A escalada já extravasara Gaza e assumira contornos regionais: envolverá o Hezbollah, no Líbano; os Houthis, no Iémen; confrontos directos entre Israel e o Irão; e também a Síria de Bashar al-Assad, cenário de incursões e respostas militares sucessivas, antes de o regime ser deposto, pouco tempo depois, numa ofensiva relâmpago de grupos rebeldes liderados por Abu Mohammad al-Jolani.
No último fim-de-semana, o Médio Oriente regressou em grande às manchetes internacionais, e não por boas razões. O Irão é atacado pela coalizão de Israel e Estados Unidos da América. Depois de sucessivas iniciativas diplomáticas inconclusivas - incluindo a mais recente ronda negocial em Genebra, mediada por Omã, em Fevereiro último - e perante o agravamento das tensões em torno do programa nuclear iraniano e da projecção militar indirecta de Teerão na região, a via diplomática cedeu definitivamente espaço à lógica militar.
Washington reforçou a sua presença naval e aérea no Golfo, alinhando-se com Tel Avive numa estratégia de contenção e dissuasão que rapidamente evoluiu para acções ofensivas. O que durante meses se manteve num registo de tensão indirecta e confrontação latente transformou-se, literalmente, da noite para o dia, num embate directo, com operações coordenadas e alastramento regional.
Na sequência dos primeiros ataques, o Irão respondeu com o lançamento de mísseis balísticos e drones contra múltiplas frentes. Os projécteis atingiram ou tiveram como alvo Israel, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Omã, Arábia Saudita, Iraque e instalações militares ligadas ao Reino Unido no Chipre, além de zonas estratégicas próximas do Estreito de Ormuz.
O conflito entrou numa espiral de retaliações rápidas e de elevada intensidade, culminando com a morte em combate de Ali Khamenei, Líder Supremo do Irão, o Ayatollah, e figura central do regime desde o final da década de 1980. A eliminação do mais alto dirigente político-religioso iraniano introduz uma variável adicional de instabilidade, abrindo um período de incerteza interna em Teerão e ampliando as repercussões geopolíticas de uma guerra que já ultrapassou fronteiras.
À luz deste novo ciclo de confrontação aberta, a mensagem de Shimon Peres, antigo Primeiro-Ministro e Presidente da República de Israel, recupera uma actualidade inquietante: a ideia de que a paz no Médio Oriente não é um exercício retórico, mas um projecto estratégico ancorado na interdependência económica, na cooperação tecnológica e na substituição da lógica militar pela lógica do desenvolvimento partilhado. Num contexto em que as armas voltam a impor o ritmo dos acontecimentos, a visão de Peres surge como janela possível para interromper a repetição dos mesmos erros e reinscrever a diplomacia no centro da equação regional.
Partindo da convicção de que os conflitos prolongados apenas atrasam o progresso e o bem-estar dos povos, Peres (Cf. O Novo Médio Oriente, 1994), defende que a paz entre Israel e os seus vizinhos árabes não só é possível, como necessária para que a região possa alcançar estabilidade e prosperidade. Segundo o autor, a chave para essa transformação reside na criação de um mercado regional comum, na partilha de recursos, no investimento em tecnologia, educação e infra-estruturas, e na substituição da lógica militar pela lógica da interdependência.
À distância de três décadas, a proposta de Shimon Peres soa quase como um documento de outra era - um tempo em que ainda se acreditava que a economia podia desarmar a ideologia e que a interdependência seria mais forte do que o ressentimento. O Médio Oriente regressou à linguagem da força, com o Golfo Pérsico no centro da conflagração.
*Mestre em Linguística pela Universidade Agostinho Neto

