Entretanto, o maior fóssil encontrado até a data, com 4,6 metros de comprimento de carapaça e um peso estimado em 1,5 toneladas, pertence à espécie Archelon ischyros da família Protostegidae, tendo vivido no Cretáceo entre 75 e 65 milhões de anos atrás. É também do Cretáceo, desde há 65 milhões de anos atrás, que existem indícios de terem estado presentes espécies de pelo menos quatro grandes famílias de tartarugas, nomeadamente a Toxochelydae, Protostegidae, Cheloniidae e a Dermochelydae, permanecendo as duas últimas até aos dias de hoje. Contudo, as espécies existentes actualmente surgiram na Era Cenozoica, entre o Terciário e Quarternário, e entre as Épocas do Eocénico e Pleistocénico, 60 e 10 milhões de anos atrás, pelo que podem ser vistas como bons indicadores biológicos no que concerne à saúde do ecossistema marinho dada a sua longevidade evolutiva e adaptativa até aos dias de hoje. Em Angola, o registo mais antigo encontrado provem igualmente do Cretáceo, evidenciando deste modo a importância e utilização ancestral da costa de Angola por parte deste segmento da biodiversidade.
Na sistemática moderna, as tartarugas estão inseridas na ordem Testudinata, a qual compreende 13 famílias com aproximadamente 285 espécies, e entre as quais encontramos espécies terrestres, dulçaquícolas e marinhas. No que concerne as tartarugas marinhas, que é o fundamento desta matéria, das espécies actualmente existentes estão inseridas apenas em duas famílias das 13 consideradas, Cheloniidae e Demochelydae, com uma história evolutiva e pertencente a um grupo monofilético que se evidencia por um ancestral comum. Os Cheloniideos actuais apareceram no Miocenio e os Dermochelidos no Eoceno. A família Dermochelydae contempla um único género, Dermochelys, e a família Chelonidae 5 géneros, Chelonia, Eretmochelys, Caretta, Natator e Lepidochelys.
Um património biológico, sua relevância e conservação
São conhecidas 7 espécies a nível mundial, que se distribuem pelas regiões tropicais e subtropicais de todos os oceanos. Dentro do género Dermochelys, são consideradas duas subespécies, a D. coriacea coriacea e D.c schlegelii, sendo a primeira a que se encontra na costa de Angola e com reprodução confirmada. Dentro do género Chelonia, existem as subespécies C. mydas e a C. m. agassizi, onde a primeira igualmente faz parte da biodiversidade angolana e como espécie nidificante. Os géneros Eretmochelys e Caretta contam com uma única espécie cada, a E. imbricata e a C. caretta respectivamente, encontrando-se a primeira sobretudo em estádios juvenis na parte norte da costa de Angola e a segunda evidenciando-se com uma nidificação até ao momento considerada como casuística e bastante rara. O género Natator comtempla a espécie N. depressus, espécie esta que não faz parte do património biológico de Angola. Para o género Lepidochelys, existem duas espécies, a L. kempii e a L. oliacea, sendo apenas a segunda parte integrante da biodiversidade de Angola, que segundo dados do Projecto Kitabanga, manifesta-se a sua população em termos de números como a mais importante do Atlântico, e considerada ainda como a mais importante a nível mundial em termos de nidificação não em massa, ou seja, não considerando as arribadas características desta espécie, pelo que, a sua relevância é manifestamente importante a nível mundial, cabendo a Angola uma responsabilidade acrescida na gestão e conservação.
As tartarugas marinhas possuem um papel de grande importância na manutenção do equilíbrio de ecossistemas marinhos e com extensão para ecossistemas terrestres, bem como em aspectos socioculturais e económicos em muitas regiões do Planeta. Dada a sua longevidade evolutiva servem como bioindicadores do estado da saúde do ecossistema e das mudanças climáticas, participam ainda de cadeias tróficas, como substrato e dispersão e interacção para com outras espécies, participam na transferência de energia do ambiente marinho para o terrestre e vice-versa, são porta-bandeira para muitas outras espécies e contemplam ainda um valor cultural e económico.
Dadas as inúmeras pressões que se fazem sentir sobre as tartarugas marinhas um pouco por todo mundo, com uma diminuição dos seus efectivos, e onde aqui se inclui Angola, todas as espécies estão catalogadas pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza como criticamente ameaçada, ameaçadas e ou vulneráveis a` extinção, sendo em Angola todas elas protegidas por lei.
Hibridismo - o antagonismo especifico natural
No seio do mundo natural são muitos os exemplos sobre hibridismo, onde em muitos deles a F1 manifesta-se com uma viabilidade reprodutiva. Igualmente para as tartarugas marinhas existem vários relatos de cruzamentos interespecíficos, havendo vários trabalhos realizados sobre esta temática com algum enfase para a América do Sul. De notar, que para um contexto evolutivo, isto pode ser uma porta manifestamente expressa para uma resiliência adaptativa, em que a prevalência de genes fortes pode se revelar resistente à pressão de diversos factores ecológicos e, logo ser passível a atributos selectivos naturalmente. Por outro lado, pode ser um indicativo de perda de um efectivo populacional e que leve a cruzamentos antagónicos no contexto específico. Em populações pequenas, este acontecimento pode manifestar-se em uma potencial perda de biodiversidade em detrimento de organismos bizarros, que acabam por ser questionados negativamente por muitos, e adorados por outros. Entretanto, este tema ainda oferece uma discussão alargada, onde muito se precisa aprofundar ao entorno destes organismos que vão surgindo em meio natural.
- Gizela - uma tartaruga bizarra
Ao longo dos vários anos de estudo sobre a condição das tartarugas marinhas em Angola, eis uma evidência de um hibrido presente na costa de Angola. Estamos a falar de uma tartaruga resultante de um cruzamento entre uma Caretta caretta e uma Eretmochelys imbricata, encontrada em 2011 na região das Palmeirinhas quando preparava o seu ninho para nidificar e, há qual a equipa de trabalho presente a apelidou de Gizela. As características bizarras deste animal mostraram uma carapaça desconcertante, resultado da mistura das duas espécies, e uma cabeça mais desenhada para a segunda espécie. Instintivamente, este animal mostrou um ritual característico a estas espécies durante o processo de preparação da camara de desova e igualmente revelou aspectos migratórios que foram seguidos a partir da colocação de um transmissor. A Gizela foi monitorada por 6 meses, onde após deixar as águas territoriais de Angola, passou pela Republica do Congo, São Tomé, Gabão, chegando até à Guiné Equatorial e de onde perdemos o seu sinal (Fig 1). Desta forma, podemos considerar o registo da potencial presença de híbridos de tartarugas marinhas na costa de Angola, com ligação a uma extensão regional no Atlântico Este.n
*Biólogo marinho e Docente na Faculdade de Ciências
