Há um preço a pagar pelo Reino Unido por estar a fornecer à Ucrânia os drones de longo alcance com que Kiev está a subir a parada na guerra atacando a infra-estrutura energética e logística da Federação Russa em profundidade, avisa Moscovo.
Apesar de admitir que esta nova capacidade ucraniana está a ter um impacto sério na economia, a Rússia tem desvalorizado os efeitos desses ataques na condução da guerra, garantindo que a Operação Militar Especial segue de acordo com os planos.
Porém, os sinais de que estes efeitos são superiores ao que Moscovo assume começam a deixar de permitir ao Kremlin ignorá-los, como aconteceu ainda esta semana com a primeira entrega de um navio de gasolina importada da Índia, situação impensável antes da guerra.
E isso só acontece porque os drones que, segundo Moscovo, chegam a Kiev oriundos de Londres, estão a conseguir deixar "off line" uma boa parte da capacidade de refinação russa, país que é(ra) um grande exportador de refinados até há bem pouco tempo.
Face a este cenário, que pode ser visualizado nas muitas imagens que chegam aos media internacionais com refinarias a arder na Federação Russa, o Kremlin está agora a procurar afinar o tom num tempo verbal mais duro, com a embaixada russa em Londres a deixar uma ameaça directa ao Reino Unido: "Há um preço a pagar pelo fornecimento destes drones a Kiev".
Este recado é acompanhado de um contexto em que a Rússia vê o Reino Unido como factor decisivo no esforço ocidental para escalar o conflito ao garantir os drones e os dados para o seu guiamento em território russo profundo.
Os media russos estão a noticiar que esta reacção surge depois de o jornal britânico Sunday Times ter avançado que Londres está há meses a entregar os drones com que Kiev está a incendiar o território russo a centenas de quilómetros da fronteira, apontando a notícia ainda que os alvos principais destes aparelhos têm sido as refinarias russas.
"Ao agir desta forma, o Reino Unido actua como cúmplice e co-autor dos sangrentos ataques terroristas ucranianos na Federação Russa", avisa a embaixada russa, acrescentando que "Londres vai ter de responder por estes actos".
Naquilo que é claramente uma tentativa russa de levar para os países da Europa Ocidental a tensão da guerra, na mesma mensagem é ainda dito que "quanto maior for o envolvimento no conflito e maior for o apoio a Kiev, maior será o preço a pagar".
Este momento já tinha sido visto logo após a invasão russa, a 24 de Fevereiro de 2022, quando Kiev e Moscovo estavam a negociar um acordo de paz para não prolongar o conflito e o então primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, irrompeu por Kiev obrigando o Presidente Volodymyr Zelensky a abandonar as negociações que decorriam em Istambul.
Nessa altura, Johnson, em nome da NATO, prometeu a Zelensky "todo o apoio" em armas e dinheiro "até onde for(fosse) preciso" e uma auto-estrada aberta para a entrada da Ucrânia na NATO e um processo extraordinário de adesão acelerada à União Europeia, o que fez em nome da Comissão Europeia, como pouco depois de percebeu.
Isso, quando a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, veio sublinhar as palavras de Boris Johnson, acrescentando ao apoio "ilimitado e até onde for preciso" a ideia de que Kiev contaria com Bruxelas para "levar a Rússia a ajoelhar-se no campo de batalha".
Nessa altura, logo após Zelensky rasgar o "draft" do acordo para acabar com a guerra, o Kremlin disse igualmente que os países da NATO iriam ter de ser responsabilizados pela destruição do processo que deveria levar ao fim do conflito.
Na primeira reacção a esta ameaça de Moscovo, segundo The Guardian, um porta voz do Ministro da Defesa veio já garantir que "os britânicos estão lado a lado com os ucranianos" e "empenhados em fornecer a Kiev o equipamento que precisarem para se defenderem contra a invasão ilegal de Putin".
"Os russos não devem ter nenhuma dúvida sobre a forma resoluta como este Governo se coloca contra a agressão russa na Ucrânia e contra o Reino Unido e os seus aliados", avisa o porta-voz da Defesa citado pelo jornal The Guardian.
Apesar do nevoeiro mediático que cobre a verdade na guerra, a Rússia está à beira de conseguir o seu objectivo inicial, que era a tomada das regiões de Lugansk, que foi conseguido em 2024, e Donetsk, a outra região do Donbass, que ainda tem duas cidades importantes sob domínio ucraniano mas cercadas na totalidade ou parcialmente, Kramatorsk e Slaviansk, pelas forças russas.
Além disso, os russos deixaram de ter oposição dos sistemas anti-aéreos ucranianos, especialmente os Patriot americanos, para os seus mísseis e todos os objectivos definidos como alvo são atingidos, em todo o território ucraniano, como o próprio Volodymyr Zelensky admitiu em entrevista recente à CNN.
Apesar do sucesso mediático dos ataques em profundidade no território russo, ou na sua frota comercial de navios, incluindo petroleiros, no Mar Negro e no Mar de Azov, Moscovo tem vindo a responder com o bloqueio aos portos ucranianos, isolando vastas regiões com a destruição de pontes ou logística de combustíveis...
O que levou recentemente Zelensky a avançar com uma, mais uma, proposta de cessar-fogo parcial, unicamente aéreo, ao mesmo tempo que anunciava outro plano para vergar a Rússia e obrigar Putin a aceitar negociar nos termos ucranianos.
Só que esse plano foi claramente terraplanado por Washington e pelos seus aliados da NATO, porque consistia em levar os EUA a entregar a Kiev 5% a 10% dos sistemas Patriot PAC3 existentes nos stocks norte-americanos.
Este pedido foi visto como estranho pela generalidade dos analistas porque foi anunciado quando os media internacionais estavam, e estão, inundados de notícias sobre a depauperação dos arsenais deste tipo de armamento, como o Presidente Donald Trump admitiu, devido ao seu uso intensivo tanto na guerra da Ucrânia como do Irão.










