Por mais que se pretenda ignorar ou minimizar, ninguém pode dissociar o nome da África do Sul à violência xenófoba que ocorre naquele país, ainda que os angolanos não sejam o principal alvo dos ultra-nacionalistas sul-africanos, que semeiam o terror e o medo, à sua passagem, pelas ruas dos centros urbanos.
Mesmo sem dispor de dados estatísticos, arrisco-me afirmar que poucos angolanos estariam disponíveis a aportar a RSA nesta fase de "caça" aos estrangeiros africanos e aos seus estabelecimentos comerciais.
A escassos metros dessa porta de embarque, na A06, outros passageiros encaminham-se para o avião que os levará a Windhoek, a capital da vizinha Namíbia.
Com um ligeiro atraso de 20 minutos, o Dash-8-400 da TAAG, um avião de fabrico canadiano, com capacidade para 64 lugares, rola suave por uma das pistas do novo aeroporto e levanta voo para uns destinos regionais mais procurados pelos angolanos, apesar da crise económica e financeira que assola o nosso país.
O aparelho, um turbo-hélice, vai quase lotado e são visíveis os esforços dos passageiros da "económica" em ajustarem-se aos pequenos assentos.
Há uns anos, esta rota, uma das mais movimentadas da TAAG, a par de Lisboa, era servida por aviões de maior porte, nomeadamente os Boeing's, nas suas mais diversas versões, e os voos tinham frequência diária. Na altura, a transportadora aérea nacional tinha como concorrente a Air Namibian, hoje inoperante, mas, ao que consta, estará a preparar-se para sulcar novos céus, em parceira com a sua congénere do Botswana.
A bordo do avião, que não oferece nenhum entretenimento aos passageiros, há pessoas que pelo andar, pelas expressões faciais e pelos trejeitos denunciam ir ao país vizinho em busca de tratamento médico. Por esta razão é que alguns chamam-lhe de o "voo dos doentes", uma expressão que, à primeira vista, carrega uma certa carga ofensiva, mas que reflecte a nossa realidade e incapacidade de as nossas unidades de saúde dar resposta a certas patologias.
Apesar dos investimentos que têm sido feitos em matéria de saúde, com a construção de novos e modernos hospitais, e equipados com tecnologias de ponta, o facto é que a Namíbia continua a ser o destino de um número considerável de angolanos que padecem das mais diversas patologias.
Devido às limitações do bolso, o grosso de angolanos que aporta o país vizinho faz o trajecto por via terreste, alcançando a capital namibiana ou a cidade de Oshakati, uma localidade que dista a 75 Km da fronteira com Angola.
Há informações de que os leitos hospitalares no hospital público dessa localidade do norte da Namíbia estarão maioritariamente ocupados por cidadãos angolanos, que cruzaram a fronteira da Santa Clara, em busca de tratamento médico em terras namibianas.
No ar ficam as seguintes perguntas: Qualidade dos serviços? Maior humanização? Preços acessíveis? Descrédito nas instituições hospitalares angolanas e nos seus profissionais? Ou a busca de mais opções?
Ao contrário do que se registava há uns anos, hoje há menos angolanos a fazer o "turismo de compras", sobretudo por parte das nossas "moambeiras", que aqui adquiriram roupas e calçados para depois venderem no nosso país.
Os angolanos, mormente as senhoras passaram a ser uma "espécie rara" de serem avistados nas grandes superfícies comerciais, como o Wernhil Park, Maerua ou no Grove Mall.
A redução do poder de compra dos angolanos ou melhor o declínio do "turismo de compras", diz-se por aqui, causou reflexos na economia da Namíbia, que deixou de receber os grandes fluxos monetários provenientes do país vizinho.
*Em Windhoek
