Este mês de Junho está a ser agitadíssimo para o Minguito e para o Mamadou. O miúdo mal tem lanchado em casa. Tão logo chega da escola e, ainda de bata, vai direitinho para a cantina do Mamadou. Juntos, assistem aos resumos e ao jogo da tarde do Mundial.
Nos jogos das equipas africanas, o Minguito teve sempre direito a uma sandes de queijo e uma Blue de graça. As tarefas da escola têm sido feitas nos intervalos, por cima da arca da cantina.
Num belo final de semana, o primo "riquinho", que vive num portentoso condomínio, telefonou ao pai do Minguito convidando-o para um trumuno lá no condomínio.
A mãe fez cara feia. O pai deixou.
- Deixa lá o miúdo... não tem nada na vida. Deixa curtir o primo.
Um carrão foi buscar o Minguito e o seu par de ténis furados. Não levou bola. Fez bem. Havia várias no campo do condomínio. Novinhas. Bolas do Campeonato do Mundo, da La Liga, da Premier League e de outras competições. Bolas que ele teve até vergonha de rematar e sujar.
O primo rico recebeu-o com a educação de sempre. Apresentou o Minguito aos seus amigos do colégio, do inglês e da natação. Dividiram as equipas e começaram a aquecer.
Minguito, tímido, só olhava para os outros miúdos.
Um, vestido de França, ensaiava dribles e gritava para a baliza vazia:
- Lá vai Mbappe ... bola com o atacante francês... ninguém consegue pará-lo... que remate fortíssimo!
Outro, trajando o equipamento da selecção portuguesa, dava dribles imaginários sobre o reluzente tapete verde do campo.
- É o melhor do mundo! É Cristiano Ronaldo! Habilidade pura do camisola sete de Portugal!
Um terceiro, fantasiado de argentino , chutava a bola contra a parede e, com voz de locutor da Rádio 5, anunciava:
- A precisão do remate de Messi , grande estrela da selecção argentina . Quanta fantasia e criatividade!
E o desfile continuava.
A miudagem vestida com os equipamentos dos seus maiores ídolos do futebol mundial.
Sem jeito, Minguito envergonhava-se um pouco da sua própria roupa. Camisola completamente debotada, calções baratos da lojinha do Mamadou e os velhos ténis bamba nos pés.
Como não ser o patinho feio?
Como integrar-se naquele grupo tão bem vestido para a ocasião?
Como voltar para casa e não perturbar o pai para comprar a camisola de algum craque internacional?
Simples.
O miúdo Minguito António correu para os balneários, onde tinha deixado a mochila com a roupa para vestir depois do jogo. Pegou na cueca preta, limpa mas já ligeiramente rasgada, e foi até ao espelho.
Respirou fundo.
Ganhou coragem.
Lembrou-se do jogo entre a Cabo Verde e a Espanha.
Pôs a cueca na cabeça.
Ajeitou os buracos.
Deixou as orelhas de fora.
E voltou para o campo a correr.
O jogo ia começar.
Os miúdos olharam para ele, estupefactos.
Antes que perguntassem o que tinha na cabeça, além da cueca, Minguito berrou animado:
- Em campo Vozinha, grande guarda-redes da selecção cabo verdiana, antigo guarda redes do Progresso do Sambizanga, usando uma proteccao na cabeça! Nada é capaz de impedir as suas brilhantes defesas!
A partida começou.
A equipa do Domingos "Vozinha" António não sofreu um único golo.
O miúdo era uma barreira intransponível. Inexpugnável.
Ele e a sua cuequinha preta enterrada na cabeça.
Defendeu todos os remates do Messi, do Ronaldo, do Mané e do Mbappé.
E provou, numa sexta-feira, num condomínio luxuoso, que o futebol e os sonhos não se constroem apenas com coisas materiais.
Livros, leite e anti-palúdicos para todos os meninos Minguitos espalhados por esta nossa Angola.
Bem haja o futebol!
*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga
Lei em campo: O Vozinha no coração do Minguito
O miúdo chama-se Minguito. Domingos Pedro António. Mora na periferia de Luanda, no superpovoado Cazenga. Estuda numa escola pública quase sem carteiras. Adora futebol e livros. Satisfaz a sua paixão pelo desporto-rei na cantina do seu amigo senegalês Mamadou Diallo, equipada com um televisor Plasma Made in China de 12 polegadas.
