No Mussulo, o sol chega generoso, embalando a preguiça. É uma luz que abraça a pele enquanto cá dentro, a alma se espreguiça. O azul, não é o cinzento das cidades, mas não é triste, embora caminhe desordenadamente nessa direcção. É um azul que se derrama pelo horizonte, que se enrola nas ondas e que promete a eternidade. E as palmeiras, baloiçadas pela brisa e pelo tempo, contam histórias de pescadores, de marés que subiram, de noites de lua cheia, de calemas que vincaram a fragilidade desta paisagem. São postais vivos, lembranças de muitas juventudes.
Lá para os tempos antigos, do kaparandanda, o mar e o vento debruçaram-se sobre a areia como quem se debruça sobre um berço. Com o apoio das correntes e das marés, aqueles grãos foram-se depositando, centímetro a centímetro, até nascer esta língua de terra que mais parece um beijo demorado entre a baía e o oceano. Depois da natureza veio o Homem. Porque contemplar o paraíso é uma coisa; agarrar naquela beleza e dizê-la ao betão, é outra. Aos poucos foram surgindo as primeiras casas de palha, depois uma moradia mais ousada, menos temporária, e agora aglomerados definitivos. E ali se foram espalhando, como formigas em dia de festa. Apertaram-se os tapumes, conferiram-se as áreas e estava feito o início de um fim que não se vislumbra bonito. O Mussulo transformava-se, parede a parede.
Mussulo, o paraíso que liga o sossego ao tumulto. Por ele desaguam o lazer, o descanso, o peixe grelhado, e as águas da cidade. Aos poucos o Mussulo foi ficando manchado por uma imensidão de betão. Feridas abertas no tempo e no cimento. Algumas das praias, que já foram públicas, impedem a passagem. Após as chuvas na cidade e arredores este paraíso é uma armadilha de plástico de uma multitude de cores que inunda a paisagem sem apelo nem agravo.
Agora, veio a promessa do asfalto. Uma estrada caríssima, dessas que prometem progresso e entregam alcatrão. E ninguém discorda: água, luz e saneamento fazem falta. Fazem falta às famílias que ali vivem, aos pescadores que ali trabalham, às crianças que ali nascem, ao turismo que floresce. Mas uma estrada sem ordenamento é uma veia entupida. É levar o progresso a tirocínio sem primeiro dizer à paisagem: com licença.
O Mussulo não precisa só de estrada. Precisa de um plano director. Precisa que alguém lhe diga: cresces até aqui, e não além. Precisa que o betão peça autorização à areia e não o contrário. Porque de que serve um asfalto novo se a praia continua a ser cercada como quintal privado? De que serve levar luz se à luz do dia se vêem muros a avançar sobre a maré como quem avança sobre terra de ninguém?
E não, não é só degradação. É uma ironia de pernas para o ar: gasta-se uma fortuna a alcatroar o caminho, mas ninguém gasta um tostão a dizer onde se pode ou não construir. O resultado é este: uma península que respira por apneia. Linda, sim, mas ofegante. Com veias de asfalto e artérias entupidas de cimento.
Assim, o Mussulo vai-se afundando devagar, não no mar, por enquanto, que esse ainda o abraça, mas na própria desordem. Afunda-se na ganância dos que lá chegaram primeiro e fecharam a porta atrás de si. E ali fica ele, o paraíso de olhos abertos, a ver os homens construírem o seu próprio naufrágio, tijolo a tijolo, cerca a cerca, entulho a entulho. A diferença é que, desta vez, o naufrágio não leva o barco. Leva a praia. Leva a brisa. Leva o direito de ali chegar e sentir que a praia ainda pode ser gratuita.
Sorriso crónico: O naufrágio do paraíso
Há paisagens arrebatadoras por serem de uma simplicidade extrema mas de uma beleza que enche os nossos olhos. Paisagens que não são feitas de terra, mas sim de miragem. Uma destas paisagens é alcançada após uma curta travessia de barco, com o vento salgado a lambuzar-nos a cara. Devagar, com o aproximar, deixa de ser uma miragem rodeada de água e começa a ser encantamento. A areia transforma-se num suspiro pontilhado com verde que se estende até onde a vista alcança. O mar abraça-a de um lado, a baía acaricia-a do outro, e a península ali flutua, entre dois amores, como uma noiva indecisa.
