Kiev foi a última paragem do mais recente périplo de Jared Kushner e Steve Witkoff, os enviados do Presidente norte-americana à Rússia e à Ucrânia para uma derradeira tentativa de acabar com a guerra antes das eleições intercalares de Novembro nos EUA.
Antes de deixarem a capital ucraniana no Domingo, 06, onde nunca tinham estado, o empresário e velho amigo de Donald Trump, Steve Witkoff, e o seu genro, Jared Kushner, estiveram, no Sábado, em Moscovo, para um encontro com o Presidente russo, Vladimir Putin.
Que, sabe-se agora, segunda-feira, 07, a reunião no Kremlin correu como se esperava... ficou tudo na mesma, porque os americanos embateram na dura realidade que é o Presidente russo não ter mexido uma vírgula das suas bem conhecidas condições para a paz.
Foi em Julho de 2024 que num discurso, ao qual regressa sempre que a oportunidade o justifica, que Putin avançou com as condições da Federação Russa para tirar o dedo do gatilho no conflito com a Ucrânia e que também agora repetiu a Witkoff e Kushner no Kremlin.
Em síntese era e são estas: A neutralidade da Ucrânia fora da NATO, o começo de conversações com os EUA e os europeus para um plano alargado de segurança para a Europa, aceitar as cinco regiões anexadas por Moscovo e o reconhecimento da língua, religião e cultura por parte de Kiev para o que restar da Ucrânia pós-conflito.
Mais difícil, lendo os media ocidentais pró-Kiev e os russos, é saber o que tinham em mente os enviados de Trump, mas uma das possibilidades mais referidas é que em Washington se tivesse concluído que a Rússia está, como surge espelhado nos media ocidentais de forma abundante, à beira do colapso económico e militar.
E que esse cenário, com Putin a precisar de um alívio tanto militar como económico, estivesse pelo menos disponível para um cessar-fogo que pudesse manter-se até Novembro, quando ocorrem as eleições intercalares nos EUA permitindo a Donald Trump "vender" a ideia aos seus eleitores de que acabou com mais uma guerra no mundo.
É que as sondagens para as eleições de meio termo nos EUA são catastróficas para Trump e para o seu Partido Republicano, e como com o Irão, ao que tudo indica, ver o fim do conflito é ainda mais difícil, a Casa Branca apostou no "cavalo" do leste europeu.
Todavia, e nesta perspectiva, Putin poderia ceder devido a uma alegada crise económica e dificuldades na frente de batalha, que os russos não apenas negam como repetem, sendo disso o melhor exemplo o próprio Putin, que vão alcançar os seus objectivos pela via militar se for necessário, mesmo que prefiram a via negocial como prioridade.
Mas em Kiev, a generalidade dos analistas, tanto nos media ocidentais como entre aqueles de maior inclinação pró-Moscovo, havia uma percepção de que as, reconhecidas pelo próprio Presidente Zelensky, dificuldades inerentes ao conflito, poderia ser a "rampa" de saída para este conflito através de cedências em Kiev.
Mas não foi assim. E como o título do britânico The Guardian espelha com clareza, Witkoff e Kushner saíram de Kiev de mãos a abanar, porque, apesar de reconhecer estar sem defesas anti-aéreas para resistir aos mísseis russos, sem dinheiro para manter o Estado a funcionar e com a frente de batalha a desmoronar-se, as primeiras palavras de Zelensky após a reunião com a dupla americana foram: "a guerra vai continuar por alguns meses, pelo menos".
É que se Putin deu a conhecer a inamovível lista de condições para a paz nesta guerra que começou em Fevereiro de 2022, em Julho de 2024, em Kiev Zelensky, apesar de menos sólido, com avanços e recuos, incluindo ter já dito ser possível a perda de território, no essencial não mudou a sua retórica.
E mantém que é, em síntese, para expulsar "todos os russos de todos os cantos da Ucrânia", especialmente das cinco regiões anexadas desde 2014 (Crimeia) e em 2022 (Lugansk, Donetsk - Donbass -, Kherson e Zaporizhia), exige que Moscovo pague a reconstrução no pós-guerra e quer "os dirigentes russos julgados num tribunal internacional especial.
Perante esta realidade, que o próprio Donald Trump, mesmo antes da viagem dos seus enviados, tinha dito que se trata de um conflito muito difícil de resolver, ao contrário do que ele pensava no início, "porque Zelensky e Putin se odeiam", a não ser que tenham ficado agendadas novas iniciativas, o resultado terá sido nulo.
O que, sendo assim, a questão é o que pode Trump fazer se quiser mesmo meter no seu "excel" das guerras eliminadas, que diz serem já nove, esta no leste europeu?
E o que há a fazer perante a evidência de que a Rússia, apesar da propaganda nos media ocidentais, não está nem à beira do colapso económico - FMI e Banco Mundial dizem-no nos seus relatórios anuais - nem num beco sem saída militar, porque os próprios media ucranianos, como o Deep State, admitem avanços russos na frente e Zelensky reconhece estar sem interceptores para todos os mísseis e drones russos que dia após dia se abatem sobre a Ucrânia?
A resposta, mesmo que esta seja apenas partilhada entre os analistas mais inclinados para Moscovo e entre os observadores independentes mais competentes, como John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, ou Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, é que "mais cedo ou mais tarde, a Rússia vai ganhar a guerra e conseguir os seus objectivos pela via militar e nada nem ninguém pode alterar este curso porque se trata da maior potência nuclear do mundo".
Perante este cenário, dificilmente visto como irreal, como Trump e a sua equipa mais próxima dá mostras de começar a concordar, desde logo pela forma como se está a afastar de Kiev e dos seus aliados europeus, a única via é, como defende Ray Mcgovern, antigo analista da CIA, "os EUA darem o passo que fala no afastamento de Kiev".
Ou seja, depois de deixarem de entregar rios de dinheiro a Kiev, fornecer armas de forma ilimitada, como acontecia com a Administração Biden até finais de 2024, Washington deve agora "tirar a Zelensky aquilo que só os EUA podem fornecer e os europeus não têm como substituir na plenitude: a intelligentsia que permite aos ucranianos atacar a Rússia em profundidade".
O que McGovern diz é que sem os dados recolhidos pela extensa rede norte-americana, incluindo de satélites únicos, fornecidos a Kiev pela CIA e pelo Pentagono para guiamento dos seus drones e mísseis para os alvos na profundidade russa, por vezes até 2500 kms, a Ucrânia deixa de ter a última ferramenta com que ainda consegue provocar danos no Kremlin.
E se depois, mesmo após ter deixado de fornecer directamente armas a Kiev, proibir que os seus mísseis Patriot PAC 3 de defesa anti-aérea, cheguem à Ucrânia através dos europeus, então a Volodymyr Zelensky e aos seus aliados europeus só restará aceitar negociar com Moscovo as condições para o fim deste conflito.
E as condições de Putin para acabar com aquela que já é a mais violenta, letal e devastadora guerra na Europa desde a II Guerra Mundial em 1945, são conhecidas desde Julho de 2024.








