As primeiras impressões são positivas. As casas têm água canalizada e luz e, sendo de piso térreo [estão implantadas num terreno com uma área de 150 metros quadrados], permitindo a quem o desejar, ampliar a área coberta, que é actualmente de cerca de 40 metros quadrados, repartidos por cozinha, dois quartos e casa de banho.
Principais críticas? A dimensão padrão das novas habitações, nem sempre suficientes para albergar famílias numerosas [apesar de o regulamento Geral de Edificações Urbanas (REGEU) estabelecer regras para se respeitar a dimensão do agregado familiar], a distância, associada ao tempo de demora para chegar e regressar, por exemplo, ao do centro da capital, os custos dessas deslocações.
A estas juntam-se, designadamente questões práticas como a inscrição de filhos nas escolas e o transporte (e a segurança) para quem trabalha por turnos. É que o Zango 2 fica a cerca de 50 quilómetros a Leste de Luanda.
Enquanto a Chicala 2 e o Kilombo ficam na cidade. "As casas são pequenas e estávamos a contar que seriam grandes, mas ainda assim estamos melhor aqui, diferente da Chicala onde não respirávamos em condições", frisou Helga Ponte, acrescentando que "o povo às vezes é ingrato e não sabe reconhecer as coisas boas".
No local encontravam-se ainda operários chineses a dar "os últimos retoques", mas foi possível contabilizar cerca de 350 casas geminadas, equivalente a 700 residências. Embora pequenas, os populares dizem sentir-se bem, pelo alojamento, e acreditam que no Zango estão melhor.
A única desvantagem, asseguram, é o facto da Chicala 2 e o Kilombo estarem mais perto "de quase tudo". "Lá, com 200 kwanzas jantávamos, já aqui vai ser difícil. Estamos distantes de tudo", adiantou uma jovem. Reconheceram que só por terem água canalizada e energia eléctrica instalada nas residências isso é sinónimo de "vantagens e melhorias", uma vez que não existiam na Chicala 2 e no Kilombo.
"Aqui é melhor porque temos água, energia e as ruas estão urbanizadas. Estamos minimamente melhores", contou Gomes.
DISTANTES DO TRABALHO
Um dos constrangimentos mais falado pelos novos moradores em resultado da ida ao Zango é a distância dos postos de trabalho. Alguns moradores disseram que anteriormente acordavam às 06h00 para se deslocarem aos locais de trabalho, maioritariamente localizados n o centro da capital.
Agora, na sequência da transferência para o Zango, argumentam que vão ter de acordar às 04h00 para chegarem perto das 07h00 ao posto de trabalho. "Faltei nos dois primeiros dias desta semana para tratar dos assuntos do realojamento. Amanhã tenho de ir ao trabalho e nem sei a que horas acordar", adiantou Noémia Bernardo. Os trabalhadores em regime de turnos manifestaram também alguma apreensão por eventuais problemas de segurança nos trajectos fora de horas entre o Zango e Luanda e vice-versa. "Trabalho no Morro Bento, e estou no período nocturno. Saio habitualmente entre as 21h00 e as 22h00. Não sei como será daqui para frente", declarou uma antiga moradora da Chicala 2, acrescentando: "Talvez passe a dormir, de vez em quando, em casa de uma amiga na cidade". Todos os contactados pela reportagem do Novo Jornal admitiram poder vir a registar-se também problemas de falta de transporte.
ACESSO ÀS ESCOLAS
O acesso às escolas constitui outra "dor de cabeça" para os encarregados de educação agora transferidos para o Zango 2.
Os desalojados lamentaram que a Comissão Administrativa da Cidade de Luanda (CACL) não tenha acautelado a situação dos menores estudantes quando faltam apenas seis dias para a abertura oficial do ano lectivo 2014, já no próximo dia 31.
"Já reconfirmei as matrículas de dois dos meus filhos na Chicala. Não sei se vou conseguir a transferência deles para uma escola aqui no Zango. Mas vou tentar. Além disso ainda tenho de matricular o meu outro filho", narrou Pedro.
Através de sondagens rápidas que os novos moradores do Zango 2 fizeram aperceberam-se que há escolas no território, mas estão receosos de não conseguir a transferência a tempo. "A minha mãe disse-nos que aqui há escolas e por isso regressou à Chicala para pedir transferência para os meus irmãos", frisou Maura, de 23 anos.
O processo de transferência de habitantes da Chicala e Kilombo para o Zango iniciou-se esta semana depois de a CACL publicar um anúncio no Jornal de Angola com os nomes das pessoas que iriam receber casa no Zango 2 [previamente cadastrados no local onde habitavam até agora].
Mediante essa lista, começaram os trabalhos de desalojamento de 1774 famílias (e consequente destruição das anteriores casas), numa zona da cidade de Luanda que alberga, de acordo com cálculos dos residentes "mais de cinco mil famílias".
O PROCESSO DE DESALOJAMENTO
"O número de moradores dessa zona que a administração publicou no jornal não corresponde ao número real de habitantes daqui.
O nosso coordenador sabe disso", começou por dizer Delcio Black, revoltado por o seu nome não constar da lista. Para entender os contornos da elaboração da lista de moradores a serem desalojados e transferidos para o novo bairro, o Novo Jornal tentou localizar, sem êxito, o coordenador do bairro, o qual, de acordo com moradores do Kilombo, "foi dos primeiros a seguir para a casa nova, no Zango 2. "O próprio coordenador, que deveria ficar aqui com o povo até que todos recebessem casa, já recebeu a respectiva habitação nova e não quer saber de mais nada", disse um outro morador, do grupo dos que não viu o seu nome inscrito no Jornal de Angola.
Moradores que "não tiveram a sorte" de ver os nomes inscritos na lista que saiu no jornal asseguraram terem sido alertados por funcionários do Governo Provincial de Luanda (GPL), no local, para estarem atentos às próximas edições do diário. Até quinta-feira, dia de fecho da presente edição do Novo Jornal, o Jornal de Angola não publicou qualquer outra lista de moradores com direito a mudar-se para o Zango. "Estamos com azar", lamentou Domingas Trindade, ainda com o jornal na mão. Os moradores, sob as ordens de funcionários do GPL e da CACL, retiraram os bens das casas que começaram a ser demolidas na Chicala, a partir das 04:00 da manhã da última segunda-feira.
Bens e pessoas foram então embarcados em camiões e autocarros que os transportaram para a nova morada. Previamente foi-lhes entregue uma ficha de morador pelas autoridades do CACL.
AMBIENTE MILITARIZADO
Com a intenção declarada de prevenirem eventuais confusões sempre propícias de acontecerem neste tipo de operações de deslocação de pessoas, as autoridades fizeram questão de estacionar no local [Chicala 2 e Kilombo] elementos do exército, forças de segurança e fiscais. "Penso que só estão aqui para intimidar caso não aceitemos sair", frisou Bartolomeu.
Diante do excesso de forças militarizadas no bairro, os moradores realçaram não existir motivo para tanto aparato bélico no local. "Nós somos humildes. Não há motivo para tantos polícias e militares aqui. Eles estavam a pensar que o povo do Kilombo iria fazer alguma confusão, conforme aconteceu noutros sítios", alegou Laurindo.
"O importante - acrescentou Queta Zumbo - é que trabalhem bem". Até ao fecho desta edição não foi registado qualquer incidente que obrigasse à intervenção das forças de segurança presentes no local. "Somos pacíficos", rematou Laurindo.
OPORTUNISTAS CONFESSAM
João Cativa, 75 anos, confessou que já teve direito a uma residência cedida pelo Governo Provincial de Luanda, na sequência do desalojamento na zona da Boa-Vista. "Eu já tenho uma casa no Zango 3, mas está lá a minha mulher. Separamo-nos e ela agora vive lá com outro homem", afirmou.
Perante a separação com a ex-parceira, João Cativa assumiu que estava agora no Kilombo, onde ergueu "uma cubata de chapa", para tentar a sua sorte: Que lhe foram atribuída uma nova casa. O ancião assumiu mesmo que foi para o Kilombo porque sabia que "tarde ou cedo" seria retirado dali e lhe dariam mais uma casa.
Indicou mesmo que quer essa casa para vender e regressar ao Bailundo-Huambo, sua terra natal. Alguns moradores, atentos às palavras de João Cativa prometeram- lhe 2500 dólares norte-americanos pela eventual futura ficha que lhe dará direito a uma nova casa. João Cativa nunca lhes respondeu. No Kilombo, a reportagem do Novo Jornal encontrou ainda dois jovens - um de 15 e outro de 18 anos - que asseguraram ter tido "a visão" de erguer duas "cubatas de chapas" nos arredores do bairro, na perspectiva de virem a ser contemplados com casas novas no processo de realojamento no Zango 2.
"Continuamos a viver na Chicala 1 e sabemos como essas coisas funcionam. Por isso pagámos 300 dólares por cada terreno onde metemos as nossas cubatas aqui na zona do Kilombo", relataram. Admitiram que foi a mãe quem lhes deu o dinheiro para pagar os terrenos, e dizem que a mesma tem outros espaços na Chicala 2.
Os dois classificaram o Zango como mato, assegurando que vão arrendar as residências que eventualmente venham a receber porque preferem "ficar na city".
RECÉM-NASCIDO AO RELENTO
Ainda no Kilombo, na passada terça-feira, uma mulher, que acabou de ser mãe no passado dia 10, lamentava-se da demora dos camiões no transporte dos seus bens para a nova casa. "Estou sem forças para aguentar tudo isso. Fomos obrigados a retirar as coisas das antigas casas no início da semana. De ontem [2.ª feira] para hoje [3.ª feira] já dormimos na rua. Pensava que iriamos logo nessa noite.
O parto é recente e acabei por ter de cozinhar na rua, para poder dar comida aos meus filhos", afirmou. Questionada sobre o paradeiro do marido, respondeu que faleceu pouco antes do nascimento do filho que leva nos braços. "Estou sozinha desde a morte do meu marido. Foi graças a alguns vizinhos que têm chatas que consegui retirar as minhas coisas de casa", salientou.
CHATAS-BARCO E CARRINHAS
Devido ao congestionamento na rua principal do Kilombo, e também pela distância até ao local onde pararam os autocarros que transportaram os desalojados, muitos, cujas residências se situavam no fundo do bairro, optaram por alugar as chatas- barcos para fazer o trajecto.
O atraso dos camiões da CACL levou também muitos moradores a alugar viaturas para seguirem directamente para o Zango, sem perda de mais tempo.
