No presente, o resultado da leitura do oráculo dos mercados petrolíferos nem sequer é o mais relevante para antecipar uma crise severa, que pode ser sem precedentes, atendendo às ruidosas ameaças que chegam de Washington sobre Teerão...

... e de Teerão sobre Washington, com o aiatola Ali Khamenei a dizer directamente ao Presidente Donald Trump que, desta vez, se os americanos ousarem ataque o Irão, a resposta será devastadora e fará recurso a todos os meios militares do país.

O regresso ao tom ameaçador do Presidente norte-americano, na semana passada, foi uma surpresa, porque o próprio, dias antes, tinha vindo garantir que deixara de haver razões para os EUA bombardearem o Irão.

O norte-americano justificou o recuo, depois de duas semanas de ruidosos e letais protestos nas ruas das grandes cidades iranianas (ver links em baixo), onde terão morrido milhares de pessoas, tanto entre os manifestantes como entre os agentes das autoridades.

Quando já estava claro que se tratara de mais uma tentativa de levar para o Irão uma "revolução colorida", das que provocaram o caos e a destruição na Líbia, Síria, Egipto, e, entre outros, na Tunísia, em Washington Trump mandava aos seus militares tirar o dedo do gatilho.

Porque essa "revolução colorida" não atingiu as tonalidades pretendidas, que era a queda do regime dos aiatolas, mesmo com um esforço gigantesco em meios militares e financeiros, incluindo um ataque externo à moeda iraniana, o Rial, e o empenho das secretas de Israel, a Mossad, dos EUA, a CIA e britânica, o MI6.

Alguns analistas, como John Mearsheimer, professor na Universidade de Chicago, e um dos mais prestigiados especialistas em geoestratégia e política internacional nos EUA, defendem que o plano de mudança de regime no Irão falhou porque Teerão já esperava esta operação e também porque contaram com o apoio claro da China e da Rússia.

E, ao mesmo tempo, Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia da Suíça e na NATO, com vários livros publicados sobre o complexo xadrez no Médio Oriente, recorda que o Irão tem uma relevância geoestratégica para Pequim e para Moscovo que não podem deixar cair este aliado indispensável na vasta região da EurÁsia.

E é por isso que estes e outros analistas têm sublinhado nos últimos dias que tanto a China, que tem no Irão uma geografia insubstituível para a sua gigantesca Nova Rota da Seda, como a Rússia, que tem no Irão um bloqueador único para as tentativas de desestabilização no seu flanco sudoeste caucasiano, não vão deixar cair Teerão por interesse quase existencial.

Este regresso à escalada das tensões no Médio Oriente foi motorizado pelas declarações de Donald Trump quando, a meio da passada semana, questionado pelos jornalistas sobre a deslocação de vários navios de guerra, incluindo pelo menos dois porta-aviões para a região do Médio Oriente, disse laconicamente que esperava não ter de os usar, mas que estava tudo em aberto.

Ora, se estas palavras de Trump não podem ser desligadas da presença de tantos e dispendiosos meios navais, desde logo com a deslocação do porta-aviões USS Abraham Lincoln e o seu gigantesco grupo de combate, que inclui contratorpedeiros, submarinos e fragatas lança-mísseis, também não podem distanciar-se da catadupa de notícias sobre o resultado da repressão dos protestos no Irão entre 01 e 10 de Janeiro.

É que, nas últimas 72 horas, principalmente os media norte-americanos que usualmente servem estes propósitos de criar cenários de justificação para as intervenções militares dos EUA, como The New York Times ou Time Magazine, estão a noticiar que o número de mortos às mãos do regime iraniano pode ascender ao 30 mil.

Ao mesmo tempo The New York Times e outros media norte-americanos estão esta segunda-feira, 26, a avançar que o aiatola Ali Khamenei, o líder supremo do Irão, embora este já renha negado de forma veemente tal cenário, ordenou o uso de força letal sem limite para esmagar qualquer indício de novos protestos no país.

Isto, quando se sabe que Donald Trump justificou o recuo no ataque ao Irão há pouco mais de uma semana com a informação que recebeu sobre a anulação das sentenças de morte de dezenas de manifestantes detidos em Teerão e a travagem a fundo no uso da força letal por parte das autoridades iranianas,

O que permitiu a Trump voltar a colocar Teerão como alvo nas suas palavras e acções, porque, além de admitir agora que pode voltar a usar a força conta o Irão, veio dizer que tem uma "poderosa armada" a caminho do Médio Oriente que pode ser usada a qualquer momento.

"Temos muitos navios a ir naquela direcção. É grande armada que está a caminho. Vamos ver o que acontece", disse, acrescentando que está a "observar de muito perto o que está a acontecer" em Teerão.

E, olhando para este contexto, com os media norte-americanos a divulgar agora que terão morrido mais de 30 mil manifestantes nos protestos do início de Janeiro, quando se sabe que até aqui algumas organizações internacionais referiam "apenas" 3.000, um número fortemente rejeitado como abusivo pelo Governo do Presidente Masoud Pezeshkian, facilmente se percebe que está a ser criado um cenário propício a justificar um ataque dos EUA ao Irão.

Isto, apesar de ser agora claro, porque o confirmaram media israelitas próximos do Governo de Benjamin Netanyhau, como o Canal 14, e também foi confirmado pelo antigo director da CIA e ex-secretário de Estado de Trump, Mike Pompeo, os protestos no Irão foram organizados a partir do exterior.

Começou com um ataque à moeda, o Rial, que perdeu, como lembrou o professor universitário e analista político iraniano Seyed Marandi em declarações à britânica BBC, mais de 40% em dois dias, que levou a protestos legítimos dos comerciantes iranianos mas que foram rapidamente infiltrados por elementos ao serviço das secretas israelita, norte-americana e britânica.

Os confrontos violentos entre polícia e manifestantes surgiram num ambiente em que largas centenas de indivíduos infiltrados, segundo a versão iraniana, e que Mike Pompeo e o Canal 14 israelita também confirmaram, no país impulsionaram a violência ao disparar contra as autoridades.

Tudo isto assente num plano que incluía ainda a introdução de 40 mil terminais da rede de internet por satélite de Elon Musk, a Starlink, através da qual os agentes das secretas ocidentais comunicavam fora da rede controlada pelo regime iraniano.

E foi esse o "Calcanhar de Aquiles" desta "revolução colorida", que estava a ser "pintada" a partir do exterior, porque, devido à tecnologia fornecida, segundo alguns observadores, como o britânico Alexander Mercouris, pela China, foi possível às autoridades iranianas detectar e localizar os terminais da Starlink que continuaram a funcionar após o Governo ter desligado o acesso à internet normal no país.

A forma como os planos traçados entre Trump e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, quando este foi aos EUA, a 29 de Dezembro último, falharam redondamente, segundo vários analistas, enfureceram o Presidente norte-americano, que está agora de novo com o dedo no gatilho.

Segundo o britânico The Guardian, o porta-aviões USS Abraham Lincoln e uma dezena de navios de guerra que integram o seu grupo de combate, está a chegar à região, estão ainda centenas de aviões de guerra a ser realocados às bases norte-americanas e israelitas na região, e ainda dezenas de sistemas de defesa antiaérea para as proteger.

Além destes meios, sucedem-se referências em vários canais nas redes sociais sobre a deslocação de outros porta-aviões, como o USS Gerald R. Ford, o maior do mundo, que estava no Mar das Caraíbas, no âmbito do ataque à Venezuela (ver links em baixo), para o Médio Oriente, embora Washington ainda o não tenha confirmado.

Também não confirmado oficialmente, mas com os canais nas redes sociais sobre conflitos a documentar bastante bem essa informação, China e Rússia estão há vários dias com uma ponte aérea ininterrupta para Teerão com assessores militares, equipamento militar diversificado, incluindo vários sistemas antiaéreos, radares e aviões de guerra chineses J10 e russos SU-35.

Isto, com as palavras agressivas do aiatola Ali Khamenei em pano de fundo, notoriamente quando este diz que o Irão, desta feita, se for atacado pelos EUA e Israel, dará uma resposta como nunca foi visto, prometendo colocar toda a capacidade do país em sistemas de misseis, incluindo os hipersónicos, com os quais promete destruir Israel e os navios e as bases norte-americanas na região.

A propósito, em Teerão, foi inaugurado este Domingo, 25, com pompa e circunstância, um mural, um dos maiores da cidade, que é conhecida por ter muitos e de grandes dimensões, onde surge a bandeira dos EUA em pano de fundo a um porta-aviões a explodir sob o ataque dos mísseis hipersónicos iranianos....

Um oficial sénior do Irão, citado pela Reuters, garante que desta feita, qualquer ataque contra o Irão será encarado como "uma guerra total e terá uma resposta de acordo com essa acepção"

Além disso, desta feita, segundo os media internacionais, citando várias fontes a partir do Irão, também os países das região onde os EUA e o Reino Unido possuem bases militares, serão vistos como inimigos e atacados em conformidade, incluindo as suas infra-estruturas petrolíferas, sem esquecer o maior ataque de todos neste âmbito, que seria fechar o Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, e por onde passa 35% do crude consumido no mundo.