E quando existe o risco de disrupção do fluxo de petróleo de um dos seus maiores produtores para os mercados, então estes reagem como sempre, ao longo das últimas décadas, optam por se prevenir inchando os preços.

E é isso mesmo que está a acontecer porque o Irão, apesar das pesadas sanções norte-americanas e europeias sobre a sua indústria e exportação de petróleo, ainda responde por mais de 3,5 milhões de barris por dia, com alturas a ultrapassar os 4 mbpd.

Não é certo que um ataque ao Irão venha a acontecer nas próximas horas, mas alguns analistas militares admitem que tal cenário é o mais provável, depois de Donald Trump ter ordenado a saída urgente dos norte-americanos do país e de ter dito quer a ajuda aos milhares de combatem o regime nas ruas de Teerão está a caminho.

Essa ajuda está a ser geralmente interpretada como se tratando de um ataque militar com ou sem o apoio concomitante de Israel, que se espera que venha a acontecer quando e se tal ataque tiver lugar.

A acrescentar pólvora a este cenário de incerteza no Médio Oriente, desta feita, como os analistas, entre estes Douglas McGregor, antigo coronel do Exército dos EUA e ex-conselheiro do secretário da Defesa da primeita Administração Trump, apontam como certo, chineses e russos não se vão eximir de ajudar o seu aliado estratégico com apoio técnico (intelligentsia) e militar na resposta que caberá a Teerão dar aos EUA e a Israel.

Este cenário é de tal modo sério que nem sequer o aumento inusitado das reservas norte-americanas na semana passada, normalmente atenuadoras de ganhos, por indiciarem problemas na economia do país, está a conseguir desanimar os mercados.

Independentemente disso, o barril de Brent, que serve de referência maior para as exportações angolanas, estava esta manhã de quarta-feira, 14, perto das 12:10, hora de Luanda, acima dos 66 USD, chegando aos 66,15, mais 1,10 por cento que no fecho da sessão anterior.

Este valor, que traduz uma subida relevante pela 5ª sessão consecutiva, aparece como uma luz na sombria crise económica que Angola atravessa ao passar em alta largamente os 61 USD que o Executivo usou como valor médio de referência anual para a elaboração do seu OGE 2026.

Todavia, ainda com uma dependência tão vincada das exportações de crude, mesmo que a diminuir ano após ano, em Angola, como, de resto, noutras dezenas de países com as mesmas características em todo o mundo, este momento...

... é mais uma razão para não se perder os mercados de vista

O actual cenário internacional tende a manter os preços muito próximo do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos e ás incertezas globais...

Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.