Desta vez, o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, não surgiu em público para acusar os EUA de estarem a preparar um ataque sem justificação contra o seu país, a missão era mais complexa, advertir Washington para o maquiavelismo de Netanyhau.

Porque, de acordo com o registo dos últimos anos, sempre que o primeiro-ministro israelita vai a Washington conversar com Donald Trump, sai de lá com uma "autorização" para robustecer os ataques em Gaza ou para preparar novas investidas contra o Irão.

E, agora, quando Benjamin Netanyhau acaba de chegar a Washington, para uma conversa com o Presidente norte-americano, já nem procura camuflar a agenda como nas visitas anteriores... é público ao que vai, como estão desde o fim-de-semana a noticiar os media.

Tanto nos EUA como em Israel, os jornais e as televisões somam avanços sobre a agenda de Netanyhau: convencer Donald Trump a obrigar o regime iraniano a reduzir drasticamente a sua infra-estrutura militar e abandonar o seu programa nuclear.

O que, segundo alguns analistas, como Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, e autor de vários livros sobre as crises no Médio Oriente, Netanyhau pretende é que Trump o ajude a liquidar o potencial de reacção iraniano.

Como é referido aqui, uma tese que está a ganhar forte tracção nos canais de análise militar nas redes sociais, o recuo de Trump em meados de Janeiro quando se via como iminente um ataque dos EUA ao Irão foi, afinal, segundo esta tese, uma forma de melhor preparar não apenas os meios enviados para a região por mar, mas aperfeiçoar os sistemas de defesa anti-míssil nas diversas bases militares que Washington tem dispersas pelo Médio Oriente.

No que diz respeito as Netanyhau, o objectivo é claro: sem os seus sistemas de misseis, especialmente os hipersónicos, com que em Junho, na "guerra dos 12 dias" Teerão derrotou Israel, trespassando a até ai vista como intransponível "cúpula de ferro", e sem o apoio aos seus aliados regionais, desde o Hezbollah, no Líbano, aos Houthis, no Iémen, o Irão fica à mercê do Exército israelita, de longe o mais moderno e poderoso do Médio Oriente.

E desmantelar a capacidade balística iraniana só é possível com uma mudança de regime em Teerão, porque o actual, chefiado pelo aiatola Ali Khamenei e pelo Presidente Massoud Pezeshkian, já vieram a público garantir que antes disso acontecer, o Médio Oriente explodirá no caos de uma guerra total contra os EUA e Israel, bem como os seus aliados que possuem bases norte-americanos nos seus territórios.

Mudar o regime em Teerão já foi tentado por diversas vezes ao longo dos últimos 40 anos, sendo as últimas a tentativa da Mossad israelita decapitar a suas lideranças no ano passado, até à que teve lugar já este més de Janeiro (ver links em baixo), com o fomento de protestos populares em massa.

Nada parece funcionar e Israel está agora a procurar convencer Donald Trump que só um ataque de larga escala e definitivo sobre o Irão poderá mudar o cenário, porque Benjamin Netanyhau, além da idade avançada, 76 anos, há mais de 30 no poder em Telavive, arrisca a chegar ao fim da vida sem conseguir o grande objectivo de toda a sua carreira política: destruir o regime iraniano.

Em Teerão, Ali Khamenei e Massoud Pezeshkian estão conscientes de que este é um momento de extrema importância para a história do país, porque, além do lobby israelita em Washington, a capacidade de persuasão de Netanyhau e as razões de política interna nos EUA, tanto económicas como as relacionadas com o escândalo de pedofilia "Ficheiros Epstein", podem ser as "tempestade perfeita".

E é por isso que Abbas Araghchi, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, está esta quarta-feira, 11, dia da visita de Nertanyhau a Donald Trump, a meter as fichas todas no pano verde, avisando de forma solene os EUA para que um ataque ao Irão não será visto como das outras vezes no passado, terá uma resposta avassaladora "com todo o potencial" do país.

Potencial que é muito superior hoje ao que era, por exemplo, quando em Junho de 2025, na "guerra dos 12 dias", milhares de misseis atingiram Israel, espalhando a destruição onde se julgava até aí não ser possível esta chegar... porque Israel ignorava, ao que tudo indica, a capacidade dos misseis balísticos hipersónicos do Irão.

E é hoje superior, não apenas porque o Irão já não confia nos EUA como então, quando foi atacado nas vésperas de uma nova ronda negocial com os norte-americanos sobre o seu programa nuclear, usada para distrair as chefias militares em Teerão, mas porque tanto a Rússia como a China estão há semanas a enviar carga atrás de carga de material militar.

Pequim e Moscovo já fizeram saber que não vão deixar cair Teerão porque o Irão é uma peça-chave na transformação que russos e chineses estão a conduzir na ordem mundial, além de que, geograficamente, na Ásia Central, este é um território com uma dimensão geoestratégica que a ser perdida para o Ocidente, seria trágico a Oriente.

Para a China, o Irão, com quem integra os BRICS, é uma jóia de valor incalculável no contexto dos seus gigantescos projectos incluídos na Nova Rota da Seda, que liga por terra o Oriente ao Ocidente, e para a Rússia, como se percebe olhando para um mapa, é a zona estanque nas suas fronteiras a Sul que garante estabilidade regional e potencial económico para Moscovo.

E é neste contexto de capacidade reforçada, especialmente a militar, porque economicamente o Irão está a viver um dos seus piores momentos desde a revolução islâmica de 1979, nomeadamente após o ataque dos EUA à moeda iraniana, o Rial, que quase perdeu todo o seu valor nas últimas semanas, que Teerão sobe o tom face a Washington.

Abbas Araghchi apelou a Donald Trump para não deixar que Netanyhau destrua as possibilidades de se chegar a um acordo quanto ao seu programa nuclear, através de manobras assentes em teses conspirativas, porque Israel pretende que sejam os EUA a fazer a guerra com o Irão que eles não podem fazer perante as actuais circunstâncias.

"O Irão está preparado para as duas possibilidades, uma guerra aberta com os EUA e Israel, e para se sentar à mesa das negociações" com Donald Trump, disse o chefe da diplomacia iraniana em entrevista à russa RT, onde acrescentou que Teerão "está totalmente empenhado em que a via das negociações seja a escolhida".

Isto, porque, entende Araghchi, "se o bom senso prevalecer, não há alternativa a uma solução diplomática", fazendo questão de dizer que os iranianos "não condiam nos EUA" porque em Junho do ano passado foram bombardeados quando estavam a decorrer negociações.

"Foi uma experiência muita má para nós", recordou Abbas Arahchi, apelando a que em Washington se consiga perceber que o Irão não pretende nem intenciona atacar seja quem for, que apenas se arma para se poder defender e que o seu programa nuclear de enriquecimento de urânio "tem apenas fins civis".

Porém, é precisamente o retomar das negociações entre iranianos e norte-americanos, cujas primeiras rondas já aconteceram em Omã, que inquieta Israel, considerando que ao ver EUA e Irão sentados à mesa, vê reduzirem-se as possibilidades de os EUA serem um actor fundamental para a mudança de regime no Irão.

O epílogo desta "telenovela" que pode ser trágico, dependerá em grande medida do que se passar esta quarta-feira em Washington, onde o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, estará com o Presidente Donald Trump sentado, no que se presume venha a ser uma longa reunião, da qual pode, literalmente, sair o início de uma guerra de dimensões incalculáveis no Médio Oriente.

Um dos travões belicistas de Netanyhau será, todavia, o efeito colateral que um conflito dessas dimensões bíblicas teria na economia norte-americana, desde logo com o petróleo a disparar para valores nunca vistos se o Irão atacar os países vizinhos aliados dos EUA, Arábia Saudita, Kuwait, Emiratos, Catar, Bahrein... e fechar o Estreito de Ormuz, enxugando o mundo de mais de 35% do crude que consome diariamente.