Embora, apesar de não ser inédito, porque em 2001, o ano do ataque ás Torres Gémeas em Nova Iorque, os EUA atacaram o Afeganistão no 1º dia do Ramadão, o mês sagrado dos muçulmanos, dificilmente Donald Trump ordenará um ataque no decurso deste período.
E a razão é que Donald Trump não pode, o que seria consequência natural, melindrar os seus aliados regionais, onde tem dezenas de bases militares, como a Arábia Saudita, EAU, Kuwait ou Catar, países islâmicos, tal como o Irão, e que vai precisar para suportar as consequências do "day after" a um eventual cenário de guerra.
Portanto, partindo do princípio que o mês sagrado do Islão não haverá um ataque dos EUA sobre o Irão, alguns analistas, considerando que a estrondosa máquina de guerra dos EUA no Médio Oriente, a maior desde a invasão do Iraque, em 2003, e a mais sofisticada de sempre, apontam como cenário Washington estar a aproveitar estas negociações para ganhar tempo.
Não apenas o tempo para que passe o Ramadão mas para, como sugerem analistas como o major-general Agostinho Costa, na CNN Portugal, os EUA garantirem que possuem na região não apenas as capacidades de ataque inicial, o que está garantido, mas também a logística necessária para uma guerra que pode ser mais longa que o planeado.
É que Donald Trump foi avisado na semana passada por Dan Caine, o CEMGFA norte-americano, e por John Ratcliffe, director da CIA, que o Irão é actualmente um osso mais duro de roer que na guerra dos 12 dias de Junho de 2025, e que os EUA podem ficar sem munições para um confronto que vá além dos cinco a sete dias, nas condições actuais.
Os iranianos, colocando sempre à frente a preferência para negociar uma saída para este braço-de-ferro, têm, inclusive pela voz do seu Líder Supremo, o aiatola Ali Khamenei, avisado que não se esqueceram da traição dos EUA no ano passado quando atacaram o país nas vésperas de uma nova ronda negocial...
Também o Presidente do Irão, Massoud Pezeshkian, e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, têm feito notar que o Irão está preparado para um confronto militar com os EUA de larga escala e que desta vez não serão apanhados de surpresa como em Junho de 2025.
Além disso, como pode ser revisitado nos links em baixo, a China e a Rússia, com quem o Irão tem parcerias estratégicas na área da Defesa, têm aproveitado estes meses para fazer chegar a Teerão sucessivas vagas de cargueiros aéreos com equipamento militar de ponta, desde os sistemas antimíssil russos S-400, os mais sofisticados, e os caças SU-35, ou os radares de última geração que detectam a quase 700 kms os aviões furtivos norte-americanos F-35 e F-22, além dos também modernos misseis antiaéreos de longo alcance HQ-9, a série HQ-16 , de médio alcance e mísseis portáteis (MANPADS) como o QW-4.
Foi isto que o CEMGFA e o director da CIA disseram a Donald Trump, o que poderá estar na base de mais um recuo do Presidente dos EUA, porque se um novo conflito é um pesadelo eleitoral no contexto das eleições intercalares de Novembro deste ano, o regresso de centenas de militares mortos a casa, seria catastrófico para as suas pretensões de renovar as maiorias no Congresso.
E é neste contexto que as conversas em Genebra, que tiveram lugar na quinta-feira, 26, ontem, entre as delegações dos EUA, liderada por Steve Witkoff (na foto, do lado esquerdo), amigo de longa data de Trump, e pelo seu genro, Jared Kushner, e iraniana, chefiada pelo ministro Abbas Araghchi (na foto, do lado direito), não foram mais longe de aprovarem uma nova ronda negocial para a próxima semana.
O ponto positivo encontrado pelos analistas é que Witkoff e Kushner não cederam ao lobby pró-israelita nos EUA que exige que os EUA obriguem Teerão a aceitar negociar, além do seu programa nuclear, os seus sistemas de misseis de longo alcance, e as suas relações com os aliados regionais...
A conversa centrou-se no programa nuclear, como de resto Araghchi avisou que é o que o Irão está disponível para aceitar por ser ali claro que Israel quer o país sem misseis e sem aliados fortes na região para poder, depois, agir no sentido de atacar e mudar o regime em Teerão sem consequências de maior, porque em nenhum lado Telavive parece estar a ser colocado perante a necessidade de também reduzir o seu potencial militar.
Apesar da desconfiança evidente, Abbas Araghchi considerou, após o fim da ronda negocial em Genebra que se conseguiram "bons progressos" com uma nova ronda já marcada para Viena de Áustria, cidade onde está a sede da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), na próxima semana, precisamente para desbravar caminho no campo do programa nuclear do Irão, que este país garante ser apenas para fins civis.
Steve Witkoff também fez saber que as conversações vão continuar, que há expectativas optimistas para a próxima ronda em Viena...
O cenário seria bom, até mesmo óptimo, se não pairasse sobre estas conversas uma frase assassina de Marco Rubio, o secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, quando este, há três dias, quando esta ronda já estava agendada, disse que "é um grande problema se os iranianos não aceitarem discutir o seu programa de misseis".











