um coxito da solidariedade da Ngana Zenza da primeira-dama. Decidiram criar uma associação e criar mecanismos próprios de ajuda e de solidariedade. Estas são mulheres que Angola não vê e que todos os dias lutam por dar melhores condições para os seus filhos. São as Mães de Sacrifício. Elas merecem todo o nosso respeito e carinho. Merecem também este Especial Informação que o NJ lhes dedicou.