E a razão para que o Presidente dos EUA tenha evitado ir longe demais na questão do iminente ataque ao Irão também não ficou clara, porque o facto de ter dito que prefere a "opção diplomática" não é uma novidade, pelo contrário, tem servido de rede em todas as declarações de Donald Trump sobre o imbróglio que está montado no Golfo Pérsico.
Mas há notas que não podem nem estão a deixar de ser consideradas nas análises dos especialistas sobre a ameaça de guerra no Médio Oriente desencadeada pelos norte-americanos com o envio da mais robusta máquina militar para a região desde a invasão do Iraque em 2003 ordenada pelo então Presidente George W. Bush.
É que Donald Trump, como avançaram os media norte-americanos nas vésperas deste discurso à Nação, o general Dan Caine, Chefe do Estado Maior-General (Conjunto) no Pentagono, foi à Casa Branca advertir Trump para alguns riscos de uma operação militar contra o Irão que o Presidente não estava a ponderar.
Entre estes riscos está, como avançaram jornais como The New York Times ou The Washington Post, a nova postura dos aliados estratégicos de Teerão, China e Rússia, estão a reforçar de forma substantiva as capacidades dos sistemas antiaéreos do Irão, com novos e sofisticados radares, e os seus sistemas de misseis balísticos hipersónicos, de cruzeiro e antinavio, viram a sua acuidade muito melhorada com tecnologia russa.
Isto leva a que o Irão seja hoje, ainda segundo os relatos dos media locais sobre o encontro de Dan Caine com Trump, um adversário muito mais poderoso e, ao contrário do que sucedia antes da "guerra dos 12 dias" de Junho de 2025, com novas e excepcionais capacidades para infligir danos substantivos nas bases dos EUA na região, nos seus navios de guerra e, em especial, em Israel.
Outras notas que permitem perscrutar alguma hesitação em Donald Trump neste longo discurso, de duas horas, onde pura e simplesmente ignorou a guerra na Ucrânia, apesar de ser o dia em que se "comemorava" o 4º ano da invasão russa, é que se notou uma viragem acentuada para a sua base eleitoral interna da MAGA (Make America Great Again), que lhe exige foco nos assuntos internos de política económica e de segurança, e ainda que na questão do Irão ficou-se apenas pelo tema do nuclear.
Isso quer dizer que Trump abandonou, pelo menos perante o Congresso, as exigências sobre a eliminação dos sistemas de misseis de longo alcance e do apoio de Teerão aos seus aliados regionais, que permitem ao Irão manter uma forte dissuasão sobre a vontade de décadas de Israel decapitar o regime iraniano.
O que transforma todo o contexto negocial, pelo menos na forma, porque no conteúdo, Teerão não se esquece que em Junho do ano passado o Irão foi atacado pelos EUA nas vésperas de uma muito propalada ronda negocial sobre o programa nuclear iraniano, ao aproximar Washington da conhecida vontade iraniana de evitar um conflito através de um acordo firmado entre iguais sem o condicionamento de uma ameaça militar...
Os analistas sublinham que a ronda negocial entre iranianos e norte-americanos agendada para esta quinta-feira, 26, em Genebra, na Suíça, poderá revelar-se uma surpresa nos resultados se se confirmar que Trump abandona as exigências impossíveis de cumprir pelo Irão sobre os seus "existenciais" sistemas de misseis de longo alcance e a sua relação com os aliados regionais, como as milícias iraquianas, o Hezbollah, no Líbano, ou, entre outros, os Houthis, no Iémen.
Até lá, para subverter esta lógica pacifista que alguns analistas viram neste discurso de Trump no Capitólio, os jornais e televisões norte-americanas têm esta quarta-feira, 25, grandes espaços dedicados ao impressionante crescimento da máquina de guerra que os EUA estão a reunir no Médio Oriente e Mediterrâneo Oriental, onde já estão dois grupos de combate de porta-aviões (mais de 20 navios de guerra).
Além disso, nas bases que possuem na região, os EUA têm agora centenas de aviões de guerra, incluindo mais de 400 caças - só nas últimas horas chegaram trinta F-22 a Israel -, dezenas de aviões de reabastecimento aéreo, de recolha de intelligentsia... e, como se fosse pouco, as últimas notícias apontam para um terceiro porta-aviões a caminho da região.
A possibilidade benigna para este gigantesco potencial militar concentrado na região, segundo analistas como o antigo analista da CIA, Larry Johnson, é que Trump esteja a procurar negociar pela força de forma a conseguir do Irão o que o Irão não lhe quer conceder, mas a maligna é, como aponta o também norte-americano John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, concluir que tamanha concentração de força, dificilmente não será usada.
O que este analista, um dos mais respeitados especialistas em política internacional e geoestratégia, admite é que o Presidente norte-americano venha a optar por uma operação militar limitada sobre o Irão, previamente concertada com Teerão, de forma a poder mandar retirar a sua "maravilhosa armada" dos mares da região alegando uma vitória relâmpago sem perder a face.
O problema é que o Presidente iraniano, que é um moderado, já veio reforçar as palavras do líder supremo, o aiatola Ali Khamenei, no sentido de que desta vez o Irão não vai alinhar em nada que não seja negociações claras e justas entre iguais com os EUA e que qualquer ataque, por mais limitado que seja, será visto como uma guerra aberta e ilimitada.
Trump garante que não hesitará em "confrontar ameaças à América"
Sobre as declarações de Trump, a agência Lusa refere que este afirmou perante o Congresso que procurará a paz onde puder, mas também garantiu que "nunca hesitará em confrontar as ameaças à América onde quer que seja necessário".
"Como Presidente, procurarei a paz onde puder, mas nunca hesitarei em confrontar as ameaças à América onde quer que seja necessário", disse.
Após mais de hora e meia de discurso, Donald Trump finalmente abordou o tema do Irão, celebrando a "Operação Martelo da Meia-Noite", que em junho atingiu as três maiores centrais de enriquecimento de urânio iranianas: Natanz, Fordow e Isfahan.
"Nós aniquilámos tudo e eles querem começar tudo de novo", acusou, ainda citado pela Lusa.
Trump admitiu "querer chegar a um acordo" com o Irão e que a sua preferência "é resolver esse problema através da diplomacia", num momento em que os negociadores norte-americanos se encontrarão com os iranianos para novas conversas em Genebra, na quinta-feira.
Num momento em que os Estados Unidos mantêm o seu maior destacamento militar em torno do Irão desde a Guerra do Iraque, de 2003, o chefe de Estado garantiu esta terça-feira que não permitirá que o Irão obtenha uma arma nuclear.
"Não ouvimos aquelas palavras secretas: 'Nunca teremos uma arma nuclear'", disse Trump sobre os líderes iranianos.
Contudo, algumas horas antes do discurso de Trump, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, repetiu a promessa de que o Irão "nunca irá desenvolver uma arma nuclear, sob nenhuma circunstância", numa publicação na plataforma X.
Para as autoridades norte-americanas, o problema nunca foi a retórica do Irão, mas sim as evidências, reunidas ao longo de anos, de que o país aparentava estar a testar componentes que seriam usados na fabricação de armas nucleares, salientou hoje o jornal New York Times.
"Eles foram avisados para não tentarem reconstruir o seu programa de armas, particularmente armas nucleares. No entanto, eles continuam a começar do zero", reforçou o líder norte-americano.











