Com a divulgação esta sexta-feira, 13, pela Associated Press, de que Donald Trump desviou o maior porta-aviões do mundo, o Gerald R. Ford, e a sua escolta de combate, o "azar" parece estar a bater à porta do Irão, a não ser que se trate de uma demonstração de força para obrigar Teerão a ceder na mesa das negociações.
Os especialistas, como Larry Johnson, antigo analista da CIA, ou Jacques Baud, ex-coronel da intelligentsia suíça e da NATO, e prolixo autor sobre conflitos no Médio Oriente, defendem que Trump ainda não decidiu atacar o Irão e a sua arma é a mesa das negociações.
A grande questão é que as negociações para Donald Trump são sempre incomuns, não seguem as regras convencionais, porque só entende negociar em posição de força, aquilo a que chama "paz pela força", e é isso que estes analistas defendem que o norte-americano está a fazer com o envio de mais uma armada para a região.~
Mas não é isso, mesmo tratando-se do mais poderoso porta-aviões do mundo, que se junta ao USS Abraham Lincoln, já na região, com os seus navios de escolta, igualmente armados até aos dentes, que é um passaporte para a guerra.
É que, como recorda outro antigo analista da CIA, Scott Ritter, o Irão é um país gigante comparado com o Iraque e quando os EUA atacaram o regime de Saddam Hussein, em 2003, tinham na região seis porta-aviões com os seus reforçados grupos de combate.
Além disso, o Irão é uma força militar colossal quando comparado com o Iraque, o que permite avançar, nota ainda Scott Ritter, que mesmo que Donald Trump esteja decidido a atacar Teerão, só o fará quando tiver na região uma força militar muito superior à actual, o que levará sempre várias semanas...
O envio do Gerald Ford, a segunda missão no Médio Oriente em menos de dois meses, tem como objectivo claro, face ao exporto pelos analistas citados em cima, pressionar Teerão no contexto das negociações em curso, cuja primeira ronda já teve lugar, na passada semana, em Omã.
Além desta pressão com o reforço da presença militar na zona do Golfo Pérsico, o Irão viu ainda apertar o cerco quando, há alguns dias, a segunda vez em menos de dois meses, o primeiro-ministro israelita esteve com Trump nos EUA, com a agenda de trabalho inteiramente dedicada ao Irão.
Depois de Trump ter defraudado as expectativas de Benjamim Netanyhau em Janeiro, recuando quando se acreditava estar em curso um ataque dos EUA ao Irão, este retocou a estratégia e quer agora que o Presidente norte-americano, que diz ser "o melhor amigo que Israel alguma vez teve na Casa Branca", exija que o Irão, além de abdicar do seu programa nuclear, elimine os seus misseis com alcance superior a 300 kms e deixe de apoiar os seus aliados regionais, como o Hezbollah, no Líbano.
A ideia de Netanyhau é clara e simples: se Donald Trump conseguisse do Irão o que o israelita quer, Teerão ficaria totalmente à mercê do poder militar de Telavive, sem defesa e com o destino traçado para o regime liderado pelos aiatolas desde a revolução islâmica de 1979.
O problema de Trump e do primeiro-ministro israelita é que a liderança iraniana já fez saber, tanto pelo Presidente Massoud Pezeshkian como o aiatola Ali Khamenei já avisaram que nem abdicam dos seus sistemas de misseis hipersónicos de longo alcance como não deixarão de manter relações de proximidade com os seus aliados regionais.
Isso está fora de causa, mas o Irão admite, como explicou o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Arahchi, se for numa conversa de igual para igual, discutir com Washington a questão do seu programa nuclear e do enriquecimento de urânio, tem que uma vertente civil mas que pode levar à produção de armas atómicas, dependendo do grau de enriquecimento.
Além disso, o Irão, que em Junho de 2025, na "guerra dos 12 dias" conseguiu provar que os seus sistemas de misseis balísticos hipersónicos atravessam com facilidade a "cúpula de ferro" israelita que se pensava, até ali, ser inexpugnável, já anunciou que qualquer ataque dos EUA será visto como uma guerra total.
A resposta iraniana, avisou Abbas Araghchi, será contra Israel, com milhares de misseis a voar para Telavive, e as bases norte-americanas na região, onde também os países que albergam as bases, como a Arábia Saudita, Catar ou Kuwait, não serão poupados.
Nomeadamente a sua infra-estrutura petrolífera, onde o encerramento do Estreito de Ormuz, por onde passam mais de 35% do petróleo mundial seria uma catástrofe económica para os EUA e os seus aliados, e um bónus extraordinário para a Rússia, que teria o seu petróleo e gás sob procura extraordinária e a preços historicamente raros.
É perante este cenário, para o qual Teerão está ciente, que Trump terá dificuldade extra em tomar uma decisão no sentido de lançar um ataque contra o Irão, mas o que também sabem os iranianos é que também em Junho do ano passado foi durante as negociações que os EUA e Israel atacaram, apanhando as forças de defesa distraídas.
Recorde-se que já esta semana, Donald Trump ameaçou o Irão com consequências "devastadoras e traumáticas" caso o país não concorde com um acordo sobre o seu programa nuclear, sabendo-se que os misseis e o apoio regional aos seus aliados está igualmente em cima da mesa por pressão de Benjamin Netanyau.
"Precisamos de chegar a um acordo, caso contrário será muito traumático, as consequências serão muito más", avisou o presidente norte-americano durante a conferência de imprensa na Casa Branca com o primeiro-ministro israelita.
"Vou falar com eles durante o tempo que desejarem", acrescentou Trump, indicando que, caso não seja alcançado nenhum acordo, passará para a "fase dois", que seria "muito difícil" para os iranianos.
Mas o que retira efervescência ao momento é que foi o próprio Trump, numa iniciativa pouco vista, que avisou Netanyhau, à sua frente, que não haverá, para já, nenhum ataque, sendo as negociações privilegiadas.
"Não se chegou a nenhuma conclusão definitiva, excepto que insisti que as negociações com o Irão continuassem para ver se um acordo podia ou não ser concluído", escreveu Donald Trump na sua rede social Truth Social, após receber Benjamin Netanyahu na Casa Branca.
Já o primeiro-ministro israelita, como recorda o site da RTP, citando as agências, através de um comunicado, "insistiu nas necessidades de segurança do Estado de Israel no âmbito das negociações".











