E assim aconteceu, depois de chegar a Yaounde, o Papa, na sua primeira intervenção pública, falou da forma de governação e das escolhas políticas que devem ter o "bem comum e a justiça" como azimute permitindo "rebentar as correntes da corrupção", combater a pobreza e defender a paz.

Num pais que vive desde 2017 um conflito grave entre Governo e separatistas, que visam dividir as regiões anglófonas do norte e francófonas do sul, com milhares de mortos e centenas de milhar de desalojados pelo caminho, Leão XIV assentou o seu discurso na promoção da paz.

Segundo o relato do site Vatican News, o chefe da Igreja Católica, na sua paragem antes de seguir para Angola, onde vai chegar no próximo Sábado, 18, e ficará até 21, e no primeiro discurso disse que "o mundo tem sede de paz" e que "chega de guerras!".

Dirigindo-se às autoridades, à sociedade civil e ao corpo diplomático, o Pontífice apelou para aumente o esforço de todos que leve ao "fim das guerras" porque "a paz deve traduzir-se em escolhas concretas" e essas nunca chegam no meio de discursos ambíguos.

Tal como Angola, também os Camarões, com cerca de 30 milhões de habitantes, entre estes perto de 65% de cristão (quase 40% de católicos) e uma grande minoria de muçulmanos, perto de 30%, recebe a terceira visita de um Papa, depois de João Paulo II (1985) e Bento XVI, em 2009.

Apresentando-se como "pastor e servidor do diálogo, da fraternidade e da paz", Leão XIV manifestou o desejo de encorajar o povo camaronês a prosseguir na construção do bem comum, especialmente em um tempo marcado pela resignação e pelo sentimento de impotência.

E não desperdiçou a oportunidade de, perante, as autoridades camaronesas, especialmente o nonagenário Presidente Biya, de lembrar que o futuro pertence aos jovens que vivem com "muita fome e sede de justiça! Muita sede de participação, de visões, de escolhas corajosas e de paz!".

Numa clara chamada de atenção e um aviso à navegação governamental, o Papa recorreu a Santo Agostinho, citando-o para lembrar que "Aqueles que mandam estão ao serviço daqueles a quem, aparentemente, parecem mandar."

Uma crítica à má governação e à ausência de determinação em quem tem a responsabilidade de ter o povo e a resolução dos seus problemas como a mais absoluta prioridade.

O tema da guerra, que marcou o início deste périplo africano de 10 dias, de 13 a 23 de Abril, e quatro países, Argélia, Camarões, Angola e Guiné-Equatorial, depois do Presidente dos EUA, Donald Trump o ter fortemente criticado por defender a paz no Médio Oriente, teve neste país da África Central uma dupla funcionalidade para Leão XIV.

Desde logo falar do tema ignorando Trump, que, depois da primeira troca de argumentos, procurou depois voltar ao "ring", atacando de novo o chefe do Vaticano, mas com este a optar por ignorá-lo, embora subliminarmente lhe ter dado umas ferroadas apostólicas, ao lembrar que "a paz não pode ser reduzida a um slogan".

E acrescentando: "A paz deve encarnar-se num estilo, pessoal e institucional, que repudie toda e qualquer forma de violência. Por isso, reitero com veemência que o mundo tem sede de paz e que chega de guerras".

Como imagem de fundo para as suas palavras, recordou que as guerras t~em sempre como consequências "penosos amontoados de mortos, destruição e exilados!", explicou que "este clamor pretende ser um apelo à vontade de contribuir para uma paz autêntica, colocando-a acima de qualquer interesse particular."

E lembrou de seguida, naquilo que mesmo não o referindo, pode ser visto como um remoque ao Presidente e conterrâneo norte-americano, que "a paz não se decreta, acolhe-se e vive-se", insistindo numa paz "desarmada e desarmante", capaz de gerar confiança, empatia e esperança".

Na sua outra guerra, a guerra contra a pobreza e a injustiça, Leão XIV apontou baterias ás causas da má governação, lembrando, ainda citado pelo Vatcian News, que "governar significa amar o próprio país e ouvir verdadeiramente os cidadãos" o que só acontece "valorizando sua capacidade de contribuir para soluções duradouras".

Momento em que sublinhou igualmente que "a responsabilidade política deve estar enraizada no bem comum e na justiça, superando modelos assistencialistas que não envolvem efetivamente os mais pobres", afirmando que um dos caminhos para esse lado positivo da vida é os governos ouvirem a socie dade civil.

No que é claramente uma mensagem que encaixa em dezenas de países em todo o mundo e onde África é prolixa em exemplos, o Sumo Pontífice destacou a atuação da sociedade civil, definindo-a como "força vital para a coesão nacional".

Associações, mulheres, jovens, organizações humanitárias e líderes religiosos desempenham, segundo o Papa "um papel insubstituível na construção da paz".

"Muitas vezes, infelizmente, elas são as primeiras vítimas de preconceitos e violências, e, no entanto, continuam a ser incansáveis artífices da paz. O seu empenho na instrução, na mediação e na reconstrução do tecido social é inigualável e representa um freio à corrupção e aos abusos de poder. Também por isso a voz delas deve ser plenamente reconhecida nos processos de tomada de decisão", disse em tom de apelo para que os governos tenham esta visão em consideração.

O Vatican News relata ainda a relevância que o Papa deu à chegada aos Camarões à necessidade da construção de "instituições justas e credíveis" que levem à "transparência e o respeito ao Estado de Direito porque só assim é possível "quebrar as correntes da corrupção" que desfiguram a autoridade, esvaziam a legitimidade dos Governos e impedem que a paz e a justiça se afirmem.

"Para que a paz e a justiça se afirmem, é necessário quebrar as correntes da corrupção, que desfiguram a autoridade, esvaziando-a de legitimidade. É necessário libertar o coração daquela sede de lucro que é idolatria: o verdadeiro lucro é o desenvolvimento humano integral, ou seja, o crescimento equilibrado de todos os aspectos que tornam a vida nesta terra uma bênção", apontou.