Um engenho, aparentemente de produção artesanal, explodiu, na segunda-feira, 13, e quase à mesma hora da chegada do Papa a Argel, em Blida, uma cidade a 50 kms da capital argelina, junto a uma esquadra da polícia.
Este incidente não atrapalhou nem o percurso nem o discurso de Leão XIV, que, pouco depois, na sua primeira intervenção pública, no Monumento aos Mártires de Maqam Echahid, deixava um aviso claro à navegação que foi pensado para chegar bem mais longe que o sítio da explosão.
"O futuro pertence aos homens e às mulheres de paz", apontava o líder da Igreja Católica, que só por estar ali, neste país, de larga maioria muçulmana, onde pela primeira vez um Papa pisou o seu chão, deixava marcada a ideia de paz e ecumenismo.
Mas as suas palavras ecoaram pelo mundo, desde logo no local do atentado terrorista, em Blida, naquele que foi o primeiro do género desde 2012, ano que marcou o fim de um longo período de instabilidade política, social e militar no país, mas também no Médio Oriente, onde Estados Unidos e Israel travam uma guerra injustificada e ilegal contra o Irão.
Alias, estas palavras de Leão XIV também não podem ser desanexadas da troca de argumentos que manteve com o Presidente dos EUA, Donald Trump, que ficou furioso quando este seu conterrâneo, que representa cerca de 1,5 mil milhões de católicos, defendeu antes do início deste "tour" africano que nada justifica a guerra. (ver aqui)
Segundo os media argelinos, o ataque à esquadra de Blida foi perpetrado por dois indivíduos que morreram no local e que se saiba, não deixaram qualquer pista sobre o que os motivou e o que está por detrás desta acção terrorista, que, aparentemente, não mexeu em nada no mapa da visita papal à Argélia e aos outros três países do continente que se seguem.
Leão XIV foi recebido pelo Presidente Abdelmadjid Tebboune, que ouviu o Papa norte-americano a dizer-lhe, e a todas as autoridades do país, políticas e militares, para que "não temam a participação popular" na vida política e económica da Argélia ajudando a criar uma sociedade civil "vibrante, dinâmica e livre".
"A verdadeira força de uma Nação reside na cooperação de todos para a conquista do bem comum. As autoridades não devem server para dominar mas para servir o povo na sua busca pelos seus objectivos de viver melhor e desenvolvimento da comunidade", apontou o Papa.
Na sua visita inicial, Leão XIV escolheu ir directamente ao Monumento dos Mártires de Maqam Echahid, erguido em memória de todos aqueles que lutaram e morreram pela independência da Argélia do domínio colonial francês, enquadrando esta visita com a sua condição de sucessor do Apóstolo Pedro mas, ante disso, "com a sua condição de irmão" do povo argelino.
E acrescentou ao seu longo discurso, com uma permanente chuva miudinha a moldar o ambiente, com uma multidão a ouvi-lo, que "Deus quer a paz entre todas as Nações, uma paz que não é a mera ausência de conflito, mas uma paz que seja a expressão da justiça e dignidade".
Disse também que a paz a que se refere é "a paz que permite aos povos encarar de frente o futuro com um espírito reconciliador que só existe se imperar a capacidade de perdoar" porque o futuro "pertence a esses homens e mulheres que a buscam e defendem, porque no fim a justiça sempre trunfa sobre a injustiça, tal como a violência, apesar de tudo, nunca terá a última palavra".
Depois da Argélia, o Papa Leão XIV segue para os Camarões, de onde partirá para Angola, onde chega no dia 18 e de onde parte, a 21, para a Guiné Equatorial, a última paragem desta sua primeira visita como chefe da Igreja Católica a África e a primeira grande viagem desde que assumiu o cargo após a morte de Francisco, um dos lideres católicos que mais se preocupou com África.
Uma visita que foi preparada para durar 10 dias mas que pretende perdurar no tempo e nos "corações africanos" como disse um porta voz do Vaticano dias antes do início do périplo do Papa Leão XIV ao continente.
Mas esta visita tem ainda outra dimensão, esta mais política, mesmo que o Papa tenha avisado na sua troca de argumentos com Donald Trump, que não faz política na mesma perspectiva dos "políticos", que é ter uma ideia dos grandes desafios da Igreja Católica em África.
Desde logo o crescimento da geografia de maioria islâmica, e da erosão do catolicismo em grande parte do continente com o avanço das seitas cristãs evangélicas, não apenas pela redução dos fiéis católicos, mas pelas consequências sociais e sociológicas que essa realidade transporta.
Na última visita de um Papa ao continente africano, Bento XVI, que esteve em Angola em 2009, a questão da progressão exponencial das igrejas e seitas evangélicas foi mesmo um assunto "oficial" embora a Igreja Católica e o Vaticano mantenham uma postura de baixo perfil na forma como lida com este "desafio existencial" no continente africano.






