Depois da visita a Angola do primeiro Vice-Presidente do Conselho de Estado e de Ministro da República de Cuba, Miguel Diaz-Canel Bermúdez, quais foram as recomendações deixadas para o incremento das relações de cooperação entre Angola e Cuba?

O nosso primeiro Vice-Presidente Miguel Diaz teve a oportunidade de fazer um balanço de toda a cooperação bilateral com Angola. Revimos como está a cooperação na saúde, educação, construção, energia e água, transportes... Em mais de dez sectores em que estamos a trabalhar conjuntamente. A instrução geral dada pelo Vice- -Presidente é a de continuar a aprofundar todas as possibilidades de cooperação bilateral entre os dois países. Tratar de diversificar ao máximo possível esta cooperação e manter as boas relações que temos com o governo angolano. Este foi o espírito da visita do Primeiro Vice-Presidente e o trabalho que me cabe realizar para aprofundar esta relação, que é uma relação histórica.

Para este ano, quais são as áreas que vão merecer maior atenção de Cuba?

Sempre serão a educação e a saúde. Porque é provavelmente o que de mais forte tem o governo de Cuba. Os recursos humanos são a nossa maior riqueza. Neste momento temos em Angola mais de quatro mil cubanos a trabalharem na assistência técnica, na construção…E desses, a maior parte está na educação e saúde. Na saúde temos 42% e na educação 40%. Logo 82% da cooperação entre Angola e Cuba está na educação e saúde. Temos ainda 2841 estudantes angolanos bolseiros a estudarem em Cuba. Ou seja, a aposta fundamental de Cuba tem sido a preparação dos recursos humanos angolanos para que Angola possa por si mesma, dentro de algum tempo, dispensar a cooperação internacional em matéria de educação e saúde. Esta é a principal aposta de Cuba.

Esta aposta também engloba tecnologia?

Há uma cooperação muito grande na área do combate à malária com produtos cubanos para acabar com os seus vectores. Cuba está interessada em construir em Angola uma fábrica de biocidas, bio-fertilizantes, fazer transferência tecnológica, porque nesta área temos alguma experiência. A proposta já foi apresentada. Agora é preciso ver os financiamentos, como é que se pode fazer. Há também interesse de Cuba em cooperar com Angola na produção conjunta de medicamentos e genéricos, onde temos uma grande experiência. Existe uma linha de exportação de medicamentos cubanos para Angola, numa relação muito importante para os dois países.

Qual é o estado da cooperação militar?

Neste tempo de paz e reconstrução nacional mantém-se uma forte assistência no domínio da formação. Temos professores no Instituto Superior Técnico Militar, institutos de formação como o de Lobito e centros de formação através da assessoria e em outras áreas como a canina. Também existe um grupo importante de cadetes e estudantes, futuros oficiais, a estudarem em Cuba. Temos também alguns oficiais a fazerem mestrados e doutoramentos. É uma relação também muito importante e profunda que tem vínculos desde os tempos da luta pela independência. É uma relação baseada na confiança, na segurança e na amizade.

Há profissionais angolanos a trabalharem em Cuba neste âmbito da cooperação?

Não. O que há são pessoas que estão a estudar diferentes especialidades no nosso país. E a cooperação desportiva? Estamos muito atrasados. Penso que podemos fazer muito mais na cooperação desportiva. É um desafio que temos. Há avanços nos dois países. Por exemplo, Angola está muito avançada ao nível do andebol e Cuba tem bons resultados em várias disciplinas. Temos que tornar esta cooperação mais activa, apesar de já termos feito alguma coisa. Mas ainda é pouca. Penso que é uma área que podemos melhorar.

Durante a visita do vosso primeiro Vice-Presidente falou-se da necessidade de melhorar a cooperação económica. O que é que se vai fazer?

Realmente há pouco intercâmbio comercial. Penso que temos que trabalhar um pouco mais para aumentar a nossa relação comercial. É verdade que o nosso intercâmbio comercial deve aumentar e podemos por exemplo começar pelo petróleo. A Sonangol está a fazer estudos em Cuba para ver se descobre petróleo. E isso poderia ser uma área prometedora. Interessa-nos aprender muito com a Sonangol, porque tem uma grande experiência a nível de perfuração offshore. É uma empresa amiga, com um grande conhecimento de como funciona o sector dos petróleos, área em que nós queremos entrar. Temos alguma experiência de extração de petróleo em Cuba mas não ao nível do que se pode conseguir com a Sonangol. O primeiro Vice-Presidente mostrou-se impressionado com o que viu na base Sonils. E neste sentido podemos ter um apoio grande de como fazer, de know-how. Angola tem um grande desenvolvimento.

Qual a razão histórica da ligação de Cuba aos países africanos que falam português?

Cuba não se juntou apenas aos países que falam português, mas a toda a África. Mas acho que África se juntou primeiro a Cuba. Porque também somos filhos de África a partir dos milhões de escravos africanos que enviaram para a América. Os nossos antepassados foram arrancados de África e levados para os nossos países. E aí contribuíram de maneira decisiva para aquilo que somos hoje. Então, para nós é como um retorno e por isso a nossa relação com África foi sempre a de devolver, a de contribuir, em nome do que significou África para Cuba. É uma relação que não começou agora. Começou desde que os milhões de africanos ajudaram os nossos povos a combater pelas nossas independências, a dar-nos cultura, música, formas de viver, de pensar. Tudo isso faz parte de nós hoje. Estamos a retribuir esta contribuição.

Como embaixadora de Cuba em Angola o que é que ainda quer fazer para melhorar a cooperação entre os dois povos?

Gostaria de trabalhar no tema da história comum. Criar uma comissão histórica, porque depois dos anos de guerra, é o momento para se começar a escrever a história. Penso que seria muito importante colaborarmos neste capítulo. Seria um tema interessante que gostaria de ajudar.

Com o é que Cuba olha para os 40 anos de independência que Angola celebra este ano?

Estamos a comemorar 40 anos de relações diplomáticas também. Esta festa muito grande também vai ser celebrada em Cuba. Embora as nossas relações tenham começado antes da independência com o apoio ao MPLA. Vemos estes quarenta anos com muita alegria e satisfação porque vemos que Angola se está a desenvolver, é um país independente e cada vez mais forte. Com um grande crescimento económico e todos os anos aumenta a sua influência na comunidade internacional, regional e no mundo. Tudo isso nos faz sentir felizes. Felizes por estar com Angola nos momentos mais complicados da sua história, por ver como o país avança com todas as suas dificuldades, contradições, como todos os países, mas um país que cada dia está mais forte, avançando com passos firmes.

"Cuba sempre defendeu o diálogo com os Estados Unidos"

As relações entre Cuba e Estados Unidos estão numa nova fase. A abertura por parte da América satisfaz Cuba?

Cuba sempre defendeu o diálogo com os Estados Unidos. Está é a nossa posição desde o primeiro dia da revolução. Queremos um diálogo com os Estados Unidos como iguais, com um reconhecimento pelo nosso país e pelo nosso desenvolvimento. Estamos satisfeitos com esta possibilidade de termos agora uma nova conjuntura. Vai ser um processo difícil, complicado, mas o importante é que haja um começo. E vemos com satisfação esta posição do governo de Obama, reconhecendo que não vai ser um diálogo fácil. Porque vai ser um diálogo onde há profundas diferenças, não só de posição ou formas, mas também de conteúdo filosófico, ideológico. E pretendemos que este diálogo avance de uma maneira civilizada. Que possamos conversar, apresentar na mesma mesa as nossas diferenças, com o reconhecimento de que somos um país soberano como os Estados Unidos é e donos cada um dos seus destinos.

O embargo decretado contra Cuba ainda se justifica?

Nunca se justificou. A comunidade internacional todos os anos defende o levantamento do embrago por parte dos Estados Unidos. O mais importante a sublinhar é que apesar desta abertura no diálogo entre Cuba e os Estados Unidos o embargo está intacto. O bloqueio contra Cuba continua o mesmo. Consideramos que o embargo deve ser levantado, apesar de ser uma posição do congresso americano não do executivo. Mas o Executivo de Obama tem muitas medidas que pode tomar para ir diminuindo cada vez mais o embargo. Estamos conscientes que o Governo de Obama pode fazer muito mais para pôr fim a este embargo. O governo de Obama também pode trabalhar para tirar Cuba da lista dos países que patrocinam o terrorismo. Isto também é uma aberração. Primeiro, porque é uma lista unilateral. Não concordamos que outro país possa fazer uma lista incluindo o nosso país. Para isso existem as organizações internacionais como as Nações Unidas. Estamos a favor do multilateralismo. Por outro lado, pensamos que é uma questão de justiça que Cuba saia desta lista porque foi incluída pelo apoio que dava aos movimentos de libertação nacional, como alguns movimentos africanos, pelo apoio que supostamente dava a alguns separatistas de Espanha. Mas o governo espanhol já reconheceu que foi a partir de um pedido deles. O governo da Colômbia foi o que mais reconheceu o apoio de Cuba nas conversações com a guerrilha colombiana. Não há nenhuma razão válida entre os argumentos apresentados pelo governo americano para colocar Cuba na lista dos países que apoiam o terrorismo porque não há nenhum acto de terrorismo que Cuba tenha feito contra um governo ou povo do mundo. É uma questão de justiça que se tire Cuba desta lista, o que tem criado muitas dificuldades para o funcionamento do nosso país do ponto de vista quer para, por exemplo, as transferências bancárias e uma série de outras questões. Esta nossa posição é defendida por todo o mundo, porque entendem que não há razões para Cuba estar na lista dos países que apoiam ou patrocinam o terrorismo. Cuba é contra todas as formas de terrorismo. Venha de onde vier e seja por quem for.

Qual é a posição de Cuba em relação aos organismos internacionais, em particular ao Conselho de Segurança da ONU onde apenas cinco países têm o poder de veto e lugar permanente?

Apesar desta inconformidade temos que continuar a trabalhar com os organismos multilaterais. Não podemos deixar de batalhar na arena internacional e devemos utilizar todos os meios ao nosso alcance também nas nossas organizações regionais. Apostamos no fortalecimento das organizações regionais e continuamos a batalhar nos organismos multilaterais, introduzindo os nossos critérios para acabar com acções que promovam a troca de regimes e toda esta realidade no mundo em que hoje vivemos. Estamos inconformados como o actual sistema multilateral. O importante é reforçarmos o multilateralismo, reforçar a Organização das Nações Unidas e o seu sistema.