O meu falecido pai, Tavares Hungulu Jamba, teve grandes amigos, como o tio Tertuliano Kapamba, Lourenço Chinyangwa, Benjamim Lewanika, Daniel Kasoma. Este último, agora com quase noventa anos e a viver no Chiumbo, foi quem delineou como os Amões chegam a ser nossos parentes.

No triângulo Huambo-Katchiungo-Bailundo, chegamos todos a ser parentes.

O Segunda Amões, empresário, é alguém com quem tive muitas conversas - sobretudo na África do Sul, onde ele se instalou há vinte e tal anos. É membro do MPLA, e até se formou na Rússia; eu não sou - mas havia sempre algo mais importante que nos unia: as nossas origens.

Uma das coisas que sempre admirei no Segunda é a constante preocupação de como o mundo de onde viemos se poderia desenvolver.

Sou ligeiramente mais velho dele; porém, quando me falava da sua vida, havia muito com que eu me identificava. Num certo momento, nos anos 70, a família

Amões instalou-se no bairro Kalilongue do Huambo; o irmão mais velho, o Valentim Amões, que faleceu em 2008, trabalhava na Ulisses, uma fábrica de bicicletas.

Nas perturbações da guerra, um outro irmão, o Faustino, abriu uma alfaiataria e uma loja no Kuando Kubango. O pequeno Segunda passou a ser encarregado desta alfaiataria, ainda muito jovem. Contou-me que precisava de ajuda para dar um arranque para a motorizada porque era muito pequeno.

Como o Segunda, sempre tive muito fascínio pelas nossas origens. Quando, em Joanesburgo, aparecia um mais velho, eu fazia questão de o entrevistar, e o Segunda gravava. Assim começou o nosso projecto ad hoc sobre a história do Planalto Central.

A última vez que estive em Angola, passei quase dois meses a conversar com os mais velhos sobre o nosso passado.

A aldeia dos meus aranhões é Manico, que fica quase a uma hora a pé da Camela, que é a aldeia dos Amões. Só que a Camela já não é aldeia; temos aí uma autêntica vila, com casas melhores do que em certas partes dos Estados Unidos. A Camela, que fica entre o Bailundo e Katchiungo, tem uma escola, uma sala enorme para concertos, duas igrejas impressionantes para Católicos e Evangélicos e um grande hospital.

É que o Segunda Amões decidiu usar os seus recursos para criar uma cidade invejável. Quando estive no Huambo passei muito tempo na Camela. Nem todos os aldeões da extensa família dos Camelas estavam confortáveis com esse desenvolvimento: os tios casa e uma latrina lá no fundo tinham algumas dificuldades em entender as novas instalações sanitárias.

Uma tarde, na Camela, o Segunda apareceu com um livro com fotos de uma igreja no Brasil. Os tios foram olhando as fotos com profunda reverência. Ele disse que uma daquelas igrejas poderia ser construída na Camela. Quase ninguém acreditou. Então ele passou quase uma hora a transmitir aos seus parentes a visão de um tal edifício.

Num domingo, numa das igrejas da Camela, o Segunda levantou-se para falar sobre formas como a Camela poderia progredir. Havia uma cooperativa com charrua, e quem quisesse cultivar tinha que contactar os mais velhos.

Para os jovens, esta era a oportunidade de aprender um ofício. Um líder cria uma visão, mobiliza os interessados, se for possível organiza os meios, e vai encorajando o pessoal.

Na Camela, havia também um curral para bois construído por brasileiros; eu só tinha visto algo assim fascinante na América Latina. Os trabalhos na nova Camela tinham, também, resultado numa daquelas lagunas que só aparecem em sonhos lindíssimos.

Lá estávamos, eu, o Segunda e os aldeões da Camela. Lembrei-me, então, de uma vez, na África do Sul, numa das empresas do Segunda, ter entrado acidentalmente numa das reuniões que ele estava a ter com uns bancários. De um lado da mesa havia um grupo de homens brancos, todos de fato, com um montante de folhas de cálculos; do outro lado da mesa, sozinho, estava o Segunda, sem sequer um bloco de notas. Cumprimentou-me em Umbundu.

Os senhores estavam completamente impressionados por este filho da Camela. Claro que não sabiam que tinham perante eles um engenheiro que vem jogando xadrez desde pequeno.

Estou a escrever isto aqui, em Jacksonville, Florida. O estado de Florida foi praticamente criado por empresários, o mais notável é Henry Flagler, que fez a sua fortuna com o Standard Oil no século dezanove. Depois usou os recursos para construir cidades ao longo da costa oriental dos Estados Unidos. Foi um homem com visão - mas também muito humano. Os negros que ajudaram na construção do caminho-de-ferro ao longo da costa não só eram bem tratados mas passaram a possuir terras graças a Flagler.

Vejo no meu amigo Segunda, o filho da Camela, um visionário, nos moldes do Flagler. Dentro de semanas estarei de regresso para o planalto para ver o progresso da Camela, continuar o projecto da história do Planalto. Ah, este amigo também não pára de insistir que tenho que perder quilos e ir sempre ao ginásio. O Segunda é fininho e mantém-se sempre em forma. A próxima vez que estiver em Angola terei mesmo que o acompanhar numa corrida de velocidade na marginal de Luanda. Estou-me a inspirar no Ussain Bolt!