A abnegação com que os compañeros cubanos se entregaram às tarefas de defesa do País contra a agressão estrangeira, derramando o seu sangue junto com o dos combatentes angolanos que a enfrentou, é lendária, e penso que poderemos dizer, sem medo de errar, que haverá muito poucos exemplos de um internacionalismo tão puro, como o demonstrado por Cuba. A forma como ombrearam com os poucos quadros qualificados que ficaram no País, após a fuga generalizada que ocorreu no pós-25 de Abril, foi crucial para manter a complexa máquina administrativa e produtiva a funcionar, mesmo com as lacunas que reconhecemos, perante uma tarefa hercúlea.

O acolhimento de milhares de angolanos na icónica Ilha da Juventude e nas universidades cubanas permitiu formar uma enorme quantidade de jovens angolanos, dos quatro cantos do nosso território, que foram essenciais para o País. Eu tive o privilégio de ter professores cubanos na Universidade Agostinho Neto, num dos primeiros cursos que ali se ministraram, após 1978. Professores de excelência, como Roberto, Arazoza, Grau, Santana, Ivan, Adelaide e tantos outros, que seria fastidioso enumerar, mas que não são esquecidos. Pudemos beber não só da sua ciência, mas também de todo o seu compromisso com a missão de construirmos País em condições extremamente complicadas. No sector eléctrico, figuras como a do engenheiro Marcheco, foram um exemplo a seguir pelo conhecimento e pela disponibilidade para atender às situações mais críticas, particularmente durante o funesto período da guerra em que irmãos se dilaceraram e dilaceraram o País. A forma como se retiraram, depois das épicas batalhas do Calueque e do Cuito Cuanavale, e depois de assegurada a Independência da Namíbia, e o fim do apartheid na África do Sul, foram um exemplo de verticalidade, de absoluta coerência para com os princípios de solidariedade por que pugnavam.

Hoje, num momento em que o país mais poderoso do mundo - desrespeitando as mais elementares regras de convivência entre países, fazendo torto tudo o que estabelece o direito internacional, que pretendem transformar no direito à usurpação, numa atitude colonial e imperialista que se pensava já pertencer ao passado e procura impor os seus desígnios de domínio global - decidiu atacar Cuba, levando ao paroxismo um bloqueio ilegal contra a ilha que já se estende por uns longos sessenta anos - apesar de sistematicamente repudiado nas Assembleias Gerais das Nações Unidas pela quase totalidade dos países -, criando situações de crise humanitária inaceitáveis impedindo o seu acesso a combustíveis, não podemos deixar de manifestar todo o nosso repúdio, solidarizando-nos com o povo cubano.

Não percebemos como o nosso Governo pode ficar indiferente num momento especialmente crítico que afecta quem tanto deu pelo nosso país nos momentos mais difíceis do nosso percurso histórico como estado independente.
Este é o momento de mostrar integridade e gratidão!