Sem portas, nem casas de banho, entre paredes inóspitas, os dias contam-se pela cadência das necessidades. "Falta comida, falta habitação, falta saneamento básico".
O cenário de miséria, traçado a partir das reivindicações dos habitantes de Qunu, chega-nos pela voz de Themba Nqadolo, conselheiro da comunidade, que, desde a partida de Nelson Mandela, parece parado e esquecido no tempo.
Nesses anos, vividos no final da década de 30 do século passado, "as mulheres preparavam o milho de várias maneiras. Tanto podiam esmagar os grãos entre duas pedras para fazer pão, como cozê-lo primeiro para fazer o umphothulo, farinha de milho que se come com leite azedo, ou o umngqusho, farinha grossa, que se come simples ou misturada com feijão".
A velha descrição do filho mais ilustre da povoação - imortalizada na autobiografia Long Walk to Freedom (Um Longo Caminho para a Liberdade) - revela uma actualidade perturbante à passagem por Qunu, na manhã do enterro do ex-Presidente caracterizada pelo afã feminino.
"É a tradição", atira uma das mulheres, que, sem pausas de braços, manuseia panelões de farinha e baldes de água, especialmente confeccionados para a despedida ao pai Mandela. Sepultado no passado domingo dia 15, e imortalizado como o homem que mudou a África do Sul e inspirou o mundo, Madiba parece ter levado consigo, na longa caminhada de libertação nacional, toda a fortuna da aldeia que escolheu como última morada.
Ainda assim, por aqui não há conversa sem passagem pelo legado do herói nacional. Imperceptível em Qunu, porém aclamado em Joanesburgo e Pretória, destinos da sua peregrinação e ascensão política. "Hoje temos autocarros e água, e as nossas crianças podem finalmente ir à escola. Tudo isto devemos a Nelson Mandela", apregoa Millicent Ramododiba, a cerca de 900 quilómetros da aldeia que marcou a infância do antigo Chefe de Estado. Aos 65 anos, castigados pelas privações de décadas de segregação racial, Millicent carrega a bandeira que dá vantagem eleitoral ao ANC: a conquista do fim do apartheid. "Só o desconhecimento da história permite votar noutro partido", insiste a reformada, apanhada à saída do Union Buildings, etapa final do cortejo fúnebre que, durante três dias, conduziu cerca de 100 mil pessoas ao velório do Nobel da Paz.
A prova de fogo do ANC
A gratidão à força política que resgatou os direitos básicos da maioria negra da África do Sul, unanimemente assumida entre a população que ainda transporta memórias de opressão, dilui-se, contudo, no discurso da nova geração de votantes. "É verdade que não tivemos a oportunidade de conhecer Mandela mas é uma figura incomparável da nossa história e do mundo", nota Thabang Bhili, universitário de 20 anos. Assumido contestatário da liderança do Presidente Jacob Zuma, este estudante de Engenharia de Minas prepara-se para votar na mudança. "A lógica nacional da lealdade ao ANC tem de ser ultrapassada.
Temos de começar a olhar para a nossa realidade em vez de ficarmos presos ao passado. Chegou o momento de falarmos da pobreza, do desemprego e da criminalidade". O desafio, que para Thabang está à medida da capacidade da Aliança Democrática (DA na sigla em inglesa), promete penalizar o partido no poder nas próximas eleições gerais, agendadas para Abril de 2014. Além da crescente progressão da DA nas sondagens, que ameaça mesmo quebrar a hegemonia no ANC em Eastern Cape (a província de origem de Mandela), esta semana ficou marcada pela formação de uma coligação de cinco partidos, unidos no combate ao partido no poder.
A perspectiva de um recuo do ANC nas urnas ganha consistência a partir da contestação ao Chefe de Estado, vaiado no tributo a Nelson Mandela que, na semana passada, juntou cerca de 100 líderes mundiais no Estádio FNB, de Joanesburgo. 40% de desemprego
"Há aqui muito exagero", defende Monwabisi Jaza, apesar das suspeitas sobre Zuma - acusado de desviar milhões dos cofres do Estado para a compra de uma casa - confiante na política do ANC. "Podemos apontar alguns erros de liderança, mas não podemos confundir individualidades com toda uma estrutura partidária", acrescenta este eleitor de 39 anos, peremptório em identificar a "maior prioridade" nacional.
"Devemos ser capazes de matar a corrupção, porque é a partir dela que acentuam-se as desigualdades, bem visíveis na falta de recursos, nomeadamente nas dificuldades de acesso à educação, que minam o progresso das áreas rurais".
O objectivo, indispensável para contrariar os galopantes índices de desemprego - que o Governo fixa nos 25%, mas a oposição coloca nos 40% -, esboça-se nas alturas das montanhas de Qunu, enquanto as mulheres preparam refeições para centenas de pessoas. Nem que seja pelo dia da celebração fúnebre de Madiba, as carências da população prometem dar sossego a Themba Nqadolo.
"O trabalho é a maior preocupação", reconhece o conselheiro da aldeia, recém-regressado de uma missão de captação de empregos, desenvolvida na vizinha Mvezo. Ao mesmo tempo berço do ex-Presidente, e palco de liderança de um herdeiro de Mandela: o neto Zwelivelile Mandla Mandela. A coincidência não chega contudo para animar as expectativas em Qunu. "Perdemos o nosso pai.
Quem vai olhar por nós?". Num inglês arrancado a saca-rolhas, Annie Bacela, de 32 anos, mãe, mulher, dona de casa e em dia do funeral também cozinheira ao serviço da homenagem a Nelson Mandela, antecipa um futuro sombrio para a aldeia. Mas, afinal, o que pode piorar numa realidade já de si hipotecada pelas carências? "A esperança", explica Annie, através dos dotes de tradutor de Themba Nqadolo.
Com a morte do eterno Presidente, continua a mulher, morre também a confiança no amanhã. Fractura social O desencanto na ruralidade de Qunu estende-se à centralidade de Pretória. "Claro que ninguém quer recuar à opressão. É evidente que as conquistas não devem ser colocadas em causa, mas não acredito nestes políticos", lamenta Samson Dibakwane.
Apesar de descartar uma guinada de radicalização racial, este pensionista de 65 anos defende que o país vive carente de novas referências, enquanto assiste ao agravamento dos desequilíbrios. "Madiba usou o desporto para reconciliar a nação.
O que podemos fazer para corrigir a fractura social? Esta é uma pergunta para 1 milhão de dólares", observa Samson, lembrando uma das lições do pai da nação arco-íris: "Assim como o apartheid, a pobreza não é natural. É um produto do homem".
A reflexão conduz o legado marcadamente político de Mandela para os desafios de um novo caminho de libertação, lançado por Madiba, no último fôlego dos seus 95 anos, em tom de manifesto social: "Enquanto a pobreza persistir, não haverá verdadeira liberdade".

