Para que Félix Tshisekedi possa tentar um terceiro mandato, apesar do impedimento legal, o que é uma das situações que no continente africano mais violência e tumultos sociais tem proporcionado, terá de conseguir uma revisão constitucional.
O facto desta campanha estar a ser lançada agora, a cerca de dois anos do fim do seu segundo e constitucionalmente derradeiro mandato permite não apenas investir no convencimento popular da "bondade" deste passo, como permite ter tempo para as reformas legais necessárias para o tornar exequível.
Ao falar desta possibilidade, Tshisekedi não refere que é a sua vontade, antes sublinha a ideia de que está a ser desafiado para dar esse passo e que está disponível para o fazer se for essa a vontade do povo congolês manifestada em referendo popular a organizar nos próximos meses.
Em conferência de imprensa, na quarta-feira, 06, em Kinshasa, Félix Tshisekedi, de 62 anos, insistiu, de acordo com media locais, que avançar para um terceiro mandato não "era a sua vontade" porque nunca lhe passou pela cabeça prolongar o tempo no poder além dos dois mandatos.
"Eu não estava à procura de um terceiro mandato, mas posso dizer que se o povo congolês me quiser no poder por mais um mandato, eu aceitarei esse desafio", anunciou o Presidente da RDC, acrescentando que "qualquer revisão constitucional só avançara sob acordo popular nesse sentido".
Na mesma ocasião, Tshisekedi assegurou que se tiver se acontecer qualquer alteração à Constituição, "isso nunca acontecerá sem a consulta e a aprovação popular", o que apontou que só será possível verificar "através de um referendo".
Além desta possibilidade, num claro, mas não assumido, passo para se manter no poder além do tempo regulamentar, se a questão da revisão da Constituição não avançar, Félix Tshisekedi já mostrou que está para resistir à sua saída de cena: "A guerra no leste do país pode forçar a um adiamento das eleições Presidenciais de 2028".
A reacção a esta manifestação de intenções de Tshisekedi entre a oposição foi devastadora, acusando quase em uníssono o Presidente de ter "deixado cair a máscara", como sublinhou Delly Sesanga, deputado, ex-candidato e aliado de Moise Katumbi, um dos mais destacados lideres da oposição congolesa.
Também Claudel Lubaya, líder partidário da oposição e também deputado, nota, tal como Delly Sesanga, que este passo de Tshisekedi, marcado pela ilegalidade e pela subversão constitucional, tem todos os condimentos para lançar o país numa nova vaga de conflitualidade.
Quase em uníssono, toda a oposição está a criticar ferozmente esta iniciativa do Presidente congolês devido ao potencial de geração de violência ou mesmo uma nova guerra civil.
O que não é para menos se se verificar o registo de problemas sociais graves ocorridos no contexto de tentativas de forçar alterações constitucionais para prolongar o tempo no poder.
Alguns dos casos mais conhecidos, com ou sem sucesso, e mais graves dos últimos anos aconteceram em países como a Costa do Marfim, Chade, Togo, Camarões, Gabão, Djibuti...
Este tipo de expedientes para alguns Presidentes se manterem no poder contra a Constituição tem merecido fortes críticas da União Africana, mas as situações repetem-se e ao que tudo indica de forma crescente apesar das gravez consequências sociais nesses países.
