Os dados das autoridades congolesas e das organizações e agências das Nações Unidas e da União Africana coincidem plenamente na evidência da excepcionalidade desta epidemia de Ébola que foi declarada a 15 de Maio mas pode ter começado logo em Janeiro.

O vírus responsável por este cenário dramático na RDC é a estirpe Bundibugyo, uma das cinco conhecidas do Ébola, mas a única que infecta humanos e não tem nem vacina nem tratamento conhecidos.

Essa é uma das razões para este crescente mapa da infecção que alastra para várias províncias da RDC a partir de Ituri, no leste do país, junto á fronteira com o Uganda, onde esteve a alastrar mas foi debelada em Junho ainda.

A outra razão é escassez de infra-estruturas de Saúde na RDC, exigindo a deslocação de um elevado número de pessoal médico e todo o tipo de equipamento, de forma a cobrir uma vasta região maior que muitos países no continente.

E como se fosse pouco, o leste congolês é a "casa" de quase 5 milhões de refugiados alojados em campos com condições longe do ideal, onde a infecção ganha tracção facilmente.

Por cima deste manto de problemas, esta é uma das geografias africanas mais densamente povoada pelo crencismo ancestral na medicina alternativa, nos curandeiros e nos feiticeiros, que afastam as vítimas dos postos médicos oficiais e os levam para as suas aldeias onde se estabelecem como novos vectores da doença.

Um dos problemas mais sérios (ver links em baixo) é que a cultura local contempla a despedida dos cadáveres de familiares e amigos com toques no corpo, o que é uma auto-estrada para o vírus que alastra através dos fluídos corporais das pessoas infectadas.

A gravidade desta epidemia é de tal ordem que as organizações internacionais, como a OMS, e cada vez mais especialistas, defendem uma intervenção internacional musculada de forma a evitar que a infecção ganhe uma dimensão para a qual não seja antecipável uma resposta eficaz.

Cenário actual

Com este cenário em pano de fundo, a 17ª epidemia do vírus Ébola desde que foi registada a primeira, em 1976, no oeste da RDC, Equador, ultrapassou os 5.000 casos, anunciaram esta quarta-feira, 19, as autoridades congolesas, e as equipas de resposta alertam que a doença se está a propagar a uma velocidade sem precedentes.

Segundo os mais recentes dados do Ministério da Saúde da RDC, a epidemia registou, até ao momento, 5.021 casos, incluindo 2.378 mortes, avançam as agências.

As equipas de resposta alertam que a doença se está a propagar a uma velocidade sem precedentes, ultrapassando os esforços para a conter nas regiões mais remotas do país.

A rápida propagação da doença é alimentada pela insegurança, pelas deslocações forçadas e pelos intensos movimentos populacionais.

A atual epidemia de Ébola infetou e matou mais pessoas a um ritmo mais acelerado do que qualquer outro surto na história.

Desde o primeiro caso detetado, tem-se propagado cerca de três vezes mais rapidamente do que o surto que assolou a África Ocidental entre 2014 e 2016, que foi o surto de Ébola mais mortífero de que há registo, com mais de 11.000 mortes.

O diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou na terça-feira que a epidemia do vírus Ébola na RDC está "longe de estar controlada" e avisou que há um elevado risco de propagação internacional.

"Há três meses, declarei que a epidemia da doença pelo vírus Bundibugyo na RDCongo constituía uma emergência de saúde pública de interesse internacional. Desde então, a epidemia espalhou-se rapidamente e o risco de uma propagação nacional e internacional maior continua elevado", avisou Tedros Adhanom Ghebreyesus, na abertura de uma reunião do comité de emergência sobre o Ébola.

Segundo recentes informações da OMS, o vírus do Ébola começou a circular no leste da RDC em fevereiro, embora uma investigação publicada na revista "Science", no final de julho, tenha sugerido que as primeiras infeções teriam ocorrido ainda antes, pelo menos em janeiro.

Após a declaração do surto em Ituri, o vírus propagou-se a várias regiões, atingindo o estado de epidemia na RDC e atingiu a vizinha Uganda, país que se declarou "livre do Ébola" a 28 de julho, após registar 20 casos confirmados, incluindo 15 casos considerados importados do país vizinho, entre os quais se contaram duas mortes.

A epidemia está associada à estirpe de Bundibugyo, cuja taxa de letalidade oscila entre os 30% e os 50% e para a qual não existe vacina autorizada nem tratamento específico, segundo a OMS.

O vírus do Ébola transmite-se por contacto direto com fluidos corporais de pessoas ou animais infetados e provoca febre hemorrágica grave, vómitos, diarreia e hemorragias internas.