Ainda assim, Teerão, como o ministro dos Negócios Estrangeiros defendeu em entrevista ao canal India Today, nas vésperas da ronda de negociações desta quinta-feira, 26, em Genebra, na Suíça, acredita que é possível uma solução negociada.

Com efeito, Abbas Araghchi (na foto) tem-se empenhado em explicar, através dos media, que "não existe nenhuma razão válida" para justificar a vontade de Donald Trump atacar o Irão e que se houver bom senso, "é possível evitar uma guerra sem sentido".

O chefe da diplomacia iraniana lembrou, na entrevista à India Today, que o Irão, desmentindo as declarações do Presidente dos EUA no discurso do "estado da União", na quarta-feira, 25, "não procura nem nunca procurou obter uma bomba nuclear".

Garantiu que o seu país tem um programa nuclear estritamente para fins civis, como dezenas de outros países, como o demonstra aquilo que para os iranianos é mais importante, que é a "fatwa" do Líder Supremo, aiatola Ali Khamenei, a proibir o uso militar da energia atómica.

Além disso, Abbas Araghchi refutou em absoluto a acusação de Donald Trump de que o Irão, além de estar a procurar gerar uma arma nuclear, está em vias de produzir um míssil com alcance que pode chegar aos EUA.

O governante iraniano, como, de resto, tem sido repetido pelo Presidente Massoud Pezeshkian, um moderado, eleito há meses, e a quem compete o poder executivo no país, insistiu que toda a infra-estrutura militar do país tem como fim único a defesa e a dissuasão para ataques externos.

O que é demonstrado pelo registo histórico, visto que desde a revolução islâmica de 1979, mas nos séculos anteriores o registo é o mesmo, o Irão nunca atacou nenhum país vizinho, sendo, isso sim, atacado vezes sem conta, desde a guerra com o Iraque, na década de 1980, aos sucessivos golpes israelitas através de sofisticadas operações especiais.

E sobre um acordo com os EUA, o regime iraniano voltou a manifestar a sua "disponibilidade total" para o conseguir já nesta quinta-feira, na Suíça, colocando Abbas Araghchi apenas como condição que Washington não exija o desmantelamento da capacidade dissuasiva dos sistemas de misseis iraniano, que Teerão abdique das suas relações com os seus aliados regionais e que abandone totalmente o seu programa nuclear para fins exclusivamente civis.

Há alguns indícios de que os EUA, depois de Trump ter sido avisado pelo seu comandante militar máximo (ver aqui) para consequências dramáticas possíveis de uma guerra com o Irão que não estão a ser devidamente equacionadas, podem estar a rever os planos.

É que, no discurso da União, o Presidente norte-americano, ao contrário do que tinha vindo a dizer até então, apesar de ter falado no Congresso por duas horas, o mais longo de sempre, não disse que exige o desmantelamento dos sistemas de misseis de longo alcance iranianos nem se empenhou na questão dos aliados regionais de Teerão.

Donald Trump vincou sim a ideia de que "o Irão não pode ter uma arma nuclear", o que, se assim for, os iranianos já disseram que não a pretendem adquirir, o que é meio caminho andado para que um acordo com os EUA seja alcançado em breve, numa das próximas reuniões entre as duas delegações.

Outro dado que pode entra na coluna das razões para acreditar que não haverá uma guerra no Médio Oriente é que Trump já deixou saber que a sua decisão para apertar o gatilho será tomada sobre o que lhe for dito pela sua equipa enviada para os encontros com os iranianos, que é liderada por Steve Witkoff, um amigo de longa data, e o seu genro, Jared Kushner.

Do lado da coluna onde estão as razões para acreditar que uma guerra é inevitável, além da monstruosa e dispendiosa máquina de guerra que os EUA enviaram para o Médio Oriente, está uma frase de Marco Rubio, o secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump: "Será um problema muito grande para Teerão se não aceitar negociar os misseis".

Como têm notado vários analistas, como John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago e um dos mais respeitados especialistas em política internacional nos EUA, a questão dos misseis é uma cedência impossível para Teerão porque sem eles, "ficaria à mercê de Israel".

É que sem essa capacidade dissuasora, especialmente os seus misseis balísticos hipersónicos, que na "guerra dos 12 dias" de Junho de 2025 provaram a fragilidade das defesas antimísseis até aí vistas como inexpugnáveis de Israel, Telavive teria uma passadeira vermelha para atacar o Irão e decapitar o seu regime.

O problema de Trump é que, como lhe explicou o general Dan Caine, CEMGFA, numa conversa revelada por The New York Times na semana passada, os EUA só possuem munições para até cinco dias de guerra com o Irão, ficando, sem uma vitória clara nesse período de tempo, sujeitos a uma retaliação devastadora pelo Irão.

E o receio não é para menos, porque ao contrário da guerra de Junho do ano passado, desta feita Teerão aceitou a ajuda dos seus aliados estratégicos China e Rússia, que têm, numa ponte aérea raramente vista, deslocado equipamento militar para o Irão em quantidades e qualidade substantivas.

Desde logo os sistemas antimíssil russos, S-400, caças Su-35, e, mais relevante ainda, os radares mais sofisticados da China, que permitem detectar até os mais modernos aviões de guerra normalmente "invisíveis" aos radares convencionais, além de novos e eficazes projecteis hipersónicos antinavio que o Irão tem e foram melhorados com tecnologia russa para aumentar a sua precisão sobre os alvos.

Neste momento, como nota, num podcast no YouTube, Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, autor de múltiplas obras sobre conflitos regionais com relevância geoestratégica, o grande problema de Donald Trump é lidar com a pressão pró-guerra do lobby israelita que domina o meio financeiro que financiou a sua campanha eleitoral.

Olhando para as várias camadas de pressão sobre a Casa Branca pró e contra a guerra, se fosse possível arriscar um prognóstico corajoso, esse seria no sentido de que Donald Trump vai perceber que tem mais a ganhar recuando que fazendo avançar a "cavalaria".

E a razão é simples: é a economia, estúpido!, como chegou a ironizar o antigo Presidente Bill Clinton, para sublinhar que é nos cifrões que tudo se decide no final. Isto, porque se a guerra começar, o Irão vai retaliar de imediato sobre a infra-estrutura petrolífera do Golfo Pérsico, responsável por 30% do crude consumido no mundo.

Além de destruir a indústria petrolífera dos países que albergam bases dos EUA, como a Arábia Saudita, Kuwait, EAU, Catar, Baherein..., o Irão fecharia de imediato o Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, secando mais de 20% do crude global de um dia para o outro.

E com eleições intercalares em Novembro, com a economia ao rubro, devido à inflação e ao desemprego, esse cenário no Médio Oriente levaria a uma tragédia eleitoral garantida em Novembro, em cujas eleições estaria condenado a perder as maiorias no Senado e na Câmara dos Representantes.

E sem essas maiorias, devido ao escândalo dos Ficheiros Epstein, o maior caso de pedofilia mundial de sempre, onde o seu nome aparece citado milhares de vezes, além de vídeos e fotografias altamente comprometedoras, Donald Trump dificilmente, como o próprio já admitiu, se livraria de um processo de destituição (impeachment) com fortes possibilidades de sucesso.

A economia pode ser, assim, a razão para que Trump prefira enfrentar o lobby israelita e os seus pontas de lança, como o senador republicano Lindsay Graham, que os eleitores norte-americanos e a MAGA, a sua base de apoio, como bem lhe explicou e aconselhou recentemente o mais poderoso "influencer" republicano que é o ex-jornalista da FOX News Tucker Carlson.

Chegou a hora de olhar para o país, para a economia norte-americana, para os problemas de segurança interna nos EUA, e, como prometeu ao longo de toda a sua campanha e deixar, abandonar a perda de tempo que é a política externa e as guerras sem fim norte-americanas além fonteiras, é, em síntese, o que Tucker Carlson tem repetido nas suas plataformas mediáticas das redes sociais. Poderá não ter alternativa...