Conhecido no início da sua carreira como Dollar Brand, Ibrahim fundou os Jazz Epistles nos anos 50, um coletivo pioneiro que desafiou as imposições raciais da época. A sua genialidade chamou a atenção de Duke Ellington, que o projetou para o mercado internacional, mas foi a sua vivência no exílio, iniciado em 1962, que consolidou o seu papel como embaixador cultural da causa anti-apartheid.

Depois do terrível massacre de Sharpeville em 1960, em que a polícia agrediu com rajadas de metralhadora uma multidão pacífica que reivindicava a livre circulação, criticando com veemência a famosa "lei do passe", que obrigava os negros a terem uma caderneta onde se definia os locais por onde podiam circular, vários grupos- negros, brancos e mestiços- começaram a desafiar as leis desumanas e violentas do apartheid.

O Jazz nessa altura já simbolizava a resistência, e constituía uma atitude militante, anticolonial e pan-africana. O governo racista fechou muitos clubes, locais de dança e convívio, e os músicos começaram a ser perseguidos pela polícia racista.

Eram tempos muito difíceis na África do Sul. E começam os dolorosos exílios. Em 1962, com a prisão de Nelson Mandela e a proibição do ANC, Abdullah Ibrahim e a sua companheira, a cantora Satima Bea Benjamim, deixaram o país, seguidos pelos restantes elementos da sua banda e conseguem um contrato por três anos no Club Africana em Zurique, na Suíça.

Em 1965 Abdullah e Satima mudaram-se para Nova Iorque. É nos "States" que inicia uma intensa actividade musical e política: toca no inesquecível Newport Jazz Festival, no emblemático Carnegie Hall, o pianista sul-africano substitui Duke Ellington como líder da orquestra em cinco concertos. Depois realiza uma tournée integrado no quarteto do genial baterista Elvin Jones. Frequenta a prestigiada Juliard School of Music (onde estudaram Miles e Monk!). Durante a sua permanência nos States tocou com músicos que ocupavam lugares cimeiros na cena jazzy: Don Cherry, Ornette Coleman, John Coltrane, Pharaoh Sanders, Cecil Taylor e Archie Shepp.

Quem não daria este mundo e o outro para incluir estes músicos no seu currículo existencial???

A sua música - uma fusão única de Cape Jazz, gospel, folclore tradicional africano dos townships (mbaqanga e jive) e a sofisticação harmónica do Jazz norte-americano (em 1974 tocou e gravou - encontrou na sua composição épica "Mannenberg- "Is where it"s happening", que se tornou um verdadeiro hino de libertação para o povo sul-africano). Regressou à sua terra natal na década de 90 a convite de Nelson Mandela, para quem actuou na cerimónia de tomada de posse presidencial em 1994. Na altura, Mandela descreveu-o com reverência, afirmando: "Bach, Beethoven, nós temos melhor!". Educador incansável e figura de rara resiliência, Ibrahim deixa um legado que vai muito além de sua extensa discografia: ele personificou a alma, as dores e as vitórias do continente africano. A sua partida deixa um vazio imensurável, mas a sua música e o seu compromisso inabalável com a liberdade continuarão a ecoar eternamente na história da música e da humanidade. n

So long, soul brother Abdullah