Não encaro este alerta como mais uma notícia passageira. Vejo-o como uma chamada de atenção para a necessidade de agir antes que a emergência se instale. Os angolanos conhecem bem os efeitos das secas prolongadas. Províncias como a Huíla, Cunene, Namibe, Cuando e Cubango têm enfrentado, ao longo dos anos, perdas de gado, dificuldades de acesso à água e crescente vulnerabilidade das famílias rurais.
A questão não é saber se o fenómeno irá ou não ocorrer. A questão é saber se estaremos preparados para enfrentar as suas consequências.
Não podemos impedir a ocorrência do Super El Niño. Podemos, contudo, evitar que os seus efeitos se transformem num desastre de grandes proporções. Isso porque os desastres não resultam apenas dos fenómenos naturais. Resultam também da falta de preparação, da fragilidade das infra-estruturas e da incapacidade de antecipar riscos amplamente conhecidos.
A experiência demonstra que as respostas de emergência, embora indispensáveis, chegam muitas vezes tarde e a custos elevados. Por essa razão, continuo convencido de que cada kwanza investido na prevenção pode evitar despesas muito superiores em assistência humanitária, recuperação económica e reconstrução.
Esta é também uma questão de boa gestão dos recursos públicos. Diversos estudos mostram que investir na prevenção é significativamente mais económico do que responder às consequências de uma crise depois de instalada. Num país onde os recursos são limitados e as necessidades sociais continuam enormes, esta deveria ser uma prioridade permanente. Segundo o Relatório sobre Clima e Desenvolvimento do País (CCDR), lançado pelo Banco Mundial em Dezembro de 2022, as perdas económicas directas provocadas pela seca na agricultura angolana, actualmente estimadas em cerca de 100 milhões de dólares por ano, poderão ultrapassar os 700 milhões de dólares até ao final do século, caso não sejam adoptadas medidas eficazes de adaptação e resiliência.
É por isso que por vezes eu tenho dificuldades de compreender porque as autoridades nacionais continuam, tantas vezes, a investir mais na resposta às crises do que na sua prevenção. Perante os alertas hoje disponíveis, repetir esse padrão seria um erro.
Num momento em que se prepara o Orçamento Geral do Estado para 2027, existem razões mais do que suficientes para reforçar investimentos em sistemas de alerta precoce, reservas alimentares estratégicas, apoio aos pequenos agricultores e criadores de gado, melhoria do acesso à água e mecanismos de protecção social para as famílias mais vulneráveis.
Importa igualmente reforçar a coordenação entre administrações locais, governos provinciais, Governo Central, parceiros de desenvolvimento e organizações da sociedade civil. Nenhuma destas entidades conseguirá, isoladamente, responder aos desafios colocados por um fenómeno desta dimensão.
Ao meu ver, a possível ocorrência dos eventos climáticos provocados pelo Super El Niño devem ser motivo de preocupação por parte das nossas autoridades, e por isso deveriam desde já fazer algo que nem sempre fazem de maneira adequada: definir estratégias de redução do risco de desastre, dedicar tempo, recursos e atenção à prevenção antes da emergência.
Os nossos decisores precisam de perceber que os desastres não são inevitáveis. Resultam frequentemente das escolhas que fazem e das prioridades que estabelecem. Ignorar os sinais seria um erro dispendioso. Agir agora poderá salvar vidas, proteger meios de subsistência e evitar custos muito mais elevados no futuro.
O momento de preparar não é quando a crise chegar. É agora.

Coordenador OPSA*