Foi durante o 9º Fórum Económico do Oriente, em Vladivostok, esta quinta-feira, 03, que o Presidente russo elogiou as "boas intenções" de Donald Trump, reafirmando que aprecia os seus esforços para retirar os obstáculos do caminho que leva à retoma da normalidade nas relações entre Moscovo e Washington.

Um desses obstáculos, sabe-se, até porque Trump disse-o também já esta semana (ver links em baixo) é a guerra na Ucrânia, cujo fim, ou pelo menos um fim previsível e claro, é a condição para que possa ocorrer um novo encontro pessoal com Putin.

E esse fim, que para Donald Trump faria todo o sentido acontecer antes das eleições intercalares de Novembro, nas quais usaria como trunfo eleitoral ter "acabado com mais uma guerra", é o objectivo principal da próxima deslocação de Steve Witkoff e Jared Kushner a Moscovo e a Kiev.

Segundo o canal russo RT, que cita fontes não identificadas mas que só podem ser do Kremlin, esta visita , sobre a qual os media norte-americanos já tinham falado mas sem confirmação, visa criar a ponte segura e sólida entre Moscovo e Kiev para começarem a pensar numa forma de terminar a guerra garantindo a dignidade mínima exigida por ambas as partes.

Isto, quando o Presidente ucraniano repete a um ritmo diário que quer chegar à paz com os russos e sente cada vez mais dificuldades em manter o regime sólido e uno, especialmente depois de já esta semana as duas "secretas", civil (SBU) e militar (GUR), se terem confrontado a tiro nas ruas de Kiev por motivos ainda perceber mas já mandados apurar em inquérito judicial por Volodymyr Zelensky.

E também quando Vladimir Putin anunciou, para surpresa de todos, mas claramente com o objectivo de alimentar a cadeia de acontecimentos gerados pela antecipação da visita da dupla Kushner7Witkoff a Kiev e a Moscovo, que não apenas está disponível para negociações como garantiu que os contactos directos com os ucranianos já estão a acontecer através dos serviços de intelligentsia de ambos os países.

Este "efeito Trump", que, primeiro pressionou Zelensky a dizer várias vezes que quer negociar com os russos presencialmente, desde que os americanos estejam presentes, e depois levou Putin a esta súbita e empenhada vontade de negociar, pode ser o último fôlego para a paz antes de, como alguns analistas notam já, a guerra entrar numa nova fase de agressividade e intensidade.

Como sempre fizeram até aqui, e sempre que russos e norte-americanos se aproximaram para falar de normalização das relações e do conflito no Leste europeu, os europeus procuram criar condições para boicotar esses processos ou porque querem um lugar á mesa ou porque lhes interesse manter o conflito a "arder" por razões de política interna.

Foi assim, na vez mais sonora, quando em Agosto de 2025, Trump e Putin se encontraram no Alasca, para a Cimeira de Anchorage, com os líderes europeus a irem a Washington logo a seguir com o evidente objectivo de afastar de novo russos e americanos através de novos apoios a Kiev para escalar o conflito com Moscovo.

E está a ser assim agora, com o episódio bizarro do drone que não teria explodido num aeroporto de Leipzig, onde estava estacionado um avião ucraniano usado para o transporte de armas ocidentais para Kiev e que Berlim já imputou aos russos, levando a NATO, que, para todos os efeitos, é liderada pelos EUA, a ameaçar Putin com uma retaliação de mão pesada.

Recorde-se que Donald Trump anunciou ainda antes do seu regresso à Casa Branca em Janeiro de 2025, que resolver o conflito na Ucrânia era a sua principal prioridade na política externa, prometendo fazê-lo em horas, depois semanas e por fim admitindo o fracasso devido à "extrema animosidade" entre Putin e Zelensky.

Não é a primeira vez que Trump se empenha pessoalmente na procura de uma solução para esta conflito, que já é a mais catastrófica guerra na Europa desde o fim da II Guerra Mundial, em 1945, mas desta feita Kiev tem reforçadas razões para negociar e Moscovo também.

Se Kiev está sob intenso bombardeamento há duas semanas, sem capacidade de se defender por não dispor de mísseis intereceptores Patriot 3, e o Inverno se aproxima rapidamente, deixando a Ucrânia numa vulnerabilidade que pode ser insustentável para o regime de Zelensky, em Moscovo, o problema não é muito diferente.

Com as eleições legislativas de Setembro à porta, o regime russo, liderado por Putin há décadas, está a ser posto à prova com a nova eficácia conseguida pelos ataques com drones de longo alcance disparados por Kiev com o apoio ocidental na profundidade do território russo, provocando danos sérios na sua infra-estrutura económica, comercial e energética.

E não se pode ignorar um possível abalo sísmico nesta nova tentativa de chegar à paz que é a ameaça de Volodymyr Zelensky de atacar a aviação comercial, embora o tenha feito sob a forma de alerta para a possibilidade dos voos comerciais sob os céus russos darem de "caras" e "por acaso" com um drone ucraniano.

Putin logo reagiu colocando o sismógrafo russo no volume máximo, afirmando que se uma tragédia dessas acontecer, Zelensky terá a resposta adequada logo a seguir, o que foi visto por vários analistas como uma forma de colocar a cabeça do próprio Presidente ucraniano a prémio.

Já esta sexta-feira, 04, os russos atacaram o aeroporto de Kiev destruindo pelo menos dois aviões na pista, ao que tudo indica sem vítimas...

Sendo verdade que as deslocações de Witkoff, um velho amigo de Trump, e Kushner, seu genro, a Moscovo e a Kiev não são uma novidade, desta feita, olhando para os interesses eleitorais de todos os intervenientes, há uma nova oportunidade no horizonte.

Com as legislativas na Rússia em Setembro, as eleições intercalares nos EUA em Novembro e Zelensky cada vez mais pressionado (ver links em baixo) para realizar eleições que já deveriam ter tido lugar em Maio de 2024, é possível que o "efeito Trump" possa ser agora a rampa de saída que todos precisam para sair do pântano.

Desde logo Kiev, porque aquele que foi o objectivo inicial da invasão russa de 24 de fevereiro de 2022, anunciado com clareza pelo Kremlin, era a conquista do Donbass, a região oriental da Ucrânia constituída pelas províncias de Donetsk e Lugansk, está prestes a ser conseguido.

É que as forças russas avançam lentamente mas de forma constante na direcção das cidades de Kramatorsk e Slaviansk, que são os dois últimos redutos ainda sob domínio ucraniano no Donbass, sendo que, depois dessa tomada, que se prevê para breve, Putin pode reclamar vitória, se assim o entender.

Embora se saiba que esses objectivos mudaram substancialmente com o passar dos anos de guerra, e são hoje, se todos forem alcançados, uma derrota gigantesca para Zelensky.

Objectivos esses que são, como Putin explicou em Julho de 2024, a desmilitarização, a neutralidade total da Ucrânia, o reconhecimento da perda dos territórios ocupados e a mudança constitucional para fazer da cultura, língua e religião russas reconhecidas na Ucrânia que restar deste conflito.

Para almofadar o caminho para esses objectivos, Vladimir Putin atribuiu à dupla Kushner/Witkoff, os enviados especiais de Donald Trump, a mais vistosa "medalha" de mérito: apelidou-os de "interlocutores sinceros".

Mas o mesmo não diz de Zelensky, a quem já acusou por diversas vezes de não ter legitimidade para negociar em nome da Ucrânia por o seu mandato ter expirado já em Maio de 2024 e não ter ainda prazo para a realização das eleições gerais que já levam mais de dois anos de atraso.