E tudo porque o risco de um ataque dos EUA ao Irão voltou a ocupar boa parte das atenções dos media internacionais depois do Presidente Donald Trump ter retomado a ideia de que um ataque a Teerão não está, afinal, fora da sua agenda.
O tema foi, porém, o mesmo que na quarta-feira e quinta-feira desta semana levaram o barril de Brent a perder quase 5% depois de o mesmo Donald Trump ter dito que deixara de haver razões para um ataque ao Irão, no contexto dos protestos populares dos últimos dias.
A reviravolta desta sexta-feira, 16, que levou a um novo impulso nos mercados petrolíferos, tem como azimute as notícias de alguns media norte-americanos a desmontar aquilo que parece uma narrativa falsa de Trump.
Narrativa essa que, segundo avança The New York Times, passa por manter uma cortina de fumo sobre o tema enquanto os Estados Unidos não recuperam o seu potencial de ataque na região do Golfo Pérsico disperso com as recentes deslocações de meios navais para o Mar das Caraíbas para atacar a Venezuela nos primeiros dias do ano.
Agora que a questão da Venezuela, segundo Trump, foi resolvida, porque Caracas está a ser governada por controlo remoto a partir de Washington após o sequestro do Presidente Maduro, os meios navais estão a ser reposicionados no contexto do ataque iminente ao Irão.
De acordo com diversas fontes citadas pelos media norte-americanos, a caminho do Médio Oriente, ido do Pacífico, está já o porta-aviões USS Abraham Lincoln e os navios de acompanhamento táctico, incluindo submarinos, e ainda, entre outros navios de guerra, o USS Gerald R. Ford, o maior porta-aviões do mundo, que tem estado ao largo da Venezuela.
Esta deslocação de poder de fogo naval pressupõe claramente que os EUA vão aceitar as determinações de Israel sobre a necessidade de um golpe definitivo sobre o Irão, que parece ser o que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, foi dizer a Donald Trump a 29 de Dezembro, quando com ele se encontrou na Florida.
A Reuters recorda mesmo que o barril atingiu esta semana um valor recorde de vários meses graças à erupção dos protestos no Irão e a ameaça de um ataque dos EUA, considerando que Teerão responde por mais de 3,5 milhões de barris por dia dos perto de 103 mbpd que chegam aos mercados.
E no limite, não é apenas o risco destes 3,5 mbpd deixarem de chegar aos mercados, existe ainda a possibilidade de o Irão, na sua resposta a um eventual ataque iraniano, poder fechar o Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico, de onde sai 35% do crude mundial, para o Oceano Índico.
E é neste contexto de incerteza global e expectativa sobre o que fará Donald Trump a seguir, que o barril de Brent, que serve de referência maior às ramas exportadas por Angola, chegou este início de tarde de sexta-feira, 16, perto das 14:15, hora de Luanda, aos 64,50 USD, +1,16% que no fecho da última sessão.
Um valor que serve os interesses nacionais, considerando que o Governo angolano desenhou o seu OGE 2026 usando como valor de referência médio para o ano corrente os 61 USD.
Todavia, ainda com uma dependência tão vincada das exportações de crude, mesmo que a diminuir ano após ano, em Angola, como, de resto, noutras dezenas de países com as mesmas características em todo o mundo, este momento...
... é mais uma razão para não se perder os mercados de vista
O actual cenário internacional tende a manter os preços muito próximo do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos e ás incertezas globais...
Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.

