O anúncio da morte do líder iraniano, Ali Khamenei, em resultado de um dos ataques, reforçou a convicção do propósito.
Porém, com o passar dos dias, fomos assistindo à extensão do conflito a outros países na região, dando o Irão mostras de que, para além de resistir no seu território, tomava iniciativas inesperadas contra esses países que professavam, aliás, oficialmente a religião islâmica.
Israel não perdeu o ensejo para relembrar, pelo recurso forçado à metralha, que o Hezbollah no Líbano, o Hamas na faixa de Gaza e os Houtis no Iémen, eram "farinha do mesmo saco", transportados às costas pelo Irão, visando a extinção do Estado de Israel.
De escalada em escalada, Israel colocou botas no terreno do Líbano, com o frágil governo deste país a afirmar que o Hezbollah tinha de desarmar.
Como inicialmente se pensava, estarmos perante uma guerra que teria uma duração não superior aos dedos de uma mão, o facto é que isso não ocorreu, não se vislumbrando agora saída.
Declarações contraditórias sobre a razão da iniciativa bélica passaram a ser prática usual de Donald Trump, dificilmente decifráveis, não se entendendo como é que o povo iraniano, com a guerra em curso, ajudará o regime a cair.
É, aliás, útil relembrar que esse mesmo povo, há quarenta e sete anos, foi vitima indefesa em manifestações gigantescas dos algozes de Reza Palevi, que acabou por fugir para os EUA com a família.
De seguida, em 1979, esse mesmo povo vitoriou a tomada do poder por uma tecnocracia, com Khomeini como líder supremo.
Ironia da História, ou talvez não, escassos dias antes da acção recentemente empreendida pelos EUA e por Israel, o regime iraniano viu novas e gigantescas manifestações com milhares de iranianos a sustentarem a queda do regime.
Neste quadro, o Irão, ao fechar o acesso à navegação pelo estreito de Ormuz, colocou o mundo num novo alvoroço, mercê da subida do preço dos commodities, petróleo e gás, indispensáveis aos mercados.
Como é sabido, é por esse estreito que transita uma percentagem significativa de "ouro negro", cerca de 20%, mas também gás, dado que o Catar é o principal produtor mundial.
Entretanto, há mais de mil navios à espera de poderem operar junto do estreito.
A subida do preço da energia repercutiu-se, desde logo, em todos aqueles bens que dependem dela, bem como nos alimentares.
A inflação passou a estar na ordem do dia com o escalar da guerra, não se descortinando quanto tempo durará a desordem económica instalada.
Entretanto, a Agência Internacional da Energia encorajou um conjunto de países a disponibilizarem reservas ao mercado, 400 milhões de barris de petróleo, para fazer baixar o preço ou, pelo menos, estabilizá-lo.
Esta medida é, porém, um paliativo de curto prazo, tendo em consideração as necessidades permanentes dos mercados.
Confrontado com as consequências do encerramento do estreito de Ormuz, o Presidente Trump procura agora obter parceiros para uma nova operação delicada para forçar a abertura da passagem do estreito.
Estamos perante uma verdadeira quadratura do círculo, à espera de novos episódios com os preços dos bens essenciais a subirem.
Aguardemos os novos capítulos por não terem sido ponderadas todas as consequências do que poderia ocorrer.
É estranho, mas é assim.
Como dizia o historiador português Vasco Polido Valente, há escassos anos, "O mundo está perigoso".

