Para permitir a recolha da bagagem, foi colocado em funcionamento o tapete rolante durante aproximadamente oito minutos. Depois de recolhermos as malas, fomos surpreendidos por uma segunda situação: os funcionários aduaneiros da Administração Geral Tributária (AGT) determinaram que a bagagem passasse pelo scanner, tal como o faziam quando o desembarcavam os passageiros de voos internacionais. Confesso que fiquei perplexo. Perguntei aos funcionários se tinham consciência de que a Catumbela se localizava dentro das fronteiras nacionais e de que, por conseguinte, acabávamos de realizar uma viagem doméstica, e não internacional. Responderam afirmativamente, acrescentando, porém, uma expressão que merece a reflexão de todos os angolanos: "Estamos a cumprir ordens superiores." É precisamente sobre esta resposta que gostaria de me deter.
Não está em causa o trabalho dos funcionários, que se limitaram a executar as orientações que receberam, embora legalmente esteja proibida a identificação de passageiros nos voos domésticos. A questão é outra: faz sentido, do ponto de vista económico e operacional, manter um procedimento desta natureza? Um tapete rolante consome energia eléctrica. Um equipamento de scanner consome energia, necessita de manutenção e sofre depreciação com a utilização. Os funcionários que operam esses equipamentos representam igualmente um custo para o Estado, pois são pagos, entre outras fontes, com os impostos que pagamos, como o Imposto sobre os Rendimentos do Trabalho (IRT), que nos é deduzido nos nossos salários, o Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) e outros impostos cobrados pelo Estado. Por fim, o tempo dos passageiros também possui valor económico. Poder-se-á argumentar que, isoladamente, oito minutos de funcionamento de um tapete ou a passagem de algumas malas por um scanner representam um custo insignificante. É verdade. Mas talvez seja precisamente aí que resida o problema. O problema não está nos oito minutos. Está na multiplicação dos oito minutos.
Quantos procedimentos semelhantes são realizados diariamente nos aeroportos, instituições públicas e empresas públicas pelo país adentro? Quantos equipamentos permanecem em funcionamento sem necessidade efectiva? Quantas pessoas executam tarefas simplesmente porque "sempre foi assim" ou porque receberam "ordens superiores"? Quantos recursos consumimos sem perguntarmos qual é o valor que estamos efectivamente a criar? Pode-se justificar a presença de agentes dos Serviço de Migração e Estrangeiros (SME) nos voos domésticos? Simplesmente para mostrar o Bilhete de Identidade (BI)? Esse agente não poderia fazer algo mais útil para a sociedade?
Esta questão remete-nos para um problema sobre o qual tenho vindo a reflectir neste espaço: a produtividade do trabalho e a predominância da lógica administrativa de se fazer as coisas, em vez da lógica do negócio nos afazeres das instituições públicas. Produzir melhor não significa apenas trabalhar mais. Significa utilizar racionalmente os recursos disponíveis - capital, energia, equipamentos, tecnologia e, sobretudo, tempo. Uma organização produtiva deve questionar-se permanentemente: este procedimento é necessário? Adiciona valor? Que problema resolve? Quanto custa? Existe uma maneira mais simples, mais rápida e menos onerosa de alcançar o mesmo resultado?
Naturalmente, compreendo que possam existir razões de segurança, controlo ou organização aeroportuária que justifiquem determinados procedimentos. Mas, se existem, devem ser claros, proporcionais ao risco e periodicamente avaliados. Uma boa administração não se limita a criar procedimentos; deve igualmente ter a capacidade de rever e eliminar aqueles que perderam a sua razão de existir. É aqui que entra uma dimensão cultural que considero particularmente importante para Angola: precisamos de substituir progressivamente a cultura do cumprimento mecânico pela cultura do questionamento responsável e da melhoria contínua. "Cumprir ordens superiores" não pode ser o ponto final da gestão. Deve existir, dentro das organizações, espaço para que alguém pergunte: esta ordem continua a fazer sentido?
Nas empresas, esta pergunta afecta a competitividade. Na Administração Pública, afecta a eficiência do Estado. E, em ambos os casos, afecta a produtividade da economia. Angola debate, com razão, a necessidade de aumentar a produção nacional, diversificar a economia e reduzir a dependência das importações. Mas produzir mais não será suficiente. Precisamos também de aprender a produzir melhor, administrar melhor e gastar melhor, tal como referi num artigo recente publicado neste espaço.
A competitividade de uma economia constrói-se igualmente através da eliminação de pequenas ineficiências. Talvez, por isso, aqueles oito minutos de funcionamento de um tapete rolante sejam economicamente irrelevantes. Mas a mentalidade que nos impede de perguntar se esses procedimentos eram realmente necessários pode custar muito mais ao país. Porque, quando multiplicamos pequenas ineficiências por milhares de procedimentos, centenas de instituições e 365 dias por ano, aquilo que parecia insignificante transforma-se num verdadeiro custo económico. E é precisamente por isso que devemos começar a fazer uma pergunta muito simples antes de repetir qualquer procedimento: Para quê?
A resposta a essa pergunta não deve ser presumida nem ficar escondida atrás de uma ordem superior. Deve ser demonstrada: cada procedimento precisa de servir um objectivo claro, proteger o interesse público e justificar os recursos que consome. Não se trata de eliminar controlos necessários, mas de garantir que sejam proporcionais, eficazes e sujeitos a revisão sempre que deixem de fazer sentido. Afinal, administrar bem é também saber interromper o que já não acrescenta valor. É assim que se começa a transformar pequenas perguntas em melhores instituições - e melAfinal, administrar bem é também saber interromper o que já não acrescenta valor. É assim que se começa a transformar pequenas perguntas em melhores instituições - e melhores instituições em maior produtividade para Angola.hores instituições em maior produtividade para Angola. Essa não deve ser apenas tarefa dos que têm cargos públicos, os chefes, mas cada cidadão deve ter consciência de que o bem-estaqr dos angolanos é responsabiolidade de qualquer angolano, com ou sem título.
*Economista
