O fenómeno é de tal ordem presente que até figuras a que atribuíamos um perfil que os afastava definitivamente desse campo, são hoje porta-estandartes das mais variadas confissões e, já não nos admiraríamos, quiçá mantêm igualmente uma ligação privilegiada com algum personagem com boas relações com os espíritos dos antepassados, para que possa estar salvaguardado de alguma surpresa.

As consequências podem ser as mais diversas, trágicas ou cómicas, mas com um efeito pernicioso no funcionamento normal da sociedade, criando barreiras que afectam a vida das pessoas, impedindo-as, às vezes, de exercerem as funções para as quais são nomeados, com receio de represálias. Não há muito, espantado, ouvi relatos de profissionais, jovens, que tinham que exercer a sua actividade fora da sua região de origem, e se deparavam com os mais caricatos episódios, desde animais mortos no seu gabinete, a mensagens intimidatórias, que, aos mais fracos, acabava por assustar e impedir de fazer o seu trabalho.

É claro que o mais assustador são as notícias de assassinato de pessoas, quantas vezes velhos ou crianças, que são acusados, pelo mestre do oculto do local, de serem os responsáveis por doença, morte, ou "azar", de alguém relacionado com o cidadão que, desesperado, o procura.
Este crescimento do obscurantismo, termo que definiu durante a primeira república este tipo de crenças e práticas, acaba por ter uma ligação muito clara com o desnorte da sociedade com a transição que se operou no país, e que pôs em causa os valores que o regeu durante os primeiros anos do pós-independência (valores, na realidade, papagueados por muitos, mas assumidos por muito poucos), e que, a par da ganância trasvestida de empreendedorismo que passou a ser a religião económica oficial, um conveniente alinhamento com o sobrenatural passou a ser caucionado, para os que não tendo convicções e valores firmes, os procurassem no transcendente, através de práticas que garantam o máximo de benefícios materiais por aqui, e o paraíso lá.

Entretanto, apaziguem-se os espíritos maléficos da tradição para que a chuva não perturbe as cerimónias oficiais, e, para que nada seja deixado ao acaso, construa-se uma basílica na Muxima, indulgência que deverá assegurar a paz dos prevaricadores. Melhor apostar no seguro, já defendia Pascal..