Esta nova tentativa do Presidente norte-americano, embora seja escassa a informação sobre o conteúdo das reuniões que os seus enviados mantiveram em Moscovo com Vladimir Putin, e em Kiev, como Volodymyr Zelensky, parece mostrar uma Casa Branca mais inclinada a exigir cedências mais pesadas ao ucraniano.

É que, mesmo antes da conversa com Putin, Trump deve ter sabido que entre os deputados ucranianos se instalou uma evidente descrença por cima das expectativas de que os americanos pudessem obrigar o Kremlin a ceder e não os ucranianos.

Disso exemplo são as declarações da deputada ucraniana Anna Skorokhod, do Partido do Futuro, que apoia a resistência militar contra os russos mas não o partido do Presidente Zelensky, onde esta diz, oficiosamente que os enviados de Donald Trump pediram aos ucranianos que cedam territórios a Moscovo e aceitem alterações constitucionais como o Kremlin exige.

Apesar deste destapar do véu sobre as reuniões de Steve Witkoff e Jared Kushner com Volodymyr Zelensky, Donald Trump e Vladimir Putin centraram, segundo o Kremlin divulgou, a sua conversa de quase hora e meia na procura de uma forma que permita acabar com o conflito que já dura há mais de quatro anos e meio.

Yury Ushakov, conselheiro para política internacional de Putin, conasiderou, citado pelas agências, que se tratou de uma "conversa positiva" e focada no essencial, que é resolver o problema do conflito, ficando desde já claro que é vontade de ambos manter o diálogo, sendo que Putin agradeceu os esforços da mediação norte-americana.

Uma das frases mais relevantes do desenho que Ushakov fez desta conversa surgiu quando este anunciou que Trump disse ao seu homólogo russo que o fim do conflito na Ucrânia é fundamental para a normalização das relações entre Washington e Moscovo, algo que o Kremlin já disse desejar.

Putin, ainda segundo Yury Ushakov, mostrou o seu agrado a Trump pela perspectiva da construção de uma "relação construtiva entre duas grandes potências" globais, dando ainda garantias ao norte-americano de que Moscovo não tem "intenções hostis" para com os aliados europeus dos EUA.

E na mesma senda, Putin aproveitou para desmontar "o mito espalhado pelos media ocidentais" de que a Rússia representa "qualquer ameaça para a Europa Ocidental", sublinhando que esse mesmo mito visa apenas justificar o apoio ilimitado aos ucranianos e o aumento na despesa com a Defesa na União Europeia.

Ushakov disse também a Trump que, porém, se não acontecer uma solução negociada, a Rússia perseguirá os seus objectivos pela via militar, embora ambos tenham concordado em voltar a falar sempre que se revelar útil.

Entretanto, como se fosse uma legenda para esta conversa amigável entre Trump e Putin, a deputada ucraniana do Partido do Futuro, um dos grandes partidos do país, Anna Skorokhod, veio lamentar publicamente que as propostas entregues por Witkoff e Kushner a Zelensky são "ainda piores" que as que eram conhecidas anteriormente.

Anna Skorokhod disse aos jornalistas, sublinhando que se trata de informações oficiosas, que a dupla de enviados norte-americanos pretende que os ucranianos aceitem ceder territórios aos russos e aprovem alterações constitucionais que encaixem nas exigências de Moscovo.

Alterações essa à Constituição que, embora não as tenha explanado, só podem ser as que são relevantes para a aceitação das cedências territoriais e as que se impõem no caso de a Ucrânia retomar a sua condição de país neutral, fora da NATO, ou aceitar que a língua russa seja "oficial" no país, limpando ainda a Lei Fundamental das restrições à cultura e à religião russas.

A este cenário, daquilo que se sabe a partir dos media internacionais que cobriram a visita de Witkoff e Kushener a Kiev, é que Zelensky voltou a pedir que estes convençam Trump a enviar mais armas para Kiev de forma a rechaçar os ataques balísticos e drones russos.

Para isso, Zelensky precisa urgentemente de centenas de mísseis interceptores Patriot PAC 3, os mais avançados, que os EUA não dispõem em quantidades que lhes permita corresponder aos pedidos do Presidente ucranianos, mas também não é claro que Donald Trump esteja inclinado a fazê-lo mesmo que os tenha em armazém.

Outra questão é se os países europeus vão fornecer estas armas a Kiev dos seus próprios stocks já escassos, embora mesmo essa entrega careça de autorização de Washington, e essa pode ser a ferramenta mais eficaz para Trump pressionar Zelensky a ceder aos russos.

Já a sua principal ferramenta para pressionar Putin é claramente económica, porque a Rússia tem perdido não apenas mercados de exportação como uma redução de matérias-primas e refinados da energia fóssil para exportar devido aos ataques ucranianos cada vez mais eficazes em cada vez mais em profundidade territorial...

Só não se sabe em que é que Trump e a sua equipa entendem que o Kremlim pode ceder de forma a dar o mínimo exigido por Zelensky para se encontrar uma saída para aquele que já é o mais longo, letal e devastador conflito na Europa desde a II Guerra Mundial.