Desta vez, os manifestantes não saíram à rua para protestar contra as más políticas governativas, o despesismo ou a corrupção endémica que gangrena o tecido económico e social do País; tampouco para exigir empregos ou melhores condições de vida face à alta dos preços da cesta básica.
O motivo da manifestação, segundo os seus promotores, tinha a ver com a defesa dos direitos das mulheres e meninas que têm sido vítimas da violência física, sexual e psicológica, em geral, e, em particular, exprimir os seus sentimentos de repúdio contra a violência física e sexual exercida contra uma menor, de 15 anos, ocorrida há dias, em Luanda, mais concretamente no município de Viana.
O triste episódio aconteceu durante o período da quadra festiva, quando a vítima, depois de espancada, foi obrigada a satisfazer os caprichos sexuais de dois indivíduos, cujas identidades continuam até agora desconhecidas.
As imagens desse nefando acto foram amplamente divulgadas nas redes sociais, tendo causado uma forte indignação no seio da opinião pública.
O que ficou conhecido como o "caso Belma"- nome da menor sexualmente abusada - terá sido a gota que fez transbordar um copo cheio de raivas surdas contra a violência sexual de mulheres e crianças, cujos números têm crescido de forma preocupante, nestes últimos tempos.
Diariamente, há relatos nos órgãos de imprensa e nas redes sociais de vários casos de violência sexual, sobretudo de crianças, muitos dos quais têm ocorrido no seio familiar, sendo os autores pessoas próximas às vítimas.
É crença quase generalidade de que os números de violações divulgados no espaço público estão longe de espelhar a realidade, tendo em conta que vários casos de violência sexual contra menores e crianças não chegam ao conhecimento dos órgãos policiais devido, sobretudo, ao medo das lesadas de denunciarem os seus algozes ou como resultado de uma espécie de "pacto de silêncio" no seio das famílias.
Segundo os organizadores, a manifestação foi também convocada na esteira do pronunciamento feito, em Agosto de 2024, pela Primeira-Dama da República, no qual Ana Dias Lourenço pedia uma punição severa dos violadores sexuais, sobretudo de crianças.
Depois daquele episódio comovente em que a esposa do PR apareceu diante das câmaras das TV, com a voz embargada e incapaz de reprimir as lágrimas que lhe corriam rosto abaixo, esperava-se uma maior sensibilidade por parte das autoridades administrativas e policiais. Mas, infelizmente, não foi isso que aconteceu, pelo que assistimos a um espectáculo de violência gratuita.
Os organizadores da marcha tiveram como primeiro obstáculo o Governo Provincial de Luanda (GPL), que se recusou, sem uma justificação consistente, a receber a carta em que se manifesta o desejo de realizar o acto público em prol das vítimas da violência física e sexual.
Apesar de a lei num dos seus artigos dispor de que as manifestações não carecem de autorização, apenas de comunicação prévia, o facto é que o GPL não recepcionou a referida carta, impedindo, deste modo, o exercício de um direito consagrado na CRA.
Foi com o pretexto de que a manifestação não sido "autorizada" que os agentes policiais, no passado dia 3 de Janeiro, procederam à detenção de alguns activistas e de um jornalista que se aprestava a cobrir a marcha, que tinha como ponto de partida o mercado do S. Paulo e de chegada o largo das Heroínas.
Para além do jornalista detido, soube-se que dois outros colegas seus viram os equipamentos de trabalho confiscados, dentre os quais telemóveis e um drone que estava a ser usado para a recolha de imagens.
Frustrada a primeira tentativa de manifestação, os activistas comunicaram às entidades administrativas e policiais que sairiam à rua no sábado seguinte, tendo, inclusive, indicado o trajecto da marcha, com o início da concentração no mercado do S. Paulo.
Postos no terreno, estes seriam novamente impedidos de marchar, tendo a Polícia alegado que a marcha deveria iniciar no largo do Cemitério da Santa Ana e não no S. Paulo.
Alegaram os activistas que a escolha deste último lugar se deveu ao simbolismo que o mesmo representava por concentrar um número significativo de mulheres vendedoras, ao contrário do largo do Cemitério de Santa Ana.
No decurso da manifestação chamou a atenção o facto de as detenções dos manifestantes terem sido efectuadas por policiais à paisana, num espaço público em que os agentes de autoridades deveriam ser facilmente identificáveis pela farda, assim como pelo seu NIP (Número de Identificação Pessoal).
O recurso a agentes descaracterizados, ou seja, à paisana para deter e colocar algemas em manifestantes, pode dar azo às especulações segundo as quais os Kaenches que, num passado recente, brutalizavam os manifestantes teriam agido com a suposta conivência da Polícia ou, no mínimo, sob o seu olhar silencioso, já que esta se mantinha indiferente diante de tais agressões.
Quem já se esqueceu da vil e cobarde agressão de que foi vítima o economista Filomeno Vieira Lopes, um dos responsáveis do Bloco Democrático (BD), feita por elementos não identificados, vulgos Kaenches, no Largo da Independência?
É compreensível e pacífico que a Polícia infiltre elementos descaracterizados nas manifestações para a obtenção de informações sobre eventuais elementos perturbadores da ordem pública, mas não devem ser esses a efectuar as detenções, sob pena de serem confundidos com os vulgos Kaenches ou brutamontes ao serviço da corporação.
Se, em Luanda, a Polícia recorreu a elementos à paisana, em Benguela, ela tolerou ou, por outra, permitiu que membros afectos à JMPLA se "infiltrassem" numa marcha em que os seus organizadores pretendiam apartidária, sem símbolos partidários.
Ficou, uma vez mais, provado que a nossa Polícia, que diz ser republicana, tem sérias dificuldades em lidar com as manifestações feitas por outros entes que não estejam ligados às esferas do partido no poder.