Olhando para as declarações recentes de alguns dirigentes russos, como Elvira Nabiullina, Governadora do Banco Central, ou ucranianos, como o novo ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, nomeado já este ano, em Janeiro, facilmente se percebe duas coisas para além do fumo da pólvora.

Nem Kiev nem Moscovo têm condições efectivas, mesmo que a retórica política aponte noutra direcção, para continuar este conflito por muito mais tempo, resultando daí que ambos os lados das trincheiras querem a paz mas não sabem como a construir com os pés enlameados no sangue de muitos milhares de compatriotas.

Elvira Nabiullina, a quem o Presidente Vladimir Putin entregou o comando da economia financeira russa, esmagada por quatro anos de sanções pesadas, especialmente aquelas que incidem sobre a indústria petrolífera do país, de longe onde mais assenta o financiamento desta guerra, veio, corajosamente, advertir que o estado da economia russa é pior que aquilo que o poder político apregoa.

E sem uma economia robusta, mesmo que esta tenha sido reajustada para uma guerra longa, a Rússia, que se está entre as maiores economias do mundo, como o Banco Mundial reconhece, em PIB por Paridade de Poder de Compra (PPC), que ajusta o PIB para reflectir o custo de vida local e taxas de inflação, já quanto ao poderio financeiro para alimentar o esforço de guerra, essa é uma conversa menos clara em Moscovo.

O Kremlin está a atravessar crescentes dificuldades para manter o equilíbrio de forma a que a população não sinta no bolso o peso das despesas com a guerra na Ucrânia, como Nabiullina admitiu estar a ser cada vez mais difícil, e se vê com o descendente crescimento económico à medida que os anos de guerra avançam.

Numa rápida consulta aos registos do FMI, percebe-se que, em síntese, a economia russa, depois do choque negativo de 2022, com o começo da invasão da Ucrânia, rapidamente passou para um crescimento acelerado em comparação com as restantes economias europeias, assente em despesa militar em 2023-2024, mas enfrenta agora uma desaceleração abrupta em 2026 mas que já começou em 2025, sendo as estimativas para o corrente ano de um crescimento exíguo de 1%, maior pressão fiscal e inflação em aceleração.

Do outro lado das trincheiras, em Kiev, com a economia de pantanas, com o FMI a considerar a Ucrânia como um país em permanente incumprimento (default ) mas que os seus aliados ocidentais, União Europeia e EUA, seguram devido ao estado de guerra, e com as instituições internacionais a concederem facilidades, como o Fundo Monetário Internacional, que não concedem a mais nenhum outro, a questão económica deixou de ser um problema do presente mas está pendurado no futuro colectivo do país.

O problema actual da Ucrânia, como veio, recentemente, num discurso no Parlamento, admitir o novo ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, é de confronto com a incapacidade de manter o fluxo de novos combatentes na linha da frente, seja porque as deserções atingem níveis estratosféricos, seja porque os jovens escapam como podem do país para evitar o combate, com as redes sociais inundadas de vídeos dolorosos para a imagem do poder em Kiev mostrando equipas especiais do Exército que "capturam" homens na rua para enviar para as trincheiras...

E isso reflecte-se fortemente na popularidade de Volodymyr Zelensky, que, por exemplo, segundo um sondagem realizada pelo SOCIS, um Centro de Pesquisas Sociais e Sondagens com sede em Kiev, com décadas de trabalho nesta área no país, apontava em Dezembro de 2025 uma descida clara na sua aceitação popular, embora seja também verdade que outras apontam para uma taxa de popularidade ainda positiva do Presidente ucraniano mas com uma tendência globalmente em acelerada erosão.

Esta perda de gás eleitoral de Zelensky é uma razão para que este se esteja a esquivar a eleições desde Maio de 2024, sendo que isso não é uma ilegalidade constitucional porque está respaldado na Lei Marcial em vigor no país desde o início da invasão russa, e parte relevante das razões que apontam para a insustentabilidade deste conflito por muito mais tempo em Kiev.

Os analistas, de modo geral, mais ou menos alinhados com um ou outro lado das trincheiras, entendem que as condições para a paz anunciadas por Vladimir Putin em Julho de 2024 não sofreram quaisquer alterações desde então, mantendo Moscovo as exigências iniciais que, em síntese, assentam em três pilares:

- Reconhecimento de Kiev e da Comunidade Internacional da soberania russa das cinco regiões anexadas em 2014 (Crimeia) e 2022 (Lugansk, Donetsk, Kherson e Zaporizhia), o que obrigaria, em caso de acordo de paz, Kiev a retirar as suas forças das áreas nesta geografia ainda sob seu controlo, cerca de 20% no conjunto dos territórios, e a discussão sobre as "causas profundas" deste conflito.

- Garantir a neutralidade da Ucrânia com um acordo global, envolvendo os EUA e os seus aliados europeus, de que Kiev não entra agora ou no futuro, na NATO, correspondendo isso a que em nenhuma circunstância haverá tropas ocidentais no terreno num cenário pós-conflito, o que só pode ser conseguido, na perspectiva de Moscovo, com uma nova arquitectura de segurança para a Europa.

- E a desmilitarização da Ucrânia, reduzindo a sua dimensão militar, tornando inconstitucional as organizações neo-nazis no país, onde o mais celebrado herói nacional, inclusive com formalidade legal, é um conhecido apoiante nazi durante a II Guerra Mundial, Stepen Bandera, que liderou esquadrões da morte às ordens de Hitler para o assassínio de centenas de milhares de ucranianos.

Do lado de Kiev, a coerência discursiva sobre o conjunto de condições para a paz com a Rússia não é semelhante, estando marcada por uma evidente volatilidade, como o demonstra o facto de Volodymyr Zelensky já ter dito publicamente que pode aceitar a cedência de territórios, que abdica da adesão â NATO para, de seguida, revogar essas possibilidades.

E quando os EUA, sob a batuta de Donald Trump, assumiram a mediação das negociações, embora mantendo-se como parte do conflito ao apoiarem o esforço de guerra ucraniano, mesmo que em declínio, o que levou ao pânico visível em Kiev e nas capitais europeias, Zelensky não baixa os braços em outros três pontos cruciais:

- Recentemente, depois de mostrar alguma abertura para realizar um referendo popular sobre a cedência de territórios aos russos, voltou atrás e exige agora que Moscovo retire todos os seus militares para lá das fronteiras históricas da Ucrânia que remontam a 1991, o ano da independência do país da então URSS.

- Nos últimos dias, com o aproximar da data redonda do 4º aniversário da invasão russa, Zelensky voltou a colocar como condição inamovível a presença de forças militares dos EUA e da Europa Ocidental na Ucrânia após o terminus do conflito, como profilaxia para eventuais apetites conquistadores dos russos nos próximos 30 anos, pelo menos.

- E, por fim, não apenas voltou a apontar a entrada na NATO como algo que apenas depende da vontade dos ucranianos e dos membros da Aliança Atlântica, como apontou como exigência que Moscovo pague os custos da reconstrução no pós-guerra e que os seus dirigentes sejam julgados num tribunal especial internacional por crimes de guerra.

Perante este cenário, apesar de existir a possibilidade de um e outro lado estarem a colocar condições maximalistas para obterem, no fim, o que consideram serem cedências mínimas razoáveis do adversário, sobra a atenção para a frase sucessivamente repetida pelo Kremlin, onde é expresso que a Rússia vai conseguir os seus objectivos na mesa das negociações ou através de meios militares em Kiev, com Zelensky a afirmar esta semana que "a Ucrânia se está a preparar para mais três anos de guerra".

Zelensky conta para este prolongamento da guerra com o apoio incondicional dos líderes da União Europeia que, como o disse amiúde, nestes quatro anos, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tem como objectivo final "vergar a Rússia sobre os seus joelhos" com uma "derrota humilhante no campo de batalha", tendo, para isso, mantido um fluxo financeiro que já ultrapassa os 150 mil milhões de euros e com as maiores potências militares do bloco, como a Alemanha e a França, a esvaziarem os seus arsenais militares para enviar todo o tipo de armamento para Kiev.

O problema europeu é que, mesmo com este nível de compromisso e empenhamento, sem o mesmo tipo de convicção em Washington, a Ucrânia não consegue igualar a máquina de guerra russa, porque só os EUA permitiram, nestes quatro longos anos de conflito, manter o esforço de guerra ucraniano viável na linha das frente.