É que, pense comigo, caro leitor, a coisa tem uma ponta de ironia que nem o maior arquitecto do mundo conseguiria projectar. Ao mesmo tempo que se finca a última estaca daquele templo do desporto adaptado, o governo, com um zelo louvável, alarga campanhas de vacinação contra a poliomielite, intensifica a fiscalização nas estradas para reduzir a sinistralidade e aposta todas as fichas na medicina preventiva. O objectivo é nobre: reduzir drasticamente o número de pessoas com deficiência no país.
Ora, aqui está o nó górdio que muitos não conseguem desatar. Para que se constrói um complexo paralímpico de excelência, com pistas, campo relvado e piscinas de nível internacional, se a grande estratégia nacional é, por definição, esgotar o "mercado" de potenciais atletas? É como construir um gigantesco hospital de campanha para uma doença que se está a erradicar.
Mas o destino, que gosta destas coisas, decidiu dar uma cor local à tragédia anunciada. Estava marcado para esta semana, no novo Complexo José Armando Sayovo, o Campeonato Africano de Basquetebol em Cadeira de Rodas. O evento ia projectar o Bengo como capital do desporto adaptado. Só que as altas temperaturas na província, que em Março só surpreendem quem nunca abriu uma janela, obrigaram a uma decisão: transferir a competição para o Pavilhão Arena do Kilamba.
Fizeram bem. Se obrigassem os atletas a competir sob aquele sol escaldante, perderíamos, por desidratação ou insolação, o reduzido plantel de heróis que ainda resta. Primeiro o governo trabalha para que não haja novos atletas, depois a natureza trata de afinar os poucos que restam. Não está fácil para os nossos heróis. Que tenham sorte. Vão precisar.

