O que torna esta notícia forte é que o Papa não falou apenas de fé, mas de estabilidade, paz e responsabilidade pública. Resumindo claro: voltou a colocar na mesa que governar não é administrar resignação, mas abrir caminho para que a sociedade respire, participe e não viva presa entre frustração e promessas vazias. Esta abordagem, certamente, continuará a dar o que falar na sua passagem por Angola". Tudo bem claro e resumido neste texto partilhado pelo amigo e leigo Valter de Melo. Espelha bem o "exame in loco" que o Santo Padre veio fazer nesta visita ao nosso País.
Foi ainda ao mais jovens que Leão XIV afirmou que podem construir um projecto de esperança, um país livre de escravidões impostas pelas elites com muito dinheiro e falsas alegrias. A lógica extractivista em que assentam muitas economias e que tanto sofrimento, discriminação e morte provocam.
Fez alusão aos "muitos tesouros" que Angola possui e que "não se vendem e nem se roubam", referindo-se à alegria, à fé e à solidariedade que os angolanos possuem e que nem as mais adversas circunstâncias a fizeram desaparecer, mas igualmente em contraste com a cobiça que geram os recursos naturais de que Angola é também rica.
Leão XIV foi o primeiro Papa a visitar o Leste de Angola e na Lunda-Sul encontrou uma terra de contrastes, onde o brilho dos diamantes não esconde o lado mais perverso da natureza humana: a falta de amor ao próximo, o desprezo pela dignidade da pessoa humana, o ódio e a ganância que deixam milhares de homens e mulheres na pobreza e que acentuam cada vez mais as desigualdades sociais. Foi também aí onde pediu aos angolanos para terem cuidado com as religiões tradicionais, numa perspectiva como descreve o jornalista Gustavo Silva de " religiões tradicionais, crendices, baseadas no feiticismo, como aquela cujo testemunho ouvimos da boca de uma anciã que foi amarrada num saco e descartada pela família, deitada fora pela família. Teria sido atirada para um rio. Escapou disso. Acusada de ser feiticeira. Foi o que ela contou ao Papa.
Há crianças de tenra idade acusadas de feiticeiras.
Quantas estão sob cuidados de instituições da Igreja Católica?
São essas religiões com as quais se deve ter muito cuidado". Sem esquecermos que foi em Saurimo que o Papa advertiu para os perigos das injustiças e do comércio supersticioso, fazendo apelo para que "o pão de todos não se transforme em propriedade de poucos", num perfeito "exame in loco" feito por onde passou.
Na Muxima, o Santo Padre partilhou com os peregrinos a nossa vivência de fé e de veneração, de dedicação a Maria, mãe de Jesus .O momento alto da Recitação do Terço pelo Papa Leão XIV no Santuário da Mamã Muxima (19.04.2026) foi aquele em que ele pronunciou palavras na língua nacional kimbundu:
*"Mamã Muxima, tueza kúkue. Mamã Muxima, tutambululê." (Mamã Muxima, viemos aqui. Mamã Muxima, receba-nos!).* Ficando a mensagem de que "é o amor que deve triunfar, não a guerra".
600 mil pessoas na missa campal na Centralidade do Kilamba, no domingo, 19 de Abril, o dia em que Luanda foi o altar do mundo católico. As mensagens foram claras e o discurso bem claro. Ficam as recomendações: colocar o bem comum acima dos interesses pessoais e partidários, não confundir a "parte" com o "todo", transformar conflitos em diálogo e soluções, respeitar a diversidade e ouvir todas as vozes, rejeitar a exploração e a lógica do saque de recursos, combater a pobreza, a exclusão e as injustiças sociais, valorizar e investir na juventude, evitar a política do ódio, da manipulação e da polarização, promover a esperança e a confiança e, por fim, assumir a política como missão ética e serviço público.
Como disse a ministra de Estado para a Área Social, Maria do Rosário Bragança: " Mais do que interiorizar, as pessoas devem converter as mensagens do Papa em acções".
Que todos nós saibamos acolher o que de bom o Papa Leão XIV transmitiu nos seus discursos, que sejamos capazes de aprovar neste "exame in loco" que nos fez! Que sejamos capazes de fazer diferente e cumprir as recomendações, que não "reprovemos" novamente no exame como foi com João Paulo II e Bento XVI.
O "exame in loco" do Papa Leão XIV
Agora, o Papa colocou o dedo noutro ponto delicado: não apague os jovens nem roube a esperança do País. Na sua primeira grande mensagem já em Angola, Leão XIV não ficou em generalidades e lançou um aviso directo às autoridades: não devem sufocar as visões dos jovens nem os sonhos dos mais velhos. O fundo da mensagem foi claro: um país não pode avançar se bloquear o seu próprio povo, especialmente quando as novas gerações sentem que não têm espaço para construir o futuro.
