É na casa da dona Adriana que mais de 600 crianças e adolescentes desaguam todos os dias em busca de um futuro melhor. Foi, de resto, na casa dela que tudo começou: Em 2013, os jovens Alfredo Bumba, Lionel Domingos e João Damião estavam desempregados e as oportunidades não abundavam. Decidiram então recorrer à Igreja Católica e dirigiram-se ao Centro de Nossa Senhora da Paz, no Golfe 2, que frequentaram, para falar com o responsável da Paróquia de São João Calábria. Pediram um emprego, mas não tiveram sucesso. No entanto, o padre aconselhou-os a abrir um centro de explicações "para ajudarem as mamãs que não sabiam ler nem escrever".
Eles aceitaram o desafio e ergueram o projecto no quintal da dona Adriana Galangojo, mãe de um dos mentores deste projecto, com apenas duas salas de aulas, construídas com chapas, e três professores.
Com o passar do tempo, a dona Adriana percebeu que as duas salas não eram suficientes para tanta demanda. Acabou por ceder aos jovens grande parte do seu quintal e deixou de arrendar os anexos a inquilinos, aumentando o centro de duas para seis salas.
Esta semana, o Novo Jornal fez-se ao caminho e visitou o centro educacional Paz e Bem. À entrada, o silêncio surpreendeu. Já tinha passado a hora da oração e do hino nacional.
As crianças estavam a ter aulas nas oito salas de aulas existentes. Uma destina-se aos mais pequenos, que frequentam a pré-escola (iniciação), existe igualmente uma para a 1ª classe, uma para a 2ª, duas para a 3ª, uma para a 4ª, uma para a 5ª e ainda uma para 6ª classe, esta já frequentada por adolescentes.
O espaço dispõe ainda de uma secretaria-geral e de uma directoria, que partilham a sala. Lamentavelmente, há apenas duas casas-de-banho, uma para rapazes, outra para meninas, mas o cuidado com a limpeza impressiona.
Frequentam o centro mais de 200 alunos sem registo de nascimento (cédula) e há mais de 20 crianças órfãs, a maior parte filhos de vendedoras ambulantes. E é sobretudo a estas mulheres, que zungam o dia todo, que se deve a maior parte da comparticipação das muitas despesas que o centro tem. Cada uma delas paga mil kwanzas por mês para manter a limpeza básica do lugar.
Por causa deste projecto o número de crianças de rua baixou consideravelmente, e por inerência, o índice de criminalidade naquela localidade também diminuiu.
Este centro, onde se aprende de tudo um pouco, tem um impacto significativo na vida das crianças e adolescentes que o frequentam, como é o caso de Eva Miguel, de 13 anos, aluna da 5ª classe, que em menos de um ano aprendeu a ler e a escrever, tendo agora as disciplinas de língua portuguesa, matemática e história entre as suas predilectas.
As crianças também têm desenvolvido actividades extra, como arrumar a sala de aula com os professores, cantar, fazer desenhos e jogos.
Tânia do Nascimento, menina de sete anos, aluna da 1ª classe, vive com a sua avó. Ao Novo Jornal contou que ali aprendeu a cantar e a desenhar.
Há muitos sonhos no centro Paz e Bem: Há alunos que querem ser médicos, como é o caso do Jaime Ngola, de dez anos e frequenta a 3ª classe, que "gostaria de ajudar as pessoas adoentadas". Ou de Caetano Diamantino José, 12 anos, 6ª classe, que quer ser piloto, porque o seu irmão mais velho, entretanto falecido, tinha esse sonho, e ele gostava de o tornar realidade.
Muitas destas crianças, quando terminam a formação no centro, ficam paradas, porque não têm documentos de identidade, situação que ameaça a concretização dos sonhos de mais de 200 alunos, que estudam sem cédula.
O centro também enfrenta dificuldades, desde a área administrativa até à pedagógica.
O CEPB carece de grande quantidade de carteiras, quadros novos, materiais didáticos, merenda escolar...há ainda a necessidade da ladrilhar e climatizar as salas de aulas, no sentido de proporcionar um ambiente mais confortável aos alunos e aos professores.
Os materiais usados são doações de alguns particulares, nomeadamente das mães de alguns alunos que sentiram a necessidade de abraçar esta causa.
Quanto aos professores que lá trabalham, não são licenciados, mas são jovens voluntários com idades entre os 20 e os 25 anos, que receberam formação pedagógica.
O professor Tirson Laurindo, falando da sua experiência no centro, disse que já lecciona há quatro anos e quando lá entrou como candidato a professor não sabia nada sobre pedagogia. Tudo quanto sabe hoje, diz, aprendeu com os mentores do projecto.
"Quando abracei este projecto e pude conhecer a vida destes meninos, fiquei muito impactado e decidi ajudar no processo educativo", afirmou ao Novo Jornal.
Josefa Álvaro Cortez, professora da 4ª classe, está no centro há um ano e contou que ganhou "um afecto por leccionar", por causa do carinho que as crianças demonstram por ela.
A professora realça ainda que as crianças têm sido uma grande motivação para ela, porque vezes há em que os pequenos alegram os seus dias, sobretudo em fases em que ela fica cabisbaixa por algumas situações pessoais.
Em conversa com a directora do centro, Lurdes Álvaro Cortez, sobre o acompanhamento dos pais da vida académica dos alunos, a professora explicou que, muitas crianças que frequentam o Paz e Bem passam por várias necessidades. São, diz crianças "órfãs de pais vivos", uma situação que considera crítica.
O centro não tem parceria com outras escolas para acolher os meninos quando terminam a 6ª, por isso, alguns deles, sobretudo aqueles que os pais passam por várias dificuldades, ficam sem estudar, explica a directora.
"Queremos que nos ajudem a erguer esta escola até ao ensino médio", diz a directora do centro, que diz lutar incansavelmente para a ampliação do espaço.
Quanto à declaração dos alunos que terminam o ciclo de ensino, é reconhecida pela escola Sagrada Família, a primeira que acreditou no esforço dos mentores.
Desde o início da luta pela legalização da escola, já se passaram 11 anos, mas até hoje não teve sucesso, segundo a directora, pois há muita burocracia no meio deste processo.
Falando sobre a relação entre alunos e professores ao Novo Jornal, a direcção esclarece que a interacção é salutar, "como se fosse de pais e filhos", ressaltando que "apesar das péssimas condições da instituição, os meninos têm tido muitas facilidades para aprender e assimilam depressa, apontando as disciplinas de língua portuguesa e matemática como aquelas em que os alunos apresentam maiores dificuldades.
"Solicitamos uma ajuda às autoridades competentes, para nos ajudarem a ampliar este projecto, porque a educação é importante para o País, e se não tivermos meninos bem formados também não teremos uma sociedade idónea.




