Dos relatórios anuais sobre África constam capítulos sobre Angola, que, nomeadamente desde a independência, abrangem os diversos aspectos e violações dos direitos do homem no País, que são, em geral, apresentados com o cuidado de fornecer indicações sobre o contexto geral que o vivia em cada fase.

Muito activa nas campanhas internacionais contra a pena de morte, em 1976 a AI tinha-se exprimido contra a pena capital à qual foram condenados, num processo público em Luanda - o primeiro que ocorreu em África contra o "mercenarismo" -, quatro dos 13 mercenários internacionais recrutados por iniciativa da CIA americana, depois do fracasso da tentativa da FNLA de tomar Luanda antes do 11 de Novembro de 1975.

No relatório anual publicado em 1977, a Amnistia preocupa-se com os "prisioneiros de opinião" - que não têm cometido crimes de sangue -, tais como os membros da facção do MPLA "Revolta Activa", afirmando que "depois da tentativa de derrubar o Governo do Presidente Neto, o número de presos acabará por aumentar significativamente".

"Depois da tentativa de golpe, mais de 100 pessoas foram presas", escreve a seguir a AI, que se dirige ao Presidente Neto "deplorando a violenta tentativa de derrubar o Governo", mas apelando ao mesmo tempo que se assegurasse aos presos "um julgamento justo e aberto".

Na secção sobre Angola do relatório seguinte, saído em 1978, a AI sublinha as dificuldades que conhecia "o Governo de Agostinho Neto confrontado com problemas em várias frentes do País, na altura em que tentava estabelecer o controlo efectivo sobre todo o território". O relatório especifica tratar-se da persistência da guerrilha da UNITA e de confrontações na fronteira sul entre o movimento de libertação da Namíbia, a SWAPO, e o exército sul-africano. No Norte, o Governo angolano, acrescenta a AI, devia também agir para "conter os ataques esporádicos da guerrilha da FNLA, baseada no Zaire e aquela da FLEC em Cabinda".

A organização humanitária diz não dispor de "detalhes sobre os prisioneiros capturados nestes conflitos", mas afirma que "a pressão exercida pelas actividades das guerrilhas e de militantes da oposição tem claramente afectado as respostas do governo de Neto às crises internas que surgiram como consequência da tentativa de golpe de estado do 27 de Maio de 1977."

Embora tal "tentativa de golpe, dirigida pelo antigo ministro do Interior Nito Alves e pelo antigo prisioneiro político do regime colonial português, José Van-Dúnem, tenha falhado, ela criou uma grande crise no seio do MPLA no poder (...) devido à adesão de indivíduos em posições chave no partido, de militares e nos sindicatos". Na percepção da AI, "as dificuldades económicas e a presença de muitos mestiços nas estruturas administrativa do MPLA estavam ao centro da contestação".

Em Março de 1984, a AI dedica, exclusivamente, a Angola um relatório em português de 30 páginas, intitulado "Aprisionamentos Políticos na República Popular de Angola", que retoma e aprofunda as informações apresentadas anteriormente, analisa a Constituição e o sistema jurídico em vigor, a questão da "prisão por motivos políticos sem julgamento", ou ainda os "assassinatos políticos e desaparecimentos".

Trata-se, em geral, de uma reconstrução sem concessões das conjunturas dos primeiros anos de independência e do trágico evento que ocasionou a maior crise daqueles anos: a tentativa de golpe de estado do 27 de Maio de 1977 - como a AI a define obstinadamente.

A organização humanitária volta a apresentar o contexto e o desenrolar dos acontecimentos: "Além de enfrentar ao mesmo tempo dissidências internas e constantes ataques de movimentos armados de oposição, o governo experimentava graves dificuldades práticas para reorganizar a economia e a administração do país. (...) Alguns membros do MPLA criticaram o governo acerca da escassez de alimentos em Luanda no início de 1977 e pediram mudanças na organização política. Em meados de Maio de 1977, Nito Alves e o seu companheiro mais chegado, José Van-Dúnem, foram expulsos do Comité Central do MPLA. Uma semana mais tarde, a 27 de Maio de 1977, os partidários de Nito Alves tentaram tomar o poder por meio de um golpe".

A AI escreve ainda: "Na esteira desta tentativa de golpe, informou-se que milhares de pessoas foram presas e desencadeou-se uma crise política de grandes proporções. Alega-se que sérias violações dos direitos humanos ocorreram durante os doze meses seguintes, principalmente depois que o Governo aparentemente transferiu a responsabilidade dos prisioneiros políticos do judicial para a polícia de segurança."

"Inicialmente, relembra o relatório, o presidente Neto deu a entender que haveria uma certa clemência para com os membros da facção nitista, porém mais tarde ele declarou publicamente que a retaliação seria pronta e dar-se-ia pouca atenção às formalidades judiciais. Aparentemente, isto ocorreu depois que ele soube que sete altos funcionários do MPLA haviam sido mortos. Em Julho de 1977, ele anunciou a formação de um Tribunal militar especial para julgar as pessoas presas por cumplicidade na tentativa de golpe".

A AI assinala, no entanto, que "os procedimentos do Tribunal militar especial foram conduzidos em sigilo. Não se sabe quantos casos foram efectivamente examinados pelo tribunal, nem quantos foram tratados de forma sumária". Porém, acrescenta a AI, "mais de um mês depois [da criação do Tribunal], a responsabilidade pela investigação e pela punição daqueles supostamente envolvidos foi aparentemente delegada por inteiro à DISA. A Direcção desta examinou os casos de prisioneiros mais importantes, mas na maior parte dos casos, os directores locais de operações da DISA assumiram aparentemente a responsabilidade de decidir o destino daqueles que haviam sido presos".

A organização sediada em Londres admite, enfim, não dispor de dados certos sobre as vítimas da repressão que se seguiu ao golpe. Na página 25 deste relatório, em língua portuguesa, é assinalado que a "Amnistia Internacional não tem podido calcular com precisão quantas execuções extrajudiciais ocorreram entre Maio de 1977 e Março 1978. As autoridades angolanas não publicaram quaisquer informações a respeito das execuções e parecem ter considerado o episódio encerrado depois da dissolução da DISA em Julho de 1979 e da morte do próprio presidente Neto em Setembro de 1979. Algumas fontes da oposição já alegaram que houve milhares de vítimas, mas a Amnistia Internacional não pode confirmar estas estimativas. Foram entregues à organização os nomes de cerca 90 pessoas que teriam sido mortas, mas acredita-se que é substancialmente maior o número total".

No que diz respeito aos "prisioneiros de consciência", a AI escreve neste relatório dedicado a Angola: "Entre 1975 e 1980, mais de 150 pessoas foram presas por períodos que variaram entre um e quatro anos, em virtude de suspeitas de apoio a grupo tais como os Comités Amílcar Cabral, Revolta Activa e OCA. Até meados de 1980, contudo, acredita-se que todos tenham sido libertados".

Em Julho de 1979, assinala ainda a AI, "o presidente Neto anunciou que a DISA estava dissolvida devido aos «excessos» que, segundo ele disse, teria cometido. Numerosos funcionários foram detidos para investigações (...). Estes funcionários foram detidos por quase um ano na prisão de São Paulo, em Luanda, e depois libertados aparentemente por falta de provas contra eles". A AI lamenta que "os resultados de um inquérito oficial sobre as actividades da DISA, anunciado em 1979, nunca tenham sido publicados" e alega que "muitos dos antigos funcionários da DISA conservaram os seus postos", [em outros organismos de segurança públicos ou privados].

Qualquer sejam as imperfeições ou as aproximações eventuais destes relatórios, eles têm o mérito de ter sido realizados à medida que os acontecimentos se produziam por observadores imparciais e desinteressados em contextos particularmente difíceis. A leitura destes inquéritos não deixa dúvidas sobre a pretensão desestabilizadora da tentativa de derrubar o Governo ainda confrontado com múltiplas ameaças internas e internacionais e traz um desmentido categórico à afirmação que surgiu insistentemente nos últimos anos, segundo a qual, naquele dia fatídico, os seguidores de Nito Alves tinham simplesmente participado em "uma manifestação pacífica".

Quanto ao número de vítimas da repressão, a Amnistia Internacional é a primeira a admitir a sua incapacidade em fornecer respostas satisfatórias, ao contrário do afirmado por alguns investigadores/historiadores/pesquisadores.

Mais do que nunca, cabe à "Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em memória das vítimas dos conflitos políticos desde a independência" acelerar as pesquisas e as consultas no seu seio para fechar condignamente este capítulo doloroso da história de Angola.