As principais pistas para que os gráficos nos mercados energéticos estejam em sobressalto, as casas de apostas online de todo o mundo vivam um frenesim incomum e os analistas apontem já em uníssono na direcção do caos, chegam de Donald Trump.

"Está uma maravilhosa armada a caminho do Médio Oriente", começou por dizer há duas semanas o Presidente dos EUA, acompanhado de imagens nas televisões globais de porta-aviões, ladeados por navios e submarinos, rumo ao turbilhão do Golfo Pérsico.

Logo aí se percebeu que Donald Trump recuou no ataque ao Irão nos primeiros dias de Janeiro, no contexto dos protestos nas ruas iranianas - que hoje se sabe terem sido arquitectados pelas secretas dos EUA, Israel e reino Unido -, porque os seus porta-aviões (ver links em baixo) tinham sido deslocados para outros cenário de conflito escaldantes, como a Venezuela.

Mas isso foi corrigido rapidamente e a caminho do Médio Oriente estão diversos navios de guerra americanos, incluindo o porta-aviões USS Abraham Lincoln, este já no local, junto ao Golfo Pérsico, mas também há notícias de que o USS Gerald Ford, o maior do mundo, já navega a todo o vapor para este novo confronto com o Irão.

Além disso, têm noticiado os media norte-americanos, para as bases dos EUA na região, que são dezenas, foram e estão a ser enviados os mais modernos sistemas de defesa antimíssil, os Patriot e o THAAD, centenas de aviões de guerra.

E, segundo as mesmas fontes, está a ser observado um reforço extraordinário de capacidade humana no centro de comando regional dos EUA no Médio Oriente, situado na base de Al Udeid, no Catar, a maior de toda a região, e acolhe o comando avançado do Comando Central dos Estados Unidos (Centcom).

Perante isto, a questão que se coloca é: o que é que o Irão fez desta vez? Como nota Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, além de autor de dezenas de livros sobre a conflitualidade internacional, "Teerão não precisa de ser culpado, é uma obsessão dos americanos".

E, como tal, acrescenta Jacques Baud, que é, claramente, um dos mais respeitados analistas sobre o braseiro do Médio Oriente, tanto para Washington como para Israel, qualquer motivo serve para ameaçar o Irão, precisando apenas de uma plausibilidade mediática para justificar eventuais ataques.

E isso está precisamente a acontecer neste momento, com os principais media norte-americanos e Britânicos, como The New York Times e The Guardian, a avançarem, baseando-se em informações que geram grandes dúvidas entre vários analistas, dados extraordinários e totalmente por provar sobre mais de 30 mil mortos nos protestos que ocorreram no Irão entre 01 e 10 de Janeiro.

Isto, quando, de acordo com dados de organizações internacionais credíveis, o número de mortos, incluindo polícias, se situaram entre 1.500 e os 3.500, naquilo que foi, é hoje evidente, mais uma tentativa de gerar uma "revolução colorida" no Irão a partir do exterior.

E que começou com um ataque financeiro dos EUA à moeda iraniana, que perdeu mais de 40% em dois dias, com a introdução de centenas de agentes da CIA, da Mossad e dos britânicos do MI6 - confirmado por canais israelitas e por Mike Pompeo, antigo director da CIA e secretário de Estado de Trump - além de milhares de agitadores a partir da Turquia e do norte do Iraque.

A tentativa de afastar o aiatola Ali Khamenei do poder em Teerão foi derrotada pelo regime iraniano com a ajuda chinesa e russa, segundo afirmam vários especialistas, nomeadamente com tecnologia que permitiu detectar, localizar e deter os operadores de mais de 40 mil terminais de internet da Starlink, de Elon Musk, introduzidos no país para garantir a comunicação entre os agentes e agitadores no terreno.

Com esse insucesso, tendo o regime dos aiatolas conseguido resistir mais uma vez, a última tentativa de decapitação do poder em Teerão, ocorreu em Junho do ano passado, com a guerra dos 12 dias, envolvendo Israel, e que acabou com um ataque dos EUA à infra-estrutura nuclear iraniana a 22 desse mês, em Washington, Donald Trump activou o "plano B".

Que, ao que tudo indica, foi, tal como a primeira fase, a "revolução colorida", desenhada com a visita do primeiro-ministro Benjamin Netanyhau aos EUA a 29 de Dezembro, e que comporta não apenas o envio da tal "maravilhosa armada" para a região, como dá como certo que o Irão, desta feita vai contra-atacar com acrescida ferocidade.

E, para isso, não apenas Israel se está a reforçar com novos sistemas de defesa antimíssil, como uma boa parte da sua população está a sair do país, porque se em Junho os misseis iranianos atravessaram, de forma inesperada, as barreiras defensivas israelitas, consideradas até ai inexpugnáveis, desta feita teme-se que seja ainda mais severo.

Em cima da mesa está ainda a eventualidade de mais uma operação extraordinária de Israel, através da sua intelligentsia, Mossad, mas também a secreta militar, AMAN, para fragilizar a estrutura defensiva iraniana, como, de resto, já sucedeu no passado a antecipar ataques de grande envergadura.

Ficou para, entre outras, a história a operação "hollyodesca" dos pagers com que arrasou o Hezbollah, no Líbano, e a operação com drones activados por grupos de operações especiais infiltrados no Irão, que decapitaram uma parte substantiva das chefias militares de Teerão, no ano passado, antes da guerra dos 12 dias.

Desta vez, o regime iraniano mostra estar melhor preparado e conta, segundo relatos de canais especializados em assuntos militares, com o apoio chinês, porque Pequim não se pode dar ao luxo de perder uma peça essencial do seu megaprojecto Nova Rota da Seda na EurÁsia, e dos russos, que ficariam fragilizados na sua "barriga" regional, nas fronteiras caucasianas, com um Irão gerido por um Governo inamistoso.

Além da intelligentsia, a China, e também a Rússia, embora menos devido ao esforço de guerra na Ucrânia, estão a fornecer grandes quantidades de sistemas de defesa antiaérea havendo mesmo informações de que Pequim deslocou para o Irão os HQ-9, sistemas recentemente testados com sucesso pelo Paquistão na guerra de cinco dias que este país travou com a Índia no ano passado, e Moscovo entregou vários dos seus sistemas S-400 para protecção de Teerão.

E o líder supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei, já disse que as suas forças armadas estão com o "dedo no gatilho" e que qualquer atasque dos EUA ou de Israel será, desta feita, encarado como "uma guerra total", na qual usará todo o seu manancial militar que assenta, essencialmente, nos seus sofisticados sistemas de misseis, cuja eficácia ficou demonstrada em Junho de 2025, na sucessão de ataques sobre Israel.

Entre os alvos já anunciados por Teerão, caso este iminente ataque se cumpra, estão as bases norte-americanas na região, os navios de guerra e Israel, contando para isso com um número indefinido de misseis balísticos hipersónicos, de onde se destacam os Fattah I e Fattah II, considerados indefensáveis, e também os misseis antinavio supersónicos Khalij Fars e o Abu Mahdi, um míssil de cruzeiro antinavio de longo alcance.

Mas nada disto parece assustar e deter Donald Trump, que, na sua forma estridente e enfática de colocar as coisas, já veio dizer que a sua "armada maravilhosa", a "mais poderosa doi mundo", sem nada igual que a ela se compare, está a "navegar maravilhosamente" para a região do Médio Oriente.

E, para compor o cenário, como se o volume de "investimento" nos sites internacionais de apostas, como o Polymarket, um dos mais famosos (ver aqui) e o aumento acelerado do preço do barril de petróleo não fosse suficiente para dar como iminente um ataque, os EUA anunciaram esta quarta-feira, 28, o arranque de um exercício militar de larga escala, ao longo de vários dias, e abrangendo todo o Médio Oriente.

Isto, porque, como tem sucedido em diversas ocasiões, seja antes da invasão russa da Ucrânia em 2022, ou antes da invasão do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2003, pelos EUA, decorrem exercícios militares de grande envergadura, porque isso, segundo vários analistas militares, permite, além de verificar a operacionalidade das forças, geolocalizar, através da intelligentsia, os principais sistemas de defesa do "inimigo".

A par destas movimentações gigantescas de material militar, o Irão fechou o seu espaço aéreo por tempo indeterminado, e as grandes companhias aéreas começaram a cancelar voos para os países da região, especialmente Israel e Irão.

Há um dado que pode ser ainda mais decisivo para o momento de trump carregar no botão "start" para o início das hostilidades, é que os EUA podem ter aqui a primeira oportunidade para testar as suas capacidades ofensivas perante alguns dos melhores sistemas de defesa antiaérea da China e da Rússia, no quadro da preparação de futuros conflitos que quase ninguém duvida que vão acontecer entre os dois gigantes mundiais, EUA e China.

Nem todos acreditam numa guerra inevitável

No entanto, nem todos estão convencidos que um ataque é já inevitável, porque, como nota Alastair Crooke, antigo chefe da diplomacia do Reino Unido e dirigente da secreta britânica, MI6, apesar da retórica agressiva de Trump, os EUA não têm ainda meios suficientes na região para um ataque decisivo ao Irão.

Mas esta analista, dos mais experientes e reconhecidos especialistas sobre o Médio Oriente, garante que quando suceder, se suceder, não será uma guerra relâmpago, vai ter consequências desastrosas e demorará muito para que a poeira assente.

E Alastair Crooke recorda, num podcast do ex-militar norte-americano, coronel Daniel Davies, que o Irão é um país gigante, com o tamanho da Europa Ocidental, com quase 100 milhões de habitantes, e, neste momento, os EUA não têm mais de 400 misseis Tomahwak nos vários navios de guerra que possuem na região, o que é "muito pouco".

"Podem causar danos volumosos, mas não suficientes para que o Irão deixe de ser uma séria ameaça aos interesses dos EUA e de Israel no Médio Oriente", disse, acrescentando que a questão mais relevante nem é essa, "é perguntar qual a razão para este iminente ataque" e se se olhar com atenção, "não há nenhuma".

O que alguns analistas notam igualmente é que Donald Trump e a sua Administração podem estar a usar esta retórica de guerra iminente para distrair as atenções dos gravez problemas internos, sejam eles económicos, ou políticos, como a questão da acção desastrada da sua força especial de fronteiras (ICE) ou ainda dos problemáticos ficheiros Epstein, um pedófilo condenado, onde o nome do Presidente dos EUA surge fortemente envolvido.