E isto não é de somenos, porque a norma tem sido, até agora, Donald Trump, o mediador que Kiev e Moscovo respeitam, vir dizer que está tudo a correr bem e Putin e o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, meterem logo a seguir água na fervura.
Só que, desta feita, não apenas o Kremlin saiu a terreiro a atirar carvão para a fornalha do Presidente dos EUA, como também em Kiev, Zelensky optou por um tom ameno, como raramente fez nestes quase quatro anos de guerra, para falar dos... russos.
E porque é que a uma redução abrupta das tensões no Médio Oriente, onde, até este fim-de-semana parecia ser inevitável uma guerra sem quartel entre norte-americanos e iranianos - que não está ainda totalmente afastada enquanto possibilidade concreta -, está a seguir-se um claro fade out dos tambores de guerra na Ucrânia?
Porque, como notam alguns analistas, como John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, não apenas os ucranianos estão exaustos, como Moscovo já pode ter percebido que tem mais a ganhar com a paz, nos seus termos, com poucas alterações, que com a continuação da guerra.
Mas ainda mais relevante que isso, é o facto de Washington estar a braços neste momento com um imbróglio que ainda ninguém sabe qual a sua última curva, que é o escândalo de pedofilia internacional encerrado nos mais de 3 milhões de ficheiros do Caso Epstein libertados na segunda-feira, 02, pelo Departamento de Justiça dos EUA, contra a vontade do Presidente Trump.
E, como no olho do furacão está precisamente Donald Trump, com milhares de citações nesses documentos (ver aqui), incluindo fotografias e vídeos, além de outras figuras gradas ao sistema norte-americano, os seus estrategas perceberam que melhor que uma guerra para diluir a estridência mediática deste "problema", só a paz na Ucrânia.
É que passam no próximo dia 24, precisamente quatro anos desde que o Kremlin mandou as suas unidades de blindados atravessar a fronteira ucraniana para tentar acabar com um conflito de baixa intensidade, mas muito letal, que subsistia no leste ucraniano, russófono e russófilo, denominado Donbass, constituído pelas regiões de Donetsk e de Lugansk.
Situação que persistia desde o golpe de Estado de 2014, em Kiev, apoiado, organizado e financiado pelos EUA e União Europeia, que depôs o Presidente pró-russo Viktor Yanukovich, claramente inaceitável para as regiões do leste do país e que foram anexadas por Moscovo em 2014 (Crimeia) e 2022 (Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporizhia).
Com o escândalo Epstein a apertar em Washington, Trump quer acabar de facto com a guerra na Ucrânia, tendo mesmo conseguido um cessar-fogo energético de uma semana, que foi mesmo elogiado em Kiev.
Além disso, as negociações trilaterais em Abu Dhabi, Emiratos Árabes Unidos, que começaram na passada semana, voltam aos carris já na quarta ou quinta-feira desta semana, almofadadas pelas palavras encorajadoras, e raras, de Dmitri Peskov, e pelo tom menos agressivo que está a ser ensaiado por Volodymyr Zelensky.
Apesar de algum atrito causado em torno da data para o fim das tréguas energéticas arrancadas por Trump, devido ao extremo frio nesta época do ano no leste europeu, o Presidente ucraniano elogiou os russos por cumprirem esse cessar-fogo circunstancial e apontou como expectável que em Abu Dhabi surjam novos passos sólidos para um entendimento.
E, numa curiosidade ainda mal explorada pelos media ocidentais, mas que pode fazer muito sentido no seguimento destas palavras de Zelensky, um dos seus grandes aliados regionais, o governador de Nikolaev, Vitaly Kim, veio dizer que o povo ucraniano está exausto por esta guerra e que chegou a hora de pensar seriamente se as pessoas não são mais importantes que os territórios.
Vitaly Kim, que liderou o partido de Zelensky, Servos do Povo, na sua região, nas eleições de 2019, entrevistado pelo britânico The Independent, vem dizer agora que "a terra é importante, mas as pessoas são ainda mais importantes e ninguém sabe o que será o dia de amanhã".
Este aliado de Zelensky, que muito provavelmente não faria estas afirmações ainda há alguns meses, pelo menos não sem o consentimento de Kiev, alertou nesta entrevista para a "exaustão" dos ucranianos e que "a recuperação das fronteiras não está na mente das pessoas comuns por esta altura, mas sim a paz e a recuperação das suas vidas".
"Para os ucranianos comuns, uma vitória agora é parar a guerra e obter garantias mínimas de segurança para o futuro. Ninguém quer continuar a guerra", apontou Vitaly Kim, numa entrevista que alguns analistas, incluindo pró-Kiev, entendem poder ser uma ferramenta negocial de preparação para um novo patamar de cedências da Ucrânia.
Além disto, é ainda de recordar estas declarações do novo ministro da Defesa da Ucrânia, onde Mikhailo Fedorov (ver aqui) admite, pela primeira vez em quatro anos de guerra alargada, os ucranianos estão incapazes de substituir unidades de combate devido a baixas, fugas para o estrangeiro na sua base de recrutamento e deserções na ordem das centenas de milhares...
Isto, quando Washington, através dos enviados de Trump, liderados pelo seu velho amigo Steve Witkoff, pressionam como nunca Zelensky a dar passos concretos que permitam a Moscovo aceitar travar as hostilidades.
E, para aveludar ainda mais este caminho das pedras de Zelensky, recorde-se, em Berlim, o chanceler alemão Friderich Merz tem repetido a necessidade de voltar a abrir um canal diplomático com o Kremlin, em França, o Presidente Emmanuel Macron tem feito o mesmo percurso de esbater barreiras com Moscovo...
E agora, o ministro dos Assuntos Europeus e dos Negócios Estrangeiros francês, Jean Barrot, naquilo que se não é parece muito um esforço coordenado para dar um empurrão a Zelensky no sentido de ceder o necessário nas conversações com os russos, vem dizer que a União Europeia "precisa de um canal de comunicação directo com a Rússia".
Isto, quando se sabe que em Bruxelas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e a sua chefe da diplomacia, Kaja Kallas, são os dois mais aguerridos falcões de guerra e maiores defensores de Kiev continuar a combater os russos, ambas sob pressão de Paris e Berlim, como se vê, para diminuírem o tom hostil face a Moscovo.
Tanto von der Leyen como Kallas defendem que a União Europeia deve manter fechados todos os canais de comunicação com Moscovo, onde, há cerca de uma semana, Dmitri Peskov veio dizer que o afastamento de ambas seria benéfico para a paz.
Neste contexto, Paris através de jean Barrpot, quer sublinhar que os interesses europeus, quando Trump fala directamente com Putin, não podem ser defendidos sem também falarem com o chefe do Kremlin através de um porta-voz desses mesmos interesses europeus, que não podem ser nem Kallas nem Ursula Leyen, como Peskov deixou bem claro..
Estas declarações de Barrot foram feitas em entrevista ao jornal Liberation, onde acrescentou que a França defende agora com clareza que a União Europeia deve manter um canal de comunicação aberto com Moscovo porque isso ", feito de forma transparente, será positivo para os interesses de todos, incluindo dos ucranianos".
Com o afastamento paulatino mas sólidos dos EUA da linha de abastecimento financeiro e militar da Ucrânia, são os europeus os maiores apoiantes de Kiev, e, também devido a essa condição, "têm de ter um canal de forma a fazer conhecer as suas posições e interesses sem delegar responsabilidades em terceiros".
Isto surge numa altura e que, como nunca, está já claro que, com as actuais lideranças europeias, especialmente Kaja Kallas, que nem sequer é recebida pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, seu homólogo, nem russos nem norte-americanos querem ter a União Europeia por perto quando se trata de negociar os termos do fim do conflito.
E Zelensky dá igualmente mostras de não dar muita importância ao que lhe é dito de Bruxelas, mas também de Paris e de Berlim, por saber que nem Washington nem Moscovo estão para ouvir os aliados europeus de Kiev.
Com este cenário em pano de fundo, é, segundo vários analistas, de esperar que em Abu Dhabi comecem a ser dados passos concretos no caminho da paz... mas ainda está longe a sala e a mesa onde será assinado um acordo definitivo para acabar com aquela que já é a mais letal e longa guerra na Europa desde o fim da II Guerra Mundial, em 1945.










