É aqui que o desporto ganha outra dimensão. Deixa de ser apenas jogo, competição ou espectáculo, para se transformar numa linguagem silenciosa de disciplina, pertença e esperança. Um campo pode ser mais do que um campo: pode ser abrigo, escola e horizonte.
Ao longo dos anos, Angola aprendeu a celebrar vitórias, sobretudo no basquetebol, onde tantas vezes nos reconhecemos como nação. Mas há uma outra frente, menos visível, onde o verdadeiro jogo acontece todos os dias: o da inclusão, o da formação, o da construção de vidas em contextos exigentes. É nesse espaço que vivem as "formiguinhas".
No Cazenga, entre ruas que conhecem tanto de sacrifício quanto de resistência, o Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga foi crescendo devagar, como crescem as coisas que têm raiz. Há mais de duas décadas que ali se semeia algo que não cabe apenas em tabelas ou estatísticas. Ainda assim, os números dizem muito: cerca de 350 crianças e jovens, do Mini Basket às seniores femininas, encontram ali mais do que treino, encontram direção.
Mas a verdadeira medida deste projecto não está apenas nos indicadores. Está nos gestos pequenos e repetidos: no treino que começa a horas, no incentivo para não abandonar a escola, no abraço depois de uma derrota, no sorriso tímido de quem descobre que é capaz.
As formiguinhas não fazem barulho. Não chegam com promessas grandiosas nem com recursos ilimitados. Trabalham. Persistem. Constroem. E, nessa construção silenciosa, vão desenhando um modelo , um modo de estar que liga o desporto à educação, a disciplina à dignidade, o colectivo ao futuro.
É um modelo que nasce da comunidade e regressa a ela. Que valoriza o feminino, que cria pontes entre famílias, escolas, instituições e parceiros. Um modelo que nos lembra que o desenvolvimento não se impõe de cima para baixo , constrói-se lado a lado.
Num tempo em que tanto se fala de responsabilidade social, talvez seja importante escutar estes espaços onde o impacto não é discurso, é prática diária. Investir em projectos como este não é um gesto de caridade: é um acto de inteligência colectiva. É apostar na estabilidade, na coesão, no capital humano que amanhã sustentará o país.
Mas nenhuma formiga constrói sozinha um formigueiro.
Para que experiências como esta cresçam e se consolidem, é preciso mais do que boa vontade: é necessária articulação com políticas públicas, mecanismos de apoio, reconhecimento institucional. É preciso olhar para estes clubes não como iniciativas marginais, mas como parceiros estratégicos no desenvolvimento nacional.
Porque, no fundo, o futuro do desporto angolano, e talvez o futuro de Angola, não se decide apenas nos grandes estádios ou nas competições internacionais. Decide-se, sobretudo, nos bairros, nos campos improvisados, nos treinos diários onde jovens encontram rumo.
Resta-nos, enquanto sociedade, aprender a reconhecer o valor do que cresce em silêncio.
Porque investir na juventude nunca foi uma opção. É uma urgência. E o desporto, quando vivido assim, com verdade, com propósito, transforma-se numa das mais belas formas de construir o amanhã.n *Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga
Lei em campo: A experiência viva das formiguinhas
Num país jovem como Angola, o futuro não é uma ideia distante, é um rosto concreto, múltiplo, inquieto. Está nos bairros, nas ruas, nos sonhos ainda por escrever. Pensar o futuro, entre nós, é necessariamente pensar a juventude. E pensar a juventude não se faz apenas com discursos bem-intencionados; faz-se com presença, com instrumentos reais, com caminhos abertos onde antes havia apenas incerteza.

