O caso, segundo apurou o Novo Jornal, diz respeito a sete irmãos menores, que supostamente consumiram mandioca venenosa. Três morreram na hora e quatro foram internados nos cuidados intensivos do Hospital Municipal da Ganda na província de Benguela.

Ao Novo Jornal, o oficial superior da Polícia Nacional (PN), Pinto Caimbambo, explicou que os menores são filhos de uma vendedora ambulante e de um moto-taxista.

A mãe e o pai não estavam em casa, saíram em busca de sustento para os filhos. O mais velho, de 17 anos, aflito ao ver os irmãos menores a chorarem de fome, foi à lavra de uma vizinha em busca da referida mandioca para cozinhar para os irmãos menores.

"Após cozinhar a mandioca, serviu para ele e para os seus irmãos menores. Passado menos de uma hora, três menores caíram inanimados, acabando por falecer no quintal da habitação dos pais. Já os mais adultos foram socorridos pela vizinhança para o Hospital Municipal da Ganda e recebem assistência médica na sala dos cuidados intensivos", disse, salientando que o quadro clínico das crianças ainda inspira muitos cuidados.

Pinto Caimbambo salientou que já decorrem diligências por parte do Serviço de Investigação Criminal (SIC) para apurar as reais causas do sucedido.

"O corpo clínico do Hospital Municipal da Ganda diz que as causas foram pelo facto de os menores terem consumido a mandioca venenosa... a investigação do SIC-Benguela, já está no terreno de modo a apurar os factos que culminaram com a morte de três irmãos menores", concluiu.

As variedades de mandioca mais ricas em ácido cianídrico são perigosas

Este tipo de casos não é novo. Nas províncias angolanas do Norte e Centro, o conhecimento popular diz que há dois tipos de mandioca, a amarga e a doce. A primeira, a amarga, é utilizada para a produção de farinha, o tradicional funge, e a segunda, a doce, para o consumo em cru do tubérculo ou as folhas na forma de kizaca.

Mas a toxicidade de algumas das mais de 100 variedades de mandioca que existem no mundo, algumas dezenas crescem em África, não é do conhecimento comum a todas as comunidades angolanas, porque, se no Norte, a mandioca é parte significativa da dieta alimentar, no Centro e no Sul, predominam o milho e o sorgo como base da alimentação.

Sem a divulgação desta informação, e numa altura de crise, em que as famílias mais pobres têm dificuldade em se alimentar, o perigo aumenta consideravelmente porque, nessa aflição, não se presta atenção aos perigos ou estes são totalmente desconhecidos.

Como explicou ao Novo Jornal Online o engenheiro agrónomo Fernando Pacheco em 2016, "há províncias - do Planalto Central e do Sul do país- onde não existe tradição de consumo de mandioca e, por isso, as pessoas estão menos alerta para os riscos".

Assim sendo, com a chegada à periferia de Luanda de muitas famílias oriundas destas províncias, que, tradicionalmente, têm no milho e no sorgo a base da sua dieta, e face à dificuldade crescente de se alimentarem, a mandioca surge como uma "alternativa natural", adiantou Fernando Pacheco.

O engenheiro agrónomo observou ainda que "isso leva a um aumento do risco de consumo de variedades de mandioca mais ricas em ácido cianídrico", que é o componente tóxico que pode provocar náuseas, dores musculares, asfixia e convulsões... e, sem a resposta médica adequada e em tempo adquado, a morte.

Há casos onde estas variedades de mandioca mais tóxicas provocaram dezenas de mortes, como já aconteceu em países como Moçambique, mas também em Angola há alguns anos, nas províncias do Zaire e do Uíge, onde existem fortes indícios de ter sido essa a razão da morte de várias pessoas.

Em linguagem simples, Fernando Pacheco explicou que, na sabedoria popular das comunidades que têm a mandioca como parte da sua dieta alimentar de base, sabe-se que as chamadas mandiocas "amargas", que contêm maior potencial de produção de ácido cianídrico, devem ser utilizadas para produzir farinha, porque o processo de secagem ao sol e de maceração, através de um processo chamado volatilização, elimina os componentes tóxicos. A fervura é também essencial para diminuir os riscos.

As variedades "doces", com muito menor grau de toxicidade, embora todas contenham algum, excepto as que foram geneticamente manipuladas para não terem nenhuma percentagem de ácido cianídrico, podem ser consumidas cruas ou escassamente cozinhadas na forma de kizaca.

"O perigo ocorre quando as pessoas que estão a consumir estas variedades mais perigosas de mandioca não têm este conhecimento, porque já cresceram em meio urbano ou porque são originárias de regiões onde se conhece mal a planta, e as confundem e tratam como sendo a chamada mandioca doce, o que pode ser extremamente perigoso", notou o técnico.

Para que se tenha uma ideia clara do perigo do consumo das variedades "amargas" ou "selvagem", como é conhecida noutras latitudes, como, por exemplo, no Brasil, um dos elementos produzidos, em determinadas circunstâncias, a partir desta planta é o cianeto de hidrogénio.

E mesmo o famoso Zyklon B, o gás venenoso utilizado nas câmaras de extermínio dos campos de concentração nazis, durante a II Guerra Mundial, era composto quase integralmente por ácido cianídrico.