Não, não houve relação directa. O comunicado falava em "conveniência de serviço". É uma expressão linda. Tão linda que merecia ser bordada num almofadão do gabinete. É daquelas frases que não quer dizer rigorosamente nada e quer dizer tudo. Pode significar que a senhora não acertava com as perguntas incómodas dos jornalistas. Pode significar que alguém precisava do lugar. Pode significar que há outros desafios. No fundo é poesia burocrática. Traduzindo: não convinha.
Talvez os novos desafios sejam exactamente estes: explicar a uma criança sentada numa pedra, debaixo de uma mulembeira, que o país está pronto para programar algoritmos. Há crianças que usam os joelhos como carteiras. São elas, imagino, à espera da "conveniência" de uma carteira. Da "conveniência" de um manual escolar. Da "conveniência" de uma sombra. E há milhões que estão fora do sistema de ensino. Será por conveniência, por ausência de condições ou insuficiência de infra-estruturas? A conveniência de serviço é para os adultos. Para as crianças, a conveniência não pode ser a sombra da árvore.
A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária. Pode personalizar o ensino, corrigir redacções em segundos, traduzir conteúdos para português, Umbundu, Kimbundu. Pode, sobretudo, fazer crer que estamos a dar um salto gigante sem sair do lugar. Mas não há inteligência artificial que resolva a falta de carteiras. Não há algoritmo que substitua um tecto. Não há chat inteligente que apague a imagem de uma criança a escrever no chão ou a fazer as tarefas na rua para aproveitar a luz do luar. A inteligência artificial corre o risco de ser mais bem alimentada que as crianças num programa de alimentação escolar sem fundos.
Não se trata de ser contra o progresso. Trata-se de justiça social. Porque Angola precisa, sim, de investir em ciência e tecnologia. Mas precisa também, e primeiro, de investir em sombra, em madeira, em papel. Há muitas escolas ainda na era da pedra. A inteligência artificial pode ser o futuro, mas o presente ainda é analógico, precário, feito de pó e sol. Isso, quando a chuva não interrompe a já fraca cadência das aulas com pingos grossos que descem como chicotes nas costas dos alunos, transformando a lição em suplício, enquanto a sala se converte num rio improvisado, com cadernos a boiar e sonhos a afundar.
O país não precisa de escolher entre o manual escolar e o algoritmo. Precisa de ambos. Mas convém lembrar: um algoritmo não ensina ninguém a ler se a criança não tiver onde se sentar. E ao ritmo que vamos, ainda vamos ter inteligência artificial antes de ter salas e carteiras. O que, convenhamos, é um bocado ao contrário.
Sorriso crónico: Educação artificial
A Ministra da Educação anunciou a implementação de um projecto-piloto numa terça-feira. Disse que a inteligência artificial iria chegar a dez escolas. Não dez mil, nem quinhentas. Dez. Parecia modesto, quase humilde. Mas em Angola, dez é um número suspeito. Dez escolas com IA soava a vanguarda, a futuro, a quarta revolução industrial. Três dias depois, foi exonerada.

