Foi num encontro que teve lugar em Genebra, na Suíça, à margem da 61ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. que os ministros das Relações Exteriores de Angola, Téte António, e de Cuba, Bruno Rodriguez Parrilha, trocaram impressões sobre as dificuldades crescentes que Havana enfrenta face ao cada vez mais cerrado bloqueio económico dos EUA.
Téte António, segundo o comunicado do MIREX sobre o seu tête-à-tête em Genebra, que decorreu "num ambiente de elevada cordialidade e fraternidade", ouviu de Rodriguez Parrilha um relato detalhado sobre a situação interna do seu país, "marcada por desafios económicos significativos, incluindo as ameaças de sanções económicas".
Nessa conversa, os chefes das diplomacias de Cuba e de Angola reiteraram a "inquestionável solidariedade histórica" que une os dois países, bem como os "laços de amizade e irmandade existentes entre os seus povos, países e Estados", ficando claro que Luanda vai continuar a "fortalecer a cooperação económica, comercial e cultural, explorando novas oportunidades de parceria mutuamente vantajosas, em benefício do progresso e bem-estar dos respectivos povos".
Embora não tenha sido expressa nenhuma decisão sobre a possibilidade de Angola reforçar o apoio a Havana em matéria energética, depois de, por pressão de Washington, a Venezuela ter fechado a torneira de fornecimento de crude a Cuba, essa possibilidade pode ser facilmente apercebida na formulação deste resumo diplomático da conversa entre Téte António e Bruno Parrilha.
Especialmente quando o texto divulgado pelo MIREX diz expressamente que os dois países querem "fortalecer as suas relações económicas", sustentando esse reforço nas ligações históricas que são bem conhecidas, inclusivamente em Washington, porque remontam a um período histórico em que os EUA estavam do outro lado da barricada quando Angola era palco de um dos mais abrasivos "teatros" da Guerra Fria.~
Isso mesmo transparece neste documento que incide substantivamente sobre os "desafios económicos significativos, incluindo as ameaças de sanções económicas" a Cuba, tendo os dois diplomatas "reafirmado a importância do respeito pelos princípios do direito internacional, da soberania dos Estados e da não ingerência nos assuntos internos".
Além dos "milhares de estudantes angolanos" que se formaram em Cuba, Angola, acrescenta o texto, "reconhece e valoriza o contributo de milhares de cooperantes cubanos" que participaram activamente no processo de reconstrução nacional e no desenvolvimento socioeconómico de Angola, sendo notória a ausência de qualquer referência aos milhares de soldados cubanos que ajudaram Luanda a derrotar as forças invasoras sul-africanas na década de 1980.
"O encontro confirmou, uma vez mais, a solidez das relações históricas entre Angola e Cuba e a determinação das duas nações em aprofundar os seus laços estratégicos no plano bilateral e multilateral", conclui o "read out" do MIREX.
Este encontro entre os chefes das diplomacias angolana e cubana acontece num momento em que Cuba atravessa um dos seus momentos mais complicados do ponto de vista económico devido não apenas ao aperto do bloqueio dos EUA, que está a impedir, por exemplo, que o país obtenha combustível para funcionar, mas com uma ameaça de intervenção militar feita pelo Presidente Trump que está, por exemplo, a esvaziar os locais turísticos de Cuba, a grande fonte de receitas de Havana.
O embargo, imposto por Donald Trump no início deste mês, segue-se ao ataque norte-americano do princípio de Janeiro contra a Venezuela, que resultou no sequestro de Nicolás Maduro, principal aliado regional do governo de Havana, que se junta ao bloqueio económico que Washington mantém há décadas sobre este país caribenho com quem Angola tem ligações históricas conhecidas.
Cuba, que, apesar dos mais de 60 anos de embargos dos EUA, tem como um dos seus grandes pilares um capital humano marcado por altas taxas de escolaridade e alfabetização, a par de uma força de trabalho altamente qualificada, nomeadamente na saúde e educação, decretou uma série de medidas emergenciais para tentar sobreviver sem importações de petróleo e derivados, designadamente o fim da venda de gasóleo, a redução do horário de hospitais, o encerramento de alguns hotéis e a transferência dos turistas para outras unidades hoteleiras.
A agência EFE dá conta de que o vice-primeiro-ministro Oscar Pérez-Oliva Fraga afirmou na televisão estatal que "se desenhou um plano no turismo para reduzir os consumos energéticos, compactar as instalações turísticas e aproveitar a temporada alta que decorre neste momento no país".
Os hotéis atingidos, de cadeias como as espanholas Meliá ou da canadiana Blue Diamond, encontram-se sobretudo em Varadero e no norte da ilha e fazem parte de um dos motores mais importantes da economia cubana, o turismo.
Segundo a EFE, o presidente Miguel Díaz-Canel explicou que este plano anticrise foi inspirado nas estratégias do chamado "Período Especial" dos anos 1990, incluindo medidas de auto-suficiência e racionamento extremo em caso de "opção zero" de fornecimento energético.
O governo de Cuba anunciou também que começará a suspender o fornecimento de querosene a aeroportos do país, segundo a agência de notícias France-Presse.
"A aviação civil cubana notificou todas as companhias aéreas de que não haverá mais abastecimento de JetFuel, o combustível de aviação, a partir de terça-feira, 10 de Fevereiro, às 00h00, horário local", segundo a APF.
Apesar de alguns países, como o México, já terem anunciado que vão manter o fornecimento de crude a Cuba definido por contratos internacionalmente reconhecidos, isso está longe de ser suficiente e, como alguns analistas, admitem, sem um apoio claro dos aliados mais antigos de Havana, o país pode entrar numa espiral de caos incontrolado devido aos efeitos destas sanções sobre a sua economia já massacrada há décadas pelo mais longo e contestado internacionalmente bloqueio dos Estados Unidos.
As Nações Unidas também já condenaram este bloqueio dos EUA a Cuba e a sua Assembleia-Geral aprovou por largas maiorias várias resoluções a exigir o levantamento das sanções norte-americanas contra Havana.
Além disso, como aconteceu a 03 de Janeiro com a Venezuela, Cuba é um dos países listados pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, como estando na calha para uma intervenção militar de alteração de regime.

