Esta terça-feira, 28, marca o 4º dia sem que nada expluda no Irão devido a ataques norte-americanos, e também o dia em que Donald Trump foi mais incisivo na ideia de que "há uma nova oportunidade" para que "aconteça algo de importante" nas conversas com os iranianos.
Há analistas que traduzem a actual situação como um novo capítulo da estratégia de Washington de conduzir a sua diplomacia com um bastão numa mão e a caneta na outra, ao mesmo que outros defendem que é "apenas" Trump a ser Trump e a usar a sua palavra para manipular os mercados energéticos em seu benefício enquanto permite aos comandantes militares reabastecer os seus paióis fortemente depauperados de munições de defesa anti-aérea (Patriot e TAHAAD) e de ataque, especialmente os Tomahawk e os JASSM.
Como o ritmo dos últimos meses o demonstra, qualquer análise a este cenário tende a esbarrar no imprevisto e apenas os factos podem permitir interpretar o que está a suceder, mas é inegável que o barril de petróleo, entre sexta-feira, 24, e hoje, caiu quase 15%, para 85 USD.
Uma análise à prova de fogo é difícil desde logo após a coligação israelo-americana ter atacado o Irão em Junho de 2025 sem justificação e de forma inesperada quando Washington e Teerão estavam numa fase de intensas negociações para definir o futuro do programa nuclear iraniano, no que ficou para a história como a "Guerra dos 12 dias", assim baptizada por Donald Trump.
Menos de um ano passado, a 28 de Fevereiro deste ano, a mesma coligação israelo-americana voltou a atacar Teerão, desta feita com consequências que ainda hoje, mesmo depois de cinco meses de guerra devastadora, estão longe de estar inteiramente compreendidos: o assassinato do Supremo Líder do Irão, aiatola Ali Khamenei, e perto de 50 figuras de proa das Forças Armadas e do Governo do país.
Em ambas as circunstâncias, a resposta iraniana não foi menos incisiva, com ataques cáusticos sobre Israel e contra as bases dos EUA nos países árabes do Golfo Pérsico em Junho de 2025, e com os alvos focados nas mesmas bases norte-americanas, acrescentando as da Jordânia e do Iraque.
A esta frente juntou-se a entrada das milícias xiitas do Iraque na guerra bem como a Ansar Allah (Houthis), do Iémen, com ataques concentrados sobre a Arábia Saudita após Riade ter rasgado o acordo de paz com Saná assinado em 2022, ao fim de uma guerra com altos e baixos que durava desde 2014/15.
Se a Guerra dos 12 dias foi breve e os seus efeitos colaterais na economia mundial extinguiram-se dias depois, no presente conflito está longe de ser assim, até porque após ataque inicial, igualmente injustificado, e quando também decorriam negociações sobre o programa nuclear iraniano, a 28 de Fevereiro, seguiram-se seis semanas intensas.
Período esse que acalmou no início de Abril, com um cessar-fogo que aqui e ali foi sendo desrespeitado, dando, todavia, espaço para a assinatura de um Memorando de Entendimento (MdE) em meados de Junho, mas que ao fim de duas semanas estava igualmente morto.
No final da primeira semana de Julho, iranianos e norte-americanos voltaram a puxar a culatra atrás e até à passada sexta-feira, 24, quando Donald Trump acabara de ameaçar o Irão com "o maior ataque de sempre" na noite seguinte, tudo parou, os mísseis deixaram de voar sobre o Golfo Pérsico e o mundo voltou a respirar de alívio.
Problemas inexistentes antes do conflito
Aos factos é preciso juntar que Trump repete exaustivamente que a acção militar dos EUA sobre o Irão visa garantir que este país não adquire bombas nucleares, apesar das autoridades iranianas repetiram há anos que não pretendem seguir esse caminho, havendo mesmo uma ordem religiosa (Fatwa) de dois Líderes Supremos, que o impede.
Mas a ligação directa ao motor deste conflito é feita claramente através dos mercados petrolíferos, porque, como um relógio suíço, sempre que o barril atinge os 100 USD, no caso do Brent, em Washington Trump tira o dedo do gatilho, anuncia que Teerão quer conversar e almeja, "com vigor, um acordo" para parar os ataques norte-americanos.
O Presidente norte-americano tem usado este mecanismo, apesar de as autoridades iranianas o desmentirem uma após outra vez, para manipular com sucesso o preço do crude nos mercados internacionais.
E isso sucede porque, com as eleições intercalares à porta, em Novembro deste ano, e com as sondagens a apontarem para a perda da maioria Republicana no Congresso, Donald Trump, sabendo que os eleitores são extremamente sensíveis à inflação e ao preços dos combustíveis, procura o melhor dos dois mundos: a pressão militar sobre o Irão e o preço da gasolina controlado mantendo o barril de crude abaixo dos 100 USD.
Não chega. Mesmo que esteja a conseguir o melhor desses dois mundos, a vida política de Trump está em areias movediças, porque ao mesmo tempo que todas as sondagens sinalizam a perda das maiorias nas duas câmaras do Congresso, Representantes e Senado, também evidenciam uma crescente, nunca vista mesmo, impopularidade da guerra com o Irão, com 70% dos norte-americanos a quererem que esta pare imediatamente.
O efeito borboleta da política interna
O facto de Donald Trump não ser candidato em 2028, por ter já dois mandatos na Casa Branca, parece estar a alhear o Presidente dos efeitos devastadores da guerra sobre o "seu" Partido Republicano, embora também ele esteja na corda bamba porque a oposição democrata ameaça, repetidamente, com processos de destituição (impeachment) assim que tiver uma maioria nos Representantes, para lhe dar início.
Sob a cabeça de Trump pendem as falhas na condução do caso "Ficheiros Epstein", o maior escândalo de pedofilia internacional de sempre, onde o seu nome é dos mais citados, tendo prometido libertar toda a informação na campanha eleitoral mas depois não cumpriu, ou ainda por não ter respeitado as regras constitucionais de informar o Congresso antes de lançar uma guerra no estrangeiro, no caso a do Irão.
A tudo isto, Esmaeil Baghaei, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, responde negando que tenha sido o Irão a pedir para falar com os americanos, acusando antes Donald Trump de querer sair do caos que criou no Médio Oriente sem saber como fazê-lo com o receio de ser visto como fraco e cobarde.
Há mais a atrapalhar a saída de cena de Trump deste conflito que os EUA não estão a conseguir controlar, no qual fazem agora questão de dizer que tem por objectivo impedir que o Irão obtenha armas nucleares quando foi o mesmo Trump que em 2016 abandonou o acordo nuclear que Washington assinou com Teerão em 2015, na Administração Obama, e que garantia esse efeito, sob vigilância permanente das Nações Unidas.
E ainda quanto à reabertura do Estreito de Ormuz, fechado pelo Irão à navegação das embarcações dos países aliados dos EUA, responsável pelo aumento vigoroso do preço do crude e do gás, por ali passarem diariamente, em tempos normais, 20% do que o mundo consome diariamente destas duas matérias-primas.
O Estreito de Ormuz aperta a saída de soluções
O ridículo desta exigência por parte de Donald Trump é que o Estreito de Ormuz estava aberto à livre circulação sem quaisquer restrições por parte do Irão antes da coligação israelo-americana ter iniciado esta sucessão de guerras no Golfo Pérsico.
E agora, além de Ormuz estar fora de serviço para a navegação global entre os aliados dos EUA e todos aqueles que não têm um acordo firmado para esse propósito com Teerão, também do outro lado da Península Arábica, os Houthis fecharam o Estreito de Bab al-Mandab, cortando o acesso ao Canal do Suez, entre o Mar Vermelho e o Mar Mediterrâneo, e o Oceano Índico.
Com este acto, os Iemenitas, aliados do Irão, não apenas cortaram o trânsito de 12% do comércio global que por ali transita, como fecharam a torneira da exportação de 7 milhões de barris de crude por dia que os sauditas faziam chegar á costa do Mar Vermelho, Porto de Yanbu, através de um oleoduto de 1.200 kms, que atravessa o país deste o Golfo Pérsico.
Este oleoduto permitiu aliviar uma parte do fornecimento de petróleo ao mundo, depois de 20 milhões de barris por dia terem ficado presos no Golfo Pérsico com o fecho de Ormuz, o que pode ter sido, em parte, pelo menos, um dos motivos que levou Trump a tirar o dedo do gatilho, contrariando a vontade do seu amigo e aliado Benjamin Nertanyhau.
A origem do mal
E é aí que emerge outra sucessão de factos cuja recuperação se impõe para perceber este conflito: tanto em Junho de 2025 como a 28 de Fevereiro deste ano, datas das ofensivas militares israelo-americanas sem propósito, razão e claramente ilegais à luz da lei internacional, contra o Irão, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau tinha estado dias antes em Washington em longas conversas com o Presidente dos EUA.
Apesar de Israel estar, aparentemente, fora da linha da frente nesta fase da guerra, em Telavive, diariamente, surgem apelos para que os EUA aumentem a pressão sobre o Irão, tendo mesmo Netanyhau afirmado que basta um pedido de Trump para a máquina de guerra israelita se lançar de novo sobre o Golfo Pérsico.
Como pode ser percebido na evolução da cobertura destas guerras pelos media norte-americanos, este conflito bate de frente contra os interesses dos EUA, que Trump lançou o país contra o Irão a pedido, ou pressão, de Benjamin Netanyhau, 70% dos eleitores estão contra a guerra, e a economia está a sofrer danos evidentes devido aos seus efeitos nos mercados bolsistas e energéticos.
E agora a atenção está focada em perceber o que vai suceder sabendo-se que o primeiro-ministro israelita está a caminho de Washington para de novo se encontrar com Donald Trump, num momento em que em Telavive ganha vigor a frente pró-guerra, com incisivos pedidos do Governo de Netanyhau aos EUA para alargarem a frente de guerra.
Donald Trump, questionado pelos jornalistas a bordo do novo Air Force 1, avião avaliado em 400 milhões USD antes de adaptado às funções Presidenciais, e que lhe foi oferecido pelo Emir do Catar, sobre a influência de Netanyhau sobre a sua governação, garantiu que é ele que toma as decisões sem qualquer relevância para o que o primeiro-ministro israelita pensa.
Porém, os factos mostram o contrário: os EUA estão numa guerra que choca de frente com os seus interesses, mas serve claramente os interesses mostrados pelos governantes israelitas, é justificada com objectivos que não eram obstáculos antes de ter sido lançada em Junho de 2025 e já em Fevereiro deste ano, o caso da reabertura de Ormuz e do programa nuclear iraniano, e tem, como nunca aconteceu, 70% dos norte-americanos a oporem-se-lhe com veemência, além de Israel ter perdido o apoio incondicional e histórico na sociedade dos EUA, como todas as sondagens indicam.










